Domingo, 17 de Outubro de 2010
O Coelho das passas

No século XVII, Georg Franck von Frankenau (1643 - 1704), era autor, nas suas sátiras médicas, da primeira referência escrita ao Coelho da Páscoa.

Georg Franck von Frankenau (1643 - 1704)


 

As Sátiras Médicas de Frankenau têm este nome, não porque fossem sátiras no sentido mais vulgar dado ao termo, mas porque se incluem no contexto de produção bibliográfica da altura, muito empenhada em coligir fenómenos maravilhosos (mirabilia), muitos dos quais sem qualquer explicação e que, bem vistas as coisas, pouco vieram a acrescentar ao conhecimento humano, a não ser pelo lado anedótico, mais afim à cultura popular que à cultura científica. Desde supostos benefícios em comer vidro, até casos duvidosos de glossolalia, Frankenau vai juntando tudo no mesmo saco de uma literatura eclética saturada de curiosidades que, por vezes, se estendem a territórios de um vago erotismo. Daí o termo Sátira, segundo as palavras do próprio Frankenau: do latim satur, cheio, saturado ou,  também do latim Satura, que significa miscelânia ou, ainda, e alternativamente, em referência à obscenidade dos Sátiros ou ao substantivo grego sathê, que se referiria ao órgão sexual masculino. Não há intenção crítica, portanto, nestas Sátiras, rapsódias ou simples dissertações para gozo do espírito nas coisas raras ou exóticas do mundo. Infelizmente, não tenho acesso ao texto original, Satyrae Medicae, Continuatio XVIII: Disputatione ordinaria lisguinas de Ovis Paschalibus von Oster-Eyern , de 1682, onde o autor disserta sobre os efeitos nefastos do consumo exagerado de ovos da páscoa trazidos pela Osterhase, ou lebre da Páscoa, pelo que muitas dúvidas que tenho quanto ao teor do dito texto não poderão aqui ser cabalmente esclarecidas.

 

Independentemente do que diz este autor seminal do mito popular, sempre me pareceu óbvio que a ideia de pôr um mamífero a pôr ovos se deve à forma das fezes do mesmo, de forma esférica a oval, e não a qualquer simbologia onde se cruzaria o coelho como atributo de fertilidade e o ovo como símbolo da ressurreição. Trata-se de imaginar um coelho a pôr ovos, e isso é suficientemente ridículo para se saber que existe, na ideia original, muito da proverbial malandrice do povo. Na cultura popular há, ainda, a tendência para associar as fezes de diversos animais aos frutos secos, nomeadamente as castanhas e as passas, em expressões como "castanhas: um burro as caga, tu as apanhas" ou "passa seca", para designar qualquer tipo de caganita.

 

Lembrei-me de falar disto apenas porque, em plena época outonal no hemisfério norte, deu-se o nascimento, em Portugal, da figura tutelar e salvífica do Coelho das Passas, capaz do prodígio da postura de ovos fecais que o povo colecciona com particular devoção e devora com especial apetite. Frankenau, defensor da ingestão de pedaços de vidro, mas sábio defensor da temperança no que diz respeito ao consumo de ovos leporinos, ficaria, com certeza, enojado com tão asqueroso hábito de um povo que parece saído de um qualquer álbum de curiosidades do século XVI, ao lado dos antropófagos bicéfalos da Nova Guiné. Fica aqui o registo de tão invulgar e absurdo costume, esperando que me seja dado o crédito futuro de ter sido o primeiro autor desta notícia que, dado o efeito narcótico e alucinogénico dos ditos ovos, não é notado pelos próprios adeptos de tal dieta.

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publicado por Manuel Anastácio às 17:56
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7 comentários:
De gláucia lemos a 18 de Outubro de 2010 às 02:31
Interessantíssimo este artigo. Conhecia a simbologia de fertilidade quanto ao coelho, e de ressurreição referente ao ovo de Páscoa, que a maioria das pessoas conhece, mas dos demais costumes nunca tivera notícia, e fiquei arrepiada com aquela coisa do burro ser o "distribuidor" das passas, ou castanhas. Principalmente porque gosto tanto de passas que acho que não vou deixar de comê-las por isso, mas que nunca mais vou esquecer essa história toda vez que estiver com uma caixinha de passas à mão rsrsrs .
Em tempo: Em meu comentário anterior referente ao poema Eternidade cometi uma desatenção terrível contra mim: "E HÁ quem diga que a sorrir." grafei "E A quem diga q a sorrir, isto é, o verbo haver sem H. Depois q reli fiquei vermelha. Espero q vc saiba que eu sei escrever o verbo haver :)
De Manuel Anastácio a 18 de Outubro de 2010 às 07:28
É apenas uma gralha... Não merece preocupação... :)
De Manuel Anastácio a 18 de Outubro de 2010 às 07:32
Ah: e nada contra as castanhas e as passas... falo das comestíveis, claro... :)
De Silvério a 18 de Outubro de 2010 às 21:25
Talvez só notem quando passarem as passas do Algarve.
De Manuel Anastácio a 18 de Outubro de 2010 às 23:19
Tiraste-me as passas dos incisivos.
De Silvério a 19 de Outubro de 2010 às 14:12
Em tempos de vacas magras e menos emissões de CO2, muitos portugueses pelos caminhos de Portugal apanharam “passas” de burro ( ou burnico ou burnisco, julgava ser um destes termos o sinónimo mas o santo Google não me ajudou ), não para lhe servirem de manjar, mas de fertilizante hortícola, o que pelas transformações da natureza tarde ou cedo lhes iam parar à mesa.
De Manuel Anastácio a 19 de Outubro de 2010 às 23:07
Também ando a investigar. De burnicos, burniscos ou bornicos só encontro mesmo os meus ouvidos que deles ouviram falar no nosso torrão natal...

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