Sábado, 11 de Setembro de 2010
III

Isto é o quê? A apologia do "se não os consegues vencer, junta-te a eles?".

Queimar um livro (e, ainda mais, um livro sagrado) não é, nem de perto nem de longe, tão grave como matar um ser humano, seja num ataque terrorista religiosamente motivado, seja através de lapidação de meninas cujo crime foi terem sido violadas... Mas a acção deste padre não é de modo algum aceitável só porque os outros fazem coisas reprováveis. Deveríamos dar o exemplo. Não nos consideramos assim tão superiores em termos civilizacionais? Eu considero-me. Não é com gestos de pura estupidez (que alguns comentários que vou encontrando por aí fora parecem identificar com coragem) que se conseguirá algo de bom para a humanidade.

Queimar o Corão é torná-lo ainda mais sagrado. A melhor forma de destruir o carácter sagrado do Corão (ou da Bíblia, ou do Ulisses de Joyce) é lê-lo e criticá-lo - explicá-lo enquanto fruto do seu tempo e como peça anacrónica que deveria ser remetida para o seu lugar: a prateleira das curiosidades históricas do fanatismo. Exemplo de como um mau livro, mal escrito, repetitivo, com uma filosofia insipiente de uma cultura que, brilhante no início, não saiu da sua adolescência incipiente, conseguiu tornar-se na Lei Divina consubstancial a Deus  para tanta gente.

A ignorância e a estupidez combate-se através do conhecimento. Até do conhecimento dos maus livros. Não é queimando-os que edificaremos um mundo mais conforme, não à Lei Divina, nem à Lei Natural, mas à Lei do Amor e do Respeito pelos outros. Queimar um livro, qualquer que seja o livro (mesmo aqueles que incitam ao ódio), é queimar a humanidade. Se o livro incita ao ódio, escrevam-se mais livros que o remetam para o seu lugar devido: mera erupção de Besta que sabe expressar-se em linguagem humana.

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publicado por Manuel Anastácio às 11:48
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