Domingo, 28 de Maio de 2006
Quem queima livros...


No século XI, na Pérsia, foi fundada uma seita muçulmana dirigida por Hassan Sabbah que, com sede na cidade-fortaleza de Alamut, aterrorizou o Império Seljúcida com acções homicidas e, simultaneamente, suicidas. Os sectários eram incubidos de matar os adversários em local público e, depois de o fazerem, entregavam-se docilmente à ira dos assistentes que prontamente os esquartejavam. O nome da seita deu origem às palavras “assassino” e outras semelhantes em várias línguas europeias. Desde Marco Polo que se acredita que o termo provém de “haxixe”, por “haschichiyun”, que significa “fumador de haxixe”. A forma como se entregavam à morte não era claramente compreendida pelos seus contemporâneos, principalmente por parte dos ocidentais, que julgavam que tais actos só poderiam ser explicados pelo uso de drogas que elevassem o sentimento político e religioso a tais extremos. De facto, sabe-se hoje que o termo provém de  “Assass” – o seja, “os fundamentos” da fé islâmica. Os assassinos não eram, portanto, nada mais que fundamentalistas, no sentido próprio da palavra.

Acontece que o seu fundador, Hassan Sabbah, além de sanguinário era também um dos homens mais cultos da sua época. Conhecia pormenorizadamente a filosofia aristotélica e os comentários feitos pelos eruditos árabes, as obras de referência da medicina, da Ciência em geral e, claro, da religião. Por isso, Alamut, além de uma cidade inacessível e preparada para longos cercos, fazendo lembrar o urbanismo próprio do “Senhor dos Anéis”, era, também, detentora de uma das mais completas bibliotecas da Idade Média. No século XIII, depois de 160 anos de invencibilidade, a cidade rendeu-se a Hulagu, neto de Gengis Khan, que decidiu destruir tudo. Sem deixar pedra sobre pedra. A biblioteca não foi poupada, juntando-se ao rol interminável de braseiros alimentados por papiros, pergaminhos e alfarrábios onde a humanidade, em vão, tenta retratar-se. O príncipe ainda decidiu dar mostras de alguma magnanimidade ao permitir a um historiador, Djuvayni, encher um carrinho de mão com o que pudesse antes de reduzir o resto a cinzas. Este, sunita fervoroso, encheu praticamente todo o carrinho com os exemplares do Alcorão – acto, quanto a mim, de uma impiedade sem precedentes. De facto, se a palavra de Deus é eterna, por que salvar umas dúzias de exemplares, quando se poderiam salvar outras palavras que, não sendo eternas, por isso mesmo, deveriam ser preservadas?

Claro que poderia falar do imperador chinês que mandou queimar os livros escritos antes de si, para ter o privilégio de inaugurar a própria História. Claro que poderia falar do fim da biblioteca de Alexandria ou do Index Librorum Prohibitorum. Poderia falar dos Nazis... Enfim, a História é um desenrolar infinito de destruição. Um rolo onde se estendem em filas actos que mostram à saciedade que o mundo se divide numa pequena parcela dos que escrevem ou protegem livros e outra grande parcela constituída por aqueles que têm prazer em queimá-los e se deliciam com a volúpia do obscurantismo.

Já sabem como sou adepto da Wikipédia. Sei como é uma ideia frágil. E sei como está destinada ao fracasso. É inevitável que um dia destes nada reste da utopia de se escrever abnegadamente a súmula da cultura humana deste século, sob um ponto de vista imparcial. A ideia de ter uma página, volúvel, à inteira disposição de quem nela quiser escrever é demasiado bela para sobreviver à grunhice humana. Claro que no histórico de cada artigo da Wikipédia encontramos cada alteração feita ao texto. Se alguém mudou uma vírgula, saberemos no futuro quem foi – se um anónimo, se um utilizador registado. Dirão que não passam, os dois, de anónimos. E que a autoria anónima poderá ser aceitável para um poema mas não para textos de cariz científico. Eu, por mim, recuso-me a ver as coisas dessa maneira. Eu contribuo para a Wikipédia e não sou um anónimo, e conheço pessoas que, sob um nick ou sob o seu próprio nome, associam as suas contribuições a alguém real. Mas ainda que todos permanecessem anónimos, ainda restaria a esperança de que as contribuições boas suplantassem as más. Seja como for, acabe quando acabar (mesmo que acabe apenas com um escândalo financeiro, com os responsáveis pelo projecto a rasparem-se com os donativos que permitem a aquisição de toda a maquinaria que mantém a Wikimedia em funcionamento), haverá sempre uma relíquia daquilo que foi feito. Restará um destroço de intenções.

Mas quem são os príncipes mongóis que ameaçam este sonho? Quem serão as pessoas que me fazem desacreditar no futuro da Enciclopédia livre? Serão ignorantes? Seria bom dizer que sim. Mas a verdade é que os energúmenos que se divertem a escrever disparates na Wikipédia não se escondem todos no anonimato. Alguns têm orgulho em dizer: estive lá a mangar com aquele pessoal – com aqueles nerdzinhos, picolhos, viados-ou-lá-o-que-é – que se dá ao trabalho de escrever textos que qualquer um pode apagar, mesclar de mentiras, destruir. Há aqueles que têm orgulho em dizer: fomos lá e deixámos algum trabalho para os tonhós que vigiam as mudanças recentes sem serem pagos. Fomos lá e troçámos da bondade e da ingenuidade de quem acredita em tal utopia.

Há, dentro deste grupo, aqueles que chegando lá, decidem deixar a sua marca, não destruindo os artigos que já existem, mas inaugurando novos com meia dúzia de tolices. Depois, vão para os seus blogs ou fóruns gabarem-se da proeza. Quando os seus artigos são finalmente detectados e eliminados pelos abnegados contribuidores da Wikipédia, continuam a sua deplorável actuação supostamente humorística dizendo que os seus textos foram censurados. Esta reviravolta é interessante: o destruidor passa a acusar aquele que constrói de destruição. Dirão, então, que escrever um texto humorístico na Wikipédia não é um acto de destruição, mas um acto de criatividade. E eu digo: o tanas. É apenas um acto de obscurantismo e de falta de carácter. Para quem não saiba, a Wikimedia tem à disposição dos engraçadinhos uma desenciclopédia onde poderão escrever as suas tretas. Escrever textos humorísticos ou ficcionais na Wikipédia é um acto de barbárie. É um acto vergonhoso e deplorável que tem apenas como fim destruir o sonho de quem é ingénuo, com a perversidade de quem troça da bondade alheia.

É pena, mas a cambada obscurantista dá a cara. Senti-me ainda mais enojado pelo facto de conhecer, indirectamente, uma destas abéculas que se vangloriam publicamente das suas vergonhas. Vão até ao blog http://begueiro.blogspot.com/ : e vejam de que massa é feita este tipo de gente. Esperemos que deste estrume nasçam, algum dia, rosas. Como o blog é colectivo, ainda dou o benefício da dúvida aos outros participantes. Mas este senhor Ivan (Evandro Saraiva) devia ter vergonha na cara.

Boa noite a todos.

Nota: risco o último parágrafo porque o Ivan teve o bom  senso de retirar do seu blog o vergonhoso post  a que me referia. Está perdoado. Obrigado pelo gesto.

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publicado por Manuel Anastácio às 21:47
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4 comentários:
De Jo Lorib a 30 de Maio de 2006 às 04:58
Uma lágrima não apaga um incêndio, mas alivia quem a chora. Eu choro por esses esforços inúteis também, Manuel, embora seja mais otimista que você quanto à Wk-Pt. Um abraço desde São Paulo.
De Manuel Anastácio a 31 de Maio de 2006 às 00:09
Não sou assim tão pessimista. Senão, não continuava a contribuir para a wiki. Abraço.
De Artur a 31 de Maio de 2006 às 17:30
A nossa mania lusa pelas piadinhas farsolas é algo que me ultrapassa. Vê-se pela blogoesfera - quanto mais lido e comentado, mais piada parece ter, e menos sumo tem.

(Já agora, o meu browser não gosta do teu blog. Opera e Sapo não se dão lá muito bem...)
De Manuel Anastácio a 31 de Maio de 2006 às 19:33
Pois... Mas é mais fácil para mim remexer nas tripas do sapo do que nas do blogger... Iliteracia informática, sabes...

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