Sábado, 25 de Setembro de 2010
U smile, Justin Bieber 800% mais lento

Excerto de "U smile", de Justin Bieber, tocado 800% mais lento. Sincronizado com imagens genesíaco-apocalípticas (a parte final, com imagens do próprio Justin Bieber, é menos conseguida - mas o que interessa mesmo é o som).

 

Sobre a experiência  que Nick Pittsinger decidiu fazer, ao tocar 800% mais lento uma canção pop fraquinha de um miúdo com voz de gaja chamado Justin Bieber, e que é o ídolo das meninas pré-adolescentes, já muito se escreveu na Internet. Que é parecido a Sigur Ros ou a música ambiente ou New Age (eu prefiro a primeira das hipóteses, ainda que sem grande intenção de a defender). As ideias mais tolas, desde que minimamente divertidas ou extravagantes, têm a capacidade de se disseminar neste meio como o vírus da gripe A jamais conseguiu e, no íntimo da sua cápsula proteica, gostaria de ter feito. Acontece que este fenómeno é particularmente interessante do ponto de vista estético. A obra musical deste fedelho, ao ser deturpada, tem um valor artístico superior ao da peça original. Se considerarmos que essa obra derivada continua a ser uma obra de arte. Ora, se o é, é apenas indirecta e involuntariamente. É o dilema clássico do lenhador que, inadvertidamente, esculpe uma vaca num lenho: a obra do acaso poderá ser uma obra de arte? A Arte Pop e o Dadaísmo deram pistas para a resolução do problema. É arte aquilo que considerarmos arte - inclusive aquilo que foi feito sem intervenção humana mas que, ao ser observado ou escolhido passa a ser objecto de intervenção e eleição por parte do Homem. Esse carácter electivo é, de facto, a característica principal da Arte. A vaca esculpida pelo lenhador, ao ser queimada, caso não tenha sido identificada a imagem, nunca chega a ser obra de arte, mas se for posta a enfeitar a casa do lenhador, já o passa a ser, ainda que, eventualmente, um crítico de arte a venha a considerar mero artesanato. O problema da música esticada de Bieber (que é arte acústica de maior valor que muita feita intencionalmente) prende-se com a autoria. Nick Pittsinger não aceita ser o autor, já que se limitou a distender o tempo de execução de uma gravação de forma mecânica. Mas não se pode imputar a autoria a Bieber porque este não escolheu tocar assim nem cantar assim (e se tivesse escolhido não teria a fama que tem entre as meninas da mesma idade). A alteração mecânica simples da obra de outra pessoa, ao tornar irreconhecível o material original, não pode, do meu ponto de vista, ser considerado, sequer, obra derivada. É uma obra original, que deve a Justin Bieber tanto quanto o escultor de madeira deve à árvore abatida. E o seu autor é, sem dúvida, colectivo. Começa em Pittsinger e continua rede fora, mails fora, viralmente, sempre que alguém a ouve e se questiona quanto ao seu valor íntimo, espiritual, estético e filosófico.

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publicado por Manuel Anastácio às 13:53
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1 comentário:
De cs a 25 de Setembro de 2010 às 19:28
Vou levar comigo com link para aqui. Não tinha conhecimento disto :)

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