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Sábado, 11 de Setembro de 2010
V

Dizer a verdade às crianças é muito mal visto entre professores. É que dizer a verdade é dar liberdade às crianças para fazerem as suas próprias escolhas. E isso só pode dar em tragédia, pensam os professores, escaldados pela indisciplina e violência de crianças a quem um dia disseram, subtilmente, a verdade de que podem fazer o que lhes apetecer, que não lhes acontece nada (ou acontecerá daqui a muito, muitos anos, quando forem adultos - uma coisa que, toda a criança o sabe, nunca chegarão a ser). A verdade é que essas verdades legais coexistem com a coerção dos métodos e hábitos antigos. Diz-se a um aluno: podes esfaquear o teu colega que, o máximo que te acontece é levares um raspanete e ires uns dias para casa para poderes esfaquear os teus pais e irmãos  (não se diz por palavras, mas através do exemplo claro e límpido do que acontece). Depois, quer-se, neste ambiente de pura desresponsabilização (porque são crianças e não desenvolveram o seu fundo moral e cognitivo) que as crianças aprendam presas a cadeiras, ouvindo o professor a debitar a matéria - o que resulta em desastre, claro. Mas se houver um professor que queira fazer as coisas de acordo com a liberdade que eles já sabem que têm, de modo a responsabilizá-los, enquanto crianças que são, a adequar essa liberdade a um interesse comum de crescimento individual, o professor descobre que está numa escola arquitectonicamente concebida para esse mesmo estilo enganosamente desorganizado e natural de aprender, mas onde se levantaram outras paredes que proibem andar, falar, discutir. A aluna que quer rever os termos chaves da matéria tem necessidade de cirandar de cá para lá, em pé, enquanto estuda mas, encerrada no local para onde as paredes físicas e os olhares das(os) funcionárias(os) remetem os seus passos, é obrigada a esbarrar com o rapaz, que não é aluno de coisa nenhuma porque tem problemas afectivos, sociais, sexuais ou o camandro, e a aplicação daquilo que todos sabemos sobre como se aprende cai por terra. E todos voltam a ser obrigados a sentar-se na mesma sala, proibidos de olhar para a rua, de falar com quem quer que seja, sem ir à casa de banho durante hora e meia (que é para não incomodar o silêncio seráfico da paz podre onde o conhecimento dorme, entre salas de pressão), sem mastigar pastilha porque é feio (e não dá jeito nas aulas de Inglês, por causa da pronúncia, embora Eliza Doolitle aprendesse a falar como princesa com berlindes na boca), sem usar boné (que é má educação porque sim)...

 

Claro que é preciso ler devagar, ruminando sobre o calmo papel alheio à tentação das ligações do hipertexto - em locais onde se possa fazê-lo, não compartilhando o espaço de vida com quem está a aprender, simplesmente, a soletrar.

 

Claro que é preciso cumprir objectivos, estabelecer metas individuais (feitas pelo próprio aluno e não pelo professor, por ele), usando como referência os programas oficiais, que servirão de farol a quem navega na descoberta do conhecimento.

 

Claro que é preciso ser exigente e não capitular no desleixo da mediocridade.

 

Mas não no ambiente morno-vomitivo de liberdade condicional. Ou assumimos, na educação, o ideal de esquerda da liberdade dos alunos, num ambiente de liberdade de aprender como se quer (não é a liberdade de fazer o que se apetece, entenda-se), sem coações físicas de horários carcerários e salas onde cada um é o carrasco da liberdade do outro, ou assumimos de vez que a escola é de direita, apesar do discurso insonso de esquerda que enjoa quem quer que leia os documentos oficiais do Ministério, e obriguem as crianças a serem adultos, julgadas e responsabilizadas como adultos e obrigadas ao serviço educativo obrigatório de endoutrinação e formatação. Um meio termo que só nos leva à infelicidade de todos é que é dispensável. Mas é o que temos. E teremos. É a vida. Tanto pior.

publicado por Manuel Anastácio às 13:23
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