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Quinta-feira, 14 de Outubro de 2010
O Cão Azul e Outros Poemas, de Gláucia Lemos

A poesia para crianças de Gláucia Lemos é pura claridade, em contraste com o fundo escuro e indefinido da sua poesia para adultos. Com o ritmo dos trava-línguas e a lúdica transformação das palavras em elementos sonoros independentes e recontextualizados, cria alguns dos mais divertidos exemplos de lírica para crianças que conheço, especialmente quando ao virtuosismo sonoro se junta um virtuosismo conceptual semelhante ao dos provérbios populares ("Lagartixa, quando cresce, vira camaleão? / Camaleão, quando cresce, vira um jacarezão? / - Vira não!). A cultura popular é, de facto, a grande referência desta poesia, quer a nível vocabular, quer a nível formal, quer mesmo ao nível das próprias estruturas mentais que cedem espaço a uma certa filosofia para crianças, como acontece no poema "Verdades e Mentiras", onde, por exemplo, aborda a ironia e o carácter ambíguo da linguagem.

 

'"Se digo "pois não!"

Estou dizendo "sim!"

Não tô negando nada.

 

Se digo "pois sim..."

quero dizer "não..."

Mas que trapalhada..."

 

Mas há também alguma premonição dos seus futuros versos para públicos mais adultos. O poema "Os olhos dos meninos", na sua ternurenta lição de fraternidade tem já algo de abandono, de destino e da inquietação metafísica do caminho como sucessão de ausências, de recuperação de fragmentos de memória ou de absoluto esquecimento.

 

Mas, sem dúvida, é o jogo de desmontar as palavras que maior identidade dá a esta poética juvenil. Não é um recurso inteiramente original, mas nem todos o conseguem levar a cabo com a mesma simplicidade de meios e clareza de linguagem. Gláucia, ao permitir-se à interpretação das onomatopeias ("Canta um cri-cri / de quem falar deseja, / em hora incerta. / Fica tentando a sílaba, / e, no tentar, gagueja, / mas nunca acerta.") ou ao impiedoso esquartejamento das palavras de cujos pedaços estropiados nascem pequenos monstros domésticos ("... encontrou um rabanete / e tirou o rabo dele. Ele ficou só anete. // Rabanete não gostou! / - Eu não quero ser Anete!"), volta ao poder mágico da cabala infantil em que não há nas palavras qualquer arbitrariedade, mas uma identidade profunda entre as mesmas e uma realidade que, porém, se transforma, por vezes de forma fantástica, por vezes roçando o horror que povoa os sonhos das crianças.

 

As ilustrações, matissianas, de Silvana Menezes, enquadram o texto num diálogo de sensibilidades que transcende o mero decorativismo e abre caminhos para a releitura dos poemas sob outras ópticas, numa luz diferentemente fraccionada, consoante a idade e a história pessoal de quem lê e um dia voltará a estes textos, transfigurados então, como as palavras sorridentes mandadas "de presente / ao porto de Portugal". A poesia também é, sempre, um nada tudo de profecia.

 

publicado por Manuel Anastácio às 19:27
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6 comentários:
De glaucia lemos a 14 de Outubro de 2010 às 21:06
Com um presente por dia, fico tão envaidecida que corro o risco de sair pelos armários a buscar que livros mais poderia enviar " ao porto de Portugal", e atrapalhar a vida normal de um certo professor, melhor dizendo, um adorável bruxo, que transforma os meus textos em obras valiosas se forem julgadas pela óptica das resenhas elaboradas.uff já viu um período tão extenso?// Hoje tive uma surpresa, ali ao lado o título do meu livro. Vejo q vc apreciou os poemas lúdicos q o meu lado infantil criou. Não sabia como poderiam vir a ter uma leitura adulta, talvez por amadurecimento consequente a " palavras sorridentes mandadas de presente ao porto de Portugal"? Vc é quem está dizendo, é o profeta vendo premonições em poesias. Conte-me mais sobre elas. Será que posso acreditar em profecias de poesias? rsrsrsrs.Se depender de palavras sorridentes, aqui vão mais algumas, com um grande abraço. Gláucia .
De gláucia lemos a 14 de Outubro de 2010 às 21:30
Com um presente de resenha por dia estou ficando envaidecida. Quando não tiver mais livros aí, vou sentir falta.Também se ficar enviando mais livros vou acabar atrapalhando a ida normal de um certo professor, melhor dizendo, de um adorável bruxo que transforma em obras valiosas os meus despretensiosos textos. Que bom, mas não tenho intenção de atrapalha. Foi uma surpresa encontrar esta resenha de hoje. Vejo que meus poemas infantis agradaram./Não sabia como minhas poesias infantis poderiam ser vistas por uma óptica adulta, mas se vc está dizendo... Seria em consequencia de "palavras sorridentes mandadas de presente ao porto de Portugal? " rsrs . O porto de Portugal... rsrsrs . Vc é quem sabe, é o profeta. Será que acredito em profecia de poesias? Conte-me mais sobre elas. Se depender de palavras sorridentes, aqui vão mais algumas para você, muito sorridentes, com um grande abraço. Gláucia .
De gláucia lemos a 14 de Outubro de 2010 às 21:49
Foi uma surpresa encontrar a resenha de O Cão azul. Duas resenhas em sequência realmente são dois presentes em dois dias, estou ficando envaidecida. Acho que estou atrapalhando a vida normal de um certo professor, melhor dizendo, de um adorável bruxo que transforma em valiosas obras meus despretensiosos textos, se forem julgados a partir do que ele escreve.Vc desvela minha intenção lúdica e a sente qual se fosse o autor. Brincar com as palavras, criança gosta disso.//Não sei como poderiam vir a ser olhadas por uma óptica adulta. Talvez por meio de "palavras sorridentes, mandadas de presente ao porto de Portugal'? Vc é quem está dizendo... O bruxo faz profecias e as atribui à poesia, esse bruxo é muito sabido! rsrsrs Será que posso acreditar em profecias de poesias? Conte-me mais sobre elas. Se depender de palavras sorridentes mandadas de presente, aqui vão mais algumas para você que parece gostar delas.Obrigada pela resenha tão bem feita! E um grande abraço também de presente, se é que merece ser chamado de presente.(Este é o terceiro comentário que envio hoje, os anteriores sumiram logo após aparecerem no espaço do blog. como todos tratam do mesmo assunto, não se surpreenda se receber 3 comentários semelhantes)E pode rir da minha incompetência no assunto.Gláucia.
De Maria Helena a 14 de Outubro de 2010 às 23:00
Verdadeiro maná se revela a "incapacidade tecnológica" de Gláucia; como é bom ler a água correndo e sentir-me a mergulhar no macro e micro que constituem os caminhos.
Não sei de que mais gostei (Manuel, tem de me desculpar, sff): se da apreciação de Manuel, se da repetição de comentários da Gláucia.
Sinto-me num banquete em que aprendo a saborear e a entender o quanto de plenitude têm as migalhas.
Abraço aos dois.
De Manuel Anastácio a 14 de Outubro de 2010 às 23:30
Poesia é repetição. Prosa é invenção.
De Gerana Damulakis a 16 de Outubro de 2010 às 00:58
Por tudo isto, a escritora Gláucia Lemos estará tomando posse na Academia de Letras da Bahia, no próximo dia 21 de outubro; pela escritora completa, pelo que enriquece a instituição.
Mais uma bela resenha, M.

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