Sábado, 4 de Setembro de 2010
II

Tinha as minhas dúvidas quanto à culpa daquele que foi o apresentador de televisão do século em Portugal. Já tinha alguma alergia ao jeito desse senhor, nos últimos momentos antes de rebentar o escândalo, de se arvorar em imagem da perfeição moral. Lembro-me das Noites Marcianas e da forma violenta (ou o desprezo arrogante) com que encarava as taras inofensivas dos loucos que ali eram explorados, noite adentro, como na "Parada de Monstros" de Tod Browning. Agora que se senta no lugar dos monstros, diz coisas bonitas de se ouvir e que revelam o fundo moral deste ser humano que se julga excepcional porque passou a vida a ouvir que era excepcional: diz que quando se misturam crianças pobres com crianças da classe média, as crianças pobres fazem germinar em si o sentimento da inveja que frutificará no crime e na prostituição, mais que do corpo, na prostituição da verdade. A mensagem que este senhor passa é a de que os pobres devem limitar o seu círculo de locomoção ao território dos pobres para que neles não nasça a revolta. Passa a mensagem de que convém que as crianças cresçam com a sensação de que a sua condição é a única possível e adquirida por nascimento. Assim, serão cidadãos obedientes, subservientes, prontos a lamber as mãos dos senhores que lhes afaguem a necessidade de amor. Passarão a ser brinquedos na mão de quem os pode comprar como brinquedos. E, subitamente, apercebi-me de que sim. Mesmo que tivessem mentido, aqueles miúdos disseram sobre ele toda a verdade.

publicado por Manuel Anastácio às 20:31
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