Terça-feira, 12 de Outubro de 2010
Trilha de Ausências, de Gláucia Lemos (contributo para uma resenha futura)

 

Adriaen van Utrecht: Vanitas - Natureza Morta com ramo de flores e caveira, c. 1642

Um dia, alguém escreveu  aqui que havia, num conto poema de Gláucia, a humanidade inteira concentrada na figura de Penélope, a mulher que fica, a mulher que espera, a mulher que trabalha na esperança de um retorno redentor que tarda. Em “Trilha de Ausências”, Gláucia vai além da figura de Penélope e penetra no próprio Universo de Ulisses. Tenho andado com o livrinho de lado para lado, fui juntando notas em folhas que foram engrossando o não muito espesso volume e, perante os remorsos de não ter escrito uma resenha a tempo e horas para uma autora que, mais que escritora, poetisa, contista, é um ser humano de excepcional humanidade, vi-me obrigado a dizer a mim mesmo: em vez de escreveres uma resenha, escreve já qualquer coisa, e depois, compõe com os trapos esfiapados do que te cair na saca de trapeiro um texto, uma teia, uma tapeçaria mais completa. E quando assim determinei a sorte das notas que fui sarrabiscando com lápis do IKEA, descobri que o fantasma erudito de minha casa (que, sim, tenho um fantasma erudito a passear em casa, que me rouba livros que, num qualquer dia de névoa pura, vêm pousar-me às mãos, dizendo, como é que nunca me viste, se estou aqui) roubou-me a “Trilha de Ausências”. E compreendi que o livro apenas se recusou a continuar a ser mais macerado que uma bíblia nas mãos de uma Testemunha de Jeová.

 

O título do livro tem um poder de síntese arrebatador.  Há muitas teses sobre quais os grandes temas da grande literatura. Será o Amor? Claro que é. Mas o Amor é luva adaptável a todas as mãos. Na literatura europeia, desde o século XIX,  o segredo é o tema que mais tem inspirado os escritores. O segredo que não pode ser desvelado. Que deve, a todo o custo, ser protegido, como é pungentemente explorado em forma de tese/narrativa  em “O Leitor” de Bernhard Schlink. Mas Gláucia consegue, num mero título, fundir a visão própria do romance: o caminho stendahliano, à espera, paciência e contemplação poética que remonta a Homero. Mas sem grande segredo. As confissões e acusações de Gláucia não são envergonhadas e têm, por vezes, a insolência e astúcia masculina de Ulisses, entrelaçadas com a máscula androginia de Santo Agostinho, sem que deixe, jamais, de ser simples e supremamente mulher, de ser espera e, muito, resignação religiosa. Resignação essa que se justifica e redime, no sentido pejorativo que possa existir na palavra, através da audácia de quem se faz ao caminho com a sapiente irresponsabilidade de Ulisses, mas também com o doce desencanto de Penélope. Gláucia, dona do mais doce e feminino sorriso, traz nos traços do rosto tanto os caminhos violentos dos povos invasores, como o abraço quieto daqueles povos que, ou violentados ou fecundados no esplendor da mestiçagem, continuaram a esperar pelo eterno ciclo da Natureza, mesmo quando a enxurrada parecia tudo ter destruído. Por força do Amor e da inexorabilidade e absurdo da existência. Os poemas de Gláucia são existencialismo genético, enformado em sensibilidade que, reconhecendo o absurdo que rege as relações humanas, das mais superficiais às mais profundas, recusa o absurdo, porque ao Pathos, o caminho, responde sempre com um Ethos uma ética, uma morada.

 

No poema “Recado”, Gláucia Lemos começa por estabelecer o território vasto da geografia mítica da sua íntima epopeia. Termina esse poema dizendo que amar-te “mais intenso foi que penetrar na morte”. Amar-te. “Te amar”. Fala aqui do amor que une o escritor do poema pelo leitor idealizado. Aquele que, provavelmente, não lerá o poema. Porque entre o autor do poema e o leitor ideal há o abismo da morte e da intransponibilidade. Sempre. Tal como entre dois amantes, cada carícia parece apenas agravar os limites dos corpos e a impenetrabilidade das almas. Há também um sentido quase didáctico nesta ideia. Entre Bach e os compositores do período romântico interpuseram-se gerações que, apesar da sua soberba arrogância de filhos ingratos, não poderão negar uma paternidade real, para sempre cavada entre os que deram à luz e aqueles que viram a luz dada por pais a que se não poderão aconchegar num abraço de amor, calor de pele e pulsação sanguínea, no aconchego do filho que sente o bater do coração da mãe e teme, em todos os horrores que a infância destila, o momento em que a essa pulsação se seguirá o silêncio como resposta aos gritos, seguindo o curso previsível da Natureza. Há, em “Bichos de Conchas”, também de Gláucia, essa sina terrível dos entes que se amam e irremediavelmente se separam. Irremediabilidade essa que nunca é definitiva pela mão de Gláucia. Há, talvez, um fundo místico e religioso fundado numa crença pessoal de reencontro, mas que nunca é explícito. Gláucia não é autora de catecismos. As suas crenças nunca são impostas mas sublimadas em imagens e em actos de amor e espera, fundindo duas virtudes teologais, a Fé e a Esperança, e revestindo a maior de todas, o Amor, na sua verdadeira tradução para a nossa língua.

 

Gláucia revisita, nesta sua poesia amorosa (mais filosófica que lírica, diria eu), o indissolúvel pacto entre o Amor e a Morte. Mas, em vez da tragédia, em vez de Romeu e Julieta e do veneno e da espada que encurta o reencontro na decomposição; em vez de Pedro e Inês e da procura da justiça a qualquer custo; em vez de Tristão e Isolda e da entrega orgásmica a um wagneriano Espírito do Mundo, Gláucia oferece-nos a placidez calma de quem espera, encontrando, já, nessa espera, um clarão de felicidade. Há, com certeza, a escuridão da impossibilidade, da dor e da dúvida, mas apenas como contexto desse clarão e dessa luz que transborda, aliás, do seu pessoal e invariável sorriso que, infelizmente, apenas conheço de fotografia.

 

No poema “Percurso”, Gláucia desenvolve uma forma rítmica e poética que me é cara, brincando com o som e com a forma, liberta de outros cânones que não aqueles que o espírito que escreve pressente a partir da verdade que releva da beleza do mundo revelada pelos nossos sentidos. Podia chamar-se Scherzo, a esta exploração de afinidades sonoras entre as palavras que vão para lá da aliteração e da rima, na procura de uma flaubertiana palavra justa para um justo e amoroso pensamento. Há a procura de um ritmo ético-retórico, onde se consegue a persuasão do discurso através da exposição de imagens fortemente pictóricas, dispostas segundo uma estética própria das colagens criativas e da montagem cinematográfica, onde a memória da imagem anterior interfere com a exposição da imagem seguinte,  revelando a Natureza do tema unificador destes poemas, que é o “percurso” (ou “trilha”) enquanto acumular de ausências.

 

Se Stendhal dizia que o romance é um espelho ao longo do caminho, Gláucia demonstra que a literatura é o próprio caminho. Se Stendhal considerava que o caminho era real, e a literatura o seu reflexo imaterial, Gláucia demonstra que o caminho nunca é real para além do passado/ausência que se acumula enquanto se caminha (“nos rastros, o pó é o sangue dos perdões inúteis”). Há na palavra passado o significado de “passo dado”, de passo irreversível, para sempre engolido no vazio e na ausência, embora seja nessa ausência e nesse passo dado que se encontra a dor que motiva e orienta o passo que se dá e se imaginam os passos que se darão.“Tudo fica nos rastros. Só as cicatrizes não. As cicatrizes seguem todos os passos no percurso”.

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publicado por Manuel Anastácio às 23:53
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5 comentários:
De gláucia lemos a 13 de Outubro de 2010 às 06:04
Querido Manuel: Quando alguma coisa me toca profundamente, perco a possibilidade de me expressar, literalmente sem palavras. Assim estou diante do seu comentário sobre o Trilha de ausências. Mas tenho que contar que meu título original era Lírica inútil, comentei este título em um grupo de amigos, e um colega condenou dizendo q o título para meus poemas é Trilha de ausências porque ausência e vazio são meus temas. Os outros amigos presentes desaprovaram o Lírica inútil e o livro ficou rebaptizado . O mérito do título não é meu, pois. Mas os poemas são meus sim, não aceito q interfiram neles. E vc me emocionou com tantos elogios. Fui sorrir frente ao espelho... e achei vc muito generoso. obrigada. Vive um fantasma erudito em sua casa? E surripiou o livro? (risos) . Posso mandar-lhe outro, caso deseje. Por ora fique com um beijo carinhoso. Gláucia .
De Manuel Anastácio a 13 de Outubro de 2010 às 06:45
O fantasma tem devolvido os livros sempre. Erudito, mas honesto. E continue sorrindo.
De Gerana Damulakis a 13 de Outubro de 2010 às 18:21
Manuel, poeta como é, soube resenhar o livro de Glaúcia como ninguém. Um leitura e tanto, M.
De Maria Helena a 14 de Outubro de 2010 às 22:51
A perda da unicidade é a condição de toda a fecundidade: todo o instinto de bastar-se a si mesmo, de começar uma qualquer pureza no isolamento é estéril e privado de benção.
Que melhor meio de multiplicação haverá que o da cumplicidade, generosidade e liberdade entre dois poetas?
Digo mais, quem tem a graça de vos ler, Gláucia e Manuel, testemunha a água bebida e pode preencher as páginas vazias que a água que caiu fora da cisterna impediu de escrever.
Das muitas vezes que neste cantinho me vem o cheiro a rosas, esta é de tal modo intensa que vou fechar os olhos e "ouvir o aroma" do Reino.
Um abraço ao dois.
De gláucia lemos a 15 de Outubro de 2010 às 01:35
Maria Helena: Não me parece que tenha caído a água fora do cântaro e por isso a página tenha ficado em branco. O texto que você acaba de postar, em mensagem a Manuel e a mim, não é menos que poesia em prosa. Um belo texto. Tenho estado pensando como um sentimento afectivo encurta as distâncias; sem muito tempo decorrido, conto como meus amigos 3 portugueses, com os quais até brinco dizendo algumas bobagens, com uma confiança que, com algumas outras pessoas que conhecesse de perto, talvez não tivesse naturalidade. Você, Antonieta e Manuel. (ladies first) Obrigada por serem tao afetuosos. Contem com o lugar especial que têm à cabeceira da mesa do meu coração. 3 beijos, um para cada qual. Gláucia

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