Domingo, 3 de Outubro de 2010
Leito comum

Era o pior de todos os tempos.

Era o melhor de todos os tempos.

Era, por fim, o início,

O caminho e a certeza do precipício. a qualquer passo.

Tinha a certeza de que dos meus braços de espinhos

Só flores poderiam surgir

E que os meus gestos imperfeitos

Não eram erros a corrigir.

Era o tempo de todas as certezas

Era o tempo de todas as incertezas

De todos os beijos que não demos e que escondemos

Atrás

Da nossa voz.

Porque era, de todas as idades, a mais perfeita

E a mais desfeita em chagas e impuras ilusões.

Era o melhor de todos os tempos.

Era, foi e será. Mais agora, em que somos,

De todas as idades e momentos,

Apenas humidade, silêncio,

Respirar, claustro de sonhos,

Beijos manchados pelo desejo, cabo de todos os tormentos.

O melhor dos tempos ardeu já nas palavras que trocámos

Quando os nossos lábios nem tocarem-se podiam, manchados pela distância.

A paixão consome o fogo do regresso

No óleo sacro extracto em frio, tremor e ânsia,

E chamar de amor às cinzas

É apenas sapiente dor extraída de arrogância.

Não são estes os melhores de todos os tempos.

Nas horas segredam segundos agudos como feridas

E a cada meia hora repetem-se as partidas sem que se anuncie qualquer chegada.

Não é o melhor dos tempos

Não é o pior dos tempos

É apenas tempo de assim o tornar

Ao, a ti, em ti retornar, no nosso leito, manchado

Por todos os tempos imperfeitos

Em que foi o nosso amor, perfeito,

Declarado imperfeito, desfeito, vil ou apagado.

Hoje é o melhor de todos os tempos.

Porque, vencido o orgulho dos maus momentos,

Voltei a acordar contigo, mais um dia, apimbalhadamente apaixonado.

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publicado por Manuel Anastácio às 22:52
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1 comentário:
De Gerana a 5 de Outubro de 2010 às 02:46
Poeta, poeta, aqui há versos que simplesmente me tocaram muito fundo.

Dizer de sua justiça

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