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Segunda-feira, 12 de Julho de 2010
Marcela

Quando li pela primeira vez O "Dom Quixote" julguei que aquele parêntesis da pastora Marcela era uma referência a um dos símbolos da parte agreste da minha infância. Mas não consigo saber que planta é essa, que, ao jeito de Miguel Torga, gostarei um dia de ter sobre a campa, se é que nessa altura gostaremos do quer que seja. Não consigo saber que planta é essa, tal como Cervantes, ao que parece, também não sabia, apesar de não haver planta que eu melhor conheça, seja em rebento exsudante de resina, seja na sua secura de papel crepitante quando a minha mãe a coloca em cestas de vime ou jarrinhas pelos cantos da casa, ou, então, pelo cheiro do seu fumo inconfundível, depois de queimada numa noite de Junho, em honra de um qualquer santo dito popular nas ruas da minha terra natal. Chamamos-lhe Marcela, por lá. Mas fora de Carvalhal, ninguém a conhece ou alguma vez se lembrou de a baptizar ou, tão, somente, dar-lhe uso. Há umas ervas semelhantes junto às dunas litorais, mas são apenas semelhantes. A Internet dá-me apenas a conhecer que no Brasil, como noutros países da América do Sul, outras plantas há com o mesmo nome, também semelhantes, mas nunca a mesma. Uma delas é, até, a planta medicinal símbolo do Rio Grande do Sul. Mas estas ervas sul-americanas, baptizadas provavelmente por antepassados que comigo partilhariam a mesma infância de montes, xisto e resina, e que nestas flores análogas, mas de outra semente, viram um pouco das estrelas campestres do chão ibérico, apesar das flores, mantendo a mesma coloração de amarelo-palha, em pequenos conjuntos que não sei se são capítulos ou pseudo-capítulos ou o quer que seja que as afaste da familia das asteráceas, não são as mesmas. Se fossem asteráceas, ainda assim seria o cabo dos trabalhos a descoberta da sua específica taxonomia, que, como toda a gente sabe (não, não sabe, até porque é apenas uma figura de estilo rebuscada e nem sequer muito bem achada), as asteráceas têm este nome porque são mais numerosas que as estrelas que, como toda a gente sabe (e se não sabe, devia saber), são mais numerosas que os grãos de areia de todas as tamarizes do mundo. A marcela era usada para queimar nas fogueiras dos santos de Junho para curar a rabugem. As crianças espalhavam-se pelos montes até ao Vale das Tábuas, ou para os lados do Vale dos Ossos, da Ribeira da Brunheta ou outro qualquer local de mítica toponímia com ecos do tempo em que os velhos, já em nada contribuindo para a economia familiar, eram abandonados nos brejos (que para nós pareciam sem fim) para morrerem poupando os familiares de verem a desgraça que é chegar a velho. Partíamos a meio da tarde, com o chiar das cigarras e voltávamos com sacos de serapilheira (das batatas e do adubo) rescendendo a rosmaninho e a marcela. Antes do jantar, distribuíamos as ervas ao longo da rua, em montinhos sobre gravetos de pinheiro e, depois da sobremesa que não existia, acendíamos cinco ou seis fogueiras ao longo da rua que serviam de obstáculos a corridas loucas que nos empestavam a roupa com o cheiro daquele incenso rústico, sob o olhar aprovador das mães (os pais não eram de participar nestas coisas) que acreditavam que havia naquele fumo um milagroso remédio contra a rabugem. Rabugem que, como toda a gente sabe (não sabe, eu sei...), é aquele humor negro que corre nas veias das crianças, dos velhos e de toda a gente mimada que ainda não sabe, ou já esqueceu, o que é a vida, e que descarregam nos outros o seu egoísmo, sendo, claro está, rabugentos. Como eu.

publicado por Manuel Anastácio às 22:12
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9 comentários:
De V.Marques a 12 de Julho de 2010 às 23:37
Que bonito!
De Silvério Salgueiro a 13 de Julho de 2010 às 21:49
Grandes festejos lá na Espanha (cabeço). No meu Cabeço da Escola também queimávamos rosmaninho.
De dnoronha a 15 de Julho de 2010 às 06:13
Aqui no sul do Brasil era costume fazer travesseiros com marcela para um bom sono e afugentar piolhos. Tambem chamada por muitos de macela.
abraços.
De Manuel Anastácio a 15 de Julho de 2010 às 08:39
Mas macela é um nome vulgar utilizado para identificar demasiadas espécies. E as "marcelas" brasileiras são, definitivamente, outras espécies.
De Gerana a 17 de Julho de 2010 às 01:09
Também tive travesseiro de marcela.
De glaucia lemos a 19 de Julho de 2010 às 22:33
Não tenho dúvida de que as Marcelas dai são os Monsenhor de cá. Até hoje ainda podem ser encontrados travesseirinhos de marcela (ou macela ) no Vale do Capão que as mulheres nativas da região vendem a turistas como remédio para conseguir sono tranquilo. Quando começam a murchar, basta expô-los ao sol que voltam a ficar fofinhos.
De Manuel Anastácio a 20 de Julho de 2010 às 06:33
Mas Gláucia, monsenhor é o nome dado a esta planta aqui:

http://www.viable-herbal.com/images/herbs/feverfew-bsp.jpg

que em nada se assemelha à "marcela" a que me refiro.
De gláucia lemos a 20 de Julho de 2010 às 14:05
Com diferença, Manuel: A ilustração mostrada no link não corresponde a Monsenhor que conhecemos aqui. A composição de pétalas miudas em duas camadas, rodeando um pistilo que parece pequenina almofada circular composta por inúmeros pistilos miudíssimos amarelos,(link) no Brasil é uma variação da popular Margarida, só que com pétalas arredondadas que a Margarida mais conhecida as tem alongadas,e que as senhoritas apaixonadas costumam despetalar no jogo de bem-me-quer/mal-me-quer. Monsenhor aqui parece mais com a Marcela mostrada no blog. (Marcelas e Margaridas costumam trocar os nomes quando trocam de país rsrsrsrs, essas moças estão mal intencionadas...)
De José Lopes a 17 de Agosto de 2010 às 21:51
Um belo e odorífero texto, Manuel. E fiquei a saber do que preciso para a minha rabugem ;)

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