Sexta-feira, 3 de Setembro de 2010
Sem título ou amarelo com azul atrás

Este poema não é para ti.

Não o guardes, não o decores.

Se o leres, esquece-o. Só o referir-te aborrece-o,

Porque, sensível, lhe estragas o perfil de poema

E a sua pureza incorruptível.

Não o rasgues, porque de nada te vale imprimi-lo.

Nem o queiras sequer apagado, não o deletes ou elimines

Porque não foi em ti inspirado.

Não és a minha Vénus de Milo, nem inteira nem decepada,

Não me és nada.

Nem flor, nem odor, nem feitiço nem fada.

Não foste a musa que me insuflou o peito

Com a aragem de um certo jeito em fazer-se desejar.

Não é para ti,

Porque não te amo como as palavras dizem

Nem como as metáforas que desdizem o que estão a dizer

Sem ironias.

Não tenho por ti as mãos frias

Nem o coração quente - nem o que não existe, existindo, seria ardente.

Não te amo visível ou invisivelmente,

Biológica ou espiritualmente.

Não te amo como homem, nem como anjo, nem como essência pura de maldade.

Não te amo como quem odeia, intensamente

Nem de forma desinteressada.

A versão platónica, inclusive, nem é para aqui chamada.

Não te amo, entendes? Ou queres, porventura, um desenho?

Aliás--

Se soubesse desenhar, não desenhar-te-ia.

Nem desejaria não saber, porque não te amo.

O amor que tenho por ti seria o nirvana

Se o nirvana fosse o que é: coisa nenhuma.

Seja como for, este poema não é para ti.

A ti, nem te cabe um só fonema.

 

Porque te amo.

E estes dois versos já não fazem parte do poema.

publicado por Manuel Anastácio às 17:56
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1 comentário:
De Gerana a 5 de Setembro de 2010 às 20:52
Q final!!!

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