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Sábado, 16 de Outubro de 2010
Modelos de Construcción del Objeto, Erick Beltrán, 2010

Carregar na imagem para ver em pormenor.

 

Quando estava a estudar para exercer a profissão que hoje vou aprendendo a exercer, eram os meus colegas frequentemente assaltados pelo medo das perguntas dos alunos para as quais não tivessem resposta. Eu, pelo contrário, nunca tive pejo (antes pelo contrário, tenho muito gosto) em dizer que não sei aquilo que não sei, seja sobre o animal, real ou imaginário, que o menino viu ontem numa macacada, seja sobre aquelas coisas que se interpõem entre a visão científica cumpridora dos paradigmas aceites pela comunidade dos que estudam os objectos, e a visão sonâmbula dos conceitos criados por um povo criativo mas limitado, nos ciclos e repetições poéticas de um mundo que não entendem. A Ciência é prosa e invenção. O sonho é poesia e repetição. Parafraseio, agora, uma frase em resposta à Maria Helena numa das resenhas dedicadas à Gláucia. Há coisas que não sei. E não invejo a Deus o saber tudo, se é que sabe. A ignorância é o campo onde a alma se estende, aquecendo-se em raios de sabedoria, mas não inflamando-se nela. Os estados místicos de êxtase teresianos, que não são mais que estados de consciência alterados, dão a sensação de que, num breve momento, tudo se compreende. E por alguma razão são tão passageiros e dão lugar a uma ressaca mística. Não somos lenha para tal fogueira.

 

Ora, a Gláucia pegou numa fotografia minha exposta no Facebook, onde apareço frente a um gráfico misterioso, e perguntou o que era. Um gráfico onde eu, com a cabecinha mesmo no centro dos círculos, aparecia aureolado de conceitos zumbindo como melgas. Zumbem de facto, estes conceitos, e outros. De forma confusa, em atropelo, e não organizadinhos segundo eixos de orientação bem definida como no caso desta obra de arte de Erick Beltrán, exposta no MUSAC, Museu de Arte Contemporânea de Castela e Leão, onde me tiraram a fotografia. Beltrán é um artista mexicano, nascido em 1974 e radicado em Barcelona, que transforma conceitos e as suas relações em obras gráficas, diagramas e infogramas que ascendem ao lugar de obra de arte tanto pelo seu conteúdo estético como pelo seu conteúdo informativo real, textual e, apesar de não especializado, tendente à objectividade. Por alguma razão é o objecto o conceito gerador do gráfico em questão.

 

A Arte Contemporânea centrou a autoria da obra de arte no indivíduo, espoliando-a (algo hipocritamente) ao artista que parece imolar a sua individualidade e o seu talento à capacidade dos outros em pensar aquilo a que se nega a fazer. Tem-se arte quando há alguém disposto a atribuir esse significado (e valor) artístico ao objecto criado, escolhido ou eleito. Neste gráfico, ainda que seja o objecto o centro, o todo é o indivíduo. Em contraste com a utilização dos conceitos num contexto poético, Beltrán expõe-os de forma sistemática, de acordo com critérios lógicos e estabelecimento de dicotomias quase objectivas, não fossem elas relativas a um ser humano cuja perspectiva jamais poderá ser objectiva porque está toldada pela inevitável ignorância que, mais que aquilo que sabemos, nos guia os passos. Confrontado com uma situação para a qual não se tem uma resposta objectiva e mecanizada, o ser humano é obrigado a distorcer a realidade de forma a conformá-la aos seus eixos de entendimento. Caso não o faça, entra na angústia da incapacidade de decidir. Um processo de decisão é sempre uma escolha feita pela emoção ao confrontar o nosso quadro mental ao quadro objectivo que nos coloca o problema.

 

Beltrán é o enciclopedista das perspectivas individuais. Ao analisar e confrontar a posição específica de cada um dos conceitos expostos no quadro referido, serão muitas as vezes em que eu mesmo seria tentado a mudá-los de sítio. Aquele não é o meu modelo de pensamento. Ao contrário do modelo das coisas materiais físico-químicas, para as quais, dentro de um paradigma científico, se pode chegar a um consenso, as perspectivas individuais são mais distintas que as nossas impressões digitais. O Homem Duplicado de José Saramago, por exemplo, pegou na questão da identidade pelo lado errado - não é a forma exterior, mas a interior, que nos identifica. E o professor de História e actor, sendo iguaizinhos, em nada eram iguais, e em nada se sobrepunham, em nada havia a motivação para a exclusão obrigatória do outro a não ser a inveja e a oportunidade de ocupar o lugar do outro. É um mau exemplo, ainda que o exemplo do professor de História de Saramago possa ser repescado por outra razão. Saramago apresenta o professor como defensor de uma extravagância pedagógica original: a de que a história deveria ser contada ao contrário, do presente para o passado mais remoto. Ora, ao contrário do que Saramago pressupõe, esta tese é popular nos meios pedagógicos há muito tempo e é aplicada frequentemente. É a noção de que se deve avançar, na construção do conhecimento, a partir daquilo que é conhecido ou de acesso imediato, em direcção ao que  mais se afasta da experiência quotidiana. Foi assim, aliás, que, bem visto, se criou a própria história. Ora, da mesma forma, a partir dos anos sessenta, anos de origem da actual inominada Arte Contemporânea, há no círculo dos historiadores a tese de que, em vez de se partir das grandes estruturas políticas, económicas, sociais e culturais (o macro), há que fazer o caminho inverso, partindo do que, mísero e mesquinho, lançará alguma luz a um novo caminho. E, na verdade, pululam agora as histórias sobre as coisas pequenas e, a partir desta nova história muitas respostas se foram iluminando e muitas questões se foram reformulando. Beltrán é outro cronista do mundo individual. É um retratista de ideias no seu meio natural: a cabeça de cada um.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 11:57
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7 comentários:
De gláucia lemos a 16 de Outubro de 2010 às 16:26
Obrigada pelo artigo explicando sobre minha pergunta. Não é assunto muito de meu interesse, mas estava curiosa. Obrigada. Um beijo.
De Manuel Anastácio a 16 de Outubro de 2010 às 17:46
A Arte Contemporânea não faz, portanto, cócegas à Gláucia... A mim, confesso, interessam-me mais estas tentativas de conhecer o ser humano que certas formas tradicionais de o alienar em caminhos estéreis. A cabala que, por exemplo, e como qualquer superstição, interessa apenas pelo que revela sobre as estruturas mentais de quem a criou do que por si mesma.
De gláucia lemos a 16 de Outubro de 2010 às 18:33
A arte contemporânea me parece fria demais para me interessar mais que en passant ". Na verdade, depois de ter tido meu período de pensar que fazia arte visual, descobri que me interessam muito mais os problemas da estética, a teoria, o pensamento q está por trás da arte. E passei a ler filosofia da arte. Quanto à Cabala, nunca li nada a respeito, já vi gráficos, ilustrações a toa, é mais uma coisa da qual sei nada, mas sou muito curiosa e sempre quero saber alguma coisa das muitas coisas que ignoro. Ter alguma noção do q desconheço, se me interessar, ir fundo, se não, ficar nas noções superficiais e deixar para lá. Vontade de aprender um pouco de tudo o q for possível. Só isso.
De Manuel Anastácio a 17 de Outubro de 2010 às 00:56
Na verdade, a impressão de que a Arte Contemporânea é fria, ainda que frequente é, em grande parte, um preconceito. Aliás, se a Gláucia se interessa pelo pensamento atrás da arte, a Arte Contemporânea é, geralmente, esse pensamento tornado em prática. Há muita poesia em muitos autores que parecem frios - inclusive neste autor...

Mas como eu sempre digo, a maravilha do mundo é todos termos inclinações diferentes. Todos orientados na mesma direcção seria a monotonia total. :)
De gláucia lemos a 17 de Outubro de 2010 às 02:51
Concordo quanto à importância da diversidade. Ela enriquece o panorama humano e todos perderíamos a alegria às vezes, outras vezes a perplexidade, das descobertas que fazemos das almas e das personalidades que vamos encontrando pela vida. O que também é enriquecedor para quem conta histórias para adultos.//Não me parece que vc seja um autor frio, nos seus poemas que conheço encontro sempre uma certa emotividade. Tantas vezes bastante comovente ( nada de fazer doce não senhor rsrsrs ). Considero frias as poesias de João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira (com excepção de alguns poemas), embora tão louvados tendo seu lugar na história da nossa literatura, mas tenho minha opinião pessoal sem querer faltar com o respeito. Aliás não sou crítica literária devo calar a boca. Acabou o espaço.
De Maria Helena a 18 de Outubro de 2010 às 11:19
Longe de mim querer melindrá-lo quando invoquei Teresa d'Ávila, num comentário ao seu poema, Manuel.
Teresa de Jesus é a padroeira dos Escritores e não foi impunemente que Truman Capote se inspirou na célebre frase "Se derraman más lágrimas por las plegarias atendidas que por las no atendidas" para escrever mais um livro.
Boa semana.

De Manuel Anastácio a 18 de Outubro de 2010 às 12:58
Mas eu tenho enorme respeito por essa Doutora da Igreja! E a sua poesia está em lugar de honra na minha estante. Não me melindrou em nada. Fiquei, antes pelo contrário, envaidecido.

Boa semana também.

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