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Segunda-feira, 20 de Setembro de 2010
História de Inverno. Parte I

Era uma vez uma fada que vivia numa estrela verde com paisagem para um lago onde se recolhiam as lágrimas das pessoas que choram de tanto rir. Um dia decidiu visitar a sua irmã,  a fada da estrela vermelha, do outro lado do lago, junto à fonte onde nascem as lágrimas de quem chora as coisas que se perderam de vez. Mas entre uma estrela e outra, não sendo o caminho longo, o desespero era tão grande, que a fada não se lembrava de jamais ter atravessado o lago, nem de que alguém o tivesse feito. Aliás, a fada nem sabia porque é que tinha a certeza de que tinha uma irmã, também fada, no outro lado do lago. Um dia disseram-lhe que não. Que não havia nada do outro lado do lago que pudesse ser da sua família. Compreenda-se que as fadas não têm pai nem mãe. Por isso, ser irmão não é para as fadas o mesmo que para nós. Um dia perguntei a uma fada, que era vagamente aparentada à fada da minha história, o que seria, então, isso de ser irmão. Para as fadas, claro. Que para nós é mais fácil. A não ser que sejamos personagens da "Rosa do Adro" e descubramos tragicamente que, amantes, somos nascidos da mesma matriz e, à conta disso nos atiremos ao abismo do moralismo que torna o incesto (nem consumado nem intencional) o pior dos pecados, apenas porque é um pecado que envolve genitais nascidos dos mesmos genitais, como se a moral, transcendente à vida orgânica, material, finita e sem significado, não fosse isso mesmo, moral. Arauto imaterial, palavra que esvoaça sobre a sórdida realidade dos corpos que apodrecem.

 

Um dia perguntei a uma fada, que era vagamente aparentada à fada da minha história, o que seria, então, isso de ser irmão. Para as fadas. E ela disse-me que era ver alguém e saber, então. Intuição, disse eu. E a fada torceu o nariz fazendo tlim tlim e disse que eu não viesse com categorizações. Não se tratava de saber como quem sabe, mas de saber como quem desconhece e abraça. E eu disse que isso é horrível. Desconhecer e abraçar é acordar com serpentes e vermes entre os braços. E a fada disse que não. Que isso era apenas ser insensato. E que as fadas eram todas sensatas apesar de abraçar aquilo que desconheciam. Quando ia para abraçar a fada, nada me restou entre os braços. Talvez porque a conhecesse em demasia, e entristeci-me sabendo que o facto de a ter perdido não torná-la-ia de novo desconhecida e abraçável.

 

E a fada do início? E a história infantil que eu ia contar? Hoje um aluno (nove anitos, pr' aí) falou do significado da vida. E eu, sem o querer corrigir, perguntei se ele não se estaria a referir ao sentido da vida. E o rosto dele iluminou-se perante a palavra reconhecida, perdida e reencontrada. Sim. Isso. O Sentido da Vida. Que disparate, isso de Significado. A coisa última, irredutível, e para sempre geradora de linguagens. Nada há de último na vida. Apenas um sentido. Para a frente. Deixando desaproveitadas, para a eternidade, as formas linguísticas mais claras e transparentes. O sentido da vida é um sentido obrigatório sem permissão para qualquer veleidade de transgressão.

 

E a fada? E a história? E as coisas que se perderam de vez?... Até nisso falham, as minhas tentativas de inventar mitos. Não sei mentir dessa maneira. As histórias infantis são mentiras que só servem para que as crianças não azedem antes do tempo. Antes de terem capacidade fisiológica e sócio-económica de procriarem. Antes de deixarem de ser crianças. Antes do tempo em que nada volta atrás. Nunca. Nem no significante nem no significado, e muito menos no sentido.

 

Um dia, a fada sentou-se num barquinho e rumou em direcção à sua irmã. Eu não sei se ela a encontrou. Não sei se atravessou o desespero nem se seria possível contornar o lago de outra forma que não fosse flutuando sobre as lágrimas das tragédias. Não sei. Mas, agora que pego nos remos...

publicado por Manuel Anastácio às 22:42
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1 comentário:
De cs a 20 de Setembro de 2010 às 23:47
reme e reme e quando lá chegar diga-nos se a encontrou ou não? A irmã claro, que irmão já sabemos que não. :))

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