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Sexta-feira, 9 de Julho de 2010
Eu sou o caminho, a Verdade e a Vida - Evangelho Segundo São João 14, 6

O comentário lacónico (ainda que repetido: propositadamente?) da Gerana ao artigo anterior fez-me compreeder que não fui muito claro na exposição da ideia a ele subjacente, podendo parecer que fazia a apologia do sacrilégio, pelo que decidi tentar mais uma vez:

 

A imagem de Cristo (Cristo, enquanto símbolo) com uma mulher nua é provocação pela provocação? Eu tenho as minhas dúvidas, ainda que tenha a leve impressão que os responsáveis da Playboy portuguesa não andassem muito longe. Segundo eles, a revista não é apenas uma revista de mulheres nuas (apesar de ser por causa delas que a revista tem o seu público cativo), tendo, também o objectivo de agir social e culturalmente. Supostamente, a homenagem a Saramago, utilizando a imagem geralmente atribuída a Jesus de Nazaré (que não seria aquela, quase de certeza) serviria o fim de reequacionar a ideia de pecado. Ora, não há evidências nem históricas nem seriamente teológicas de que Jesus de Nazaré não tenha conhecido o amor da carne, utilizando a expressão de Saramago. A ideia de que Jesus se absteve sempre do amor carnal fundamenta-se na mesma ideia, hoje considerada heresia pela própria Igreja Católica, de que as funções vitais biológicas (alimentar-se, por exemplo) eram, em Jesus, mera aparência.

 

Mas vamos partir da ideia de que Jesus, de facto, jamais conheceu o amor carnal ou, pelo menos, jamais o consumou, apesar de, eventualmente, ter tido o desejo biológico conforme ao mesmo. Será que Jesus iria condenar a utilização da sua imagem, ou da imagem que os séculos lhe atribuíram, num contexto erótico? Talvez sim, talvez não. Muitos foram os momentos em que Jesus se comportou de forma inesperada ou mesmo sacrílega. Muitos foram os momentos em que as convicções morais dos seus discípulos sofreram fortes abalos perante a liberdade de julgamento de Jesus. Ele sentava-se à mesa com aqueles que pecavam em detrimento daqueles que se julgavam os baluartes dos bons costumes. Se há algo de profundo na mensagem de Cristo é a ideia de que é o amor que redime o ser humano e não a reverência perante os símbolos. O sacrilégio é o desrespeito deliberado em relação aos símbolos sagrados - até porque é impossível desrespeitar o sagrado em si mesmo. O sagrado é transcendente e não é manchado por qualquer acção humana. Jesus, ao desrespeitar o sábado fê-lo de forma deliberada. Sabia perfeitamente que estava a remeter o símbolo para o seu lugar de símbolo, o ritual para a sua mera função ritual, ou seja, dramatização da coisa sagrada. E a dramatização pode ser profanada. O sagrado só pode ser manchado pelo Homem através da sua consciência, já que é na consciência humana que reside o sagrado ou, pelo menos, se estabelece a ligação entre o indivíduo e o transcendente. O pecado "contra o Espírito Santo", aquele que não é passível de perdão, é um pecado contra o sagrado em si mesmo e não um pecado contra os símbolos ou os rituais. É o pecado contra a própria consciência.

 

Na minha consciência, Jesus, tendo ou não conhecido o amor carnal, saberia ler no coração de quem fez a capa desta "Playboy". E veria, com certeza, mas apenas, a mancha da despudorada vontade de vender e obter lucro com o desrespeito a um símbolo.

 

Mas ao desrespeitarmos um símbolo, não estamos a desrespeitar as pessoas que reverenciam esse símbolo? Com certeza que sim. E Jesus fê-lo constantemente. Não porque o símbolo seja desprovido de qualquer valor - tem, ao menos o valor do significado de uma mensagem que é partilhada por uma dada comunidade, mas não tem o valor do próprio sagrado. São coisas distintas. Da mesma forma que as palavras. Também elas são suportes arbitrários através do qual se transmite algo que não é arbitrário. Se uso palavras para transmitir uma ideia, posso fazê-lo utilizando qualquer código linguístico (e qualquer código é, em si mesmo, arbitrário), mas a ideia a ser transmitida não é arbitrária, tem uma realidade própria que não é modificável, mesmo que possam ocorrer erros na utilização e interpretação das palavras usadas. Quando eu digo "Jesus gosta disto", posso ser mal interpretado exactamente porque as palavras são pura areia movediça. O "gosto disto" do Facebook é, mais que uma expressão composta por duas palavras, uma ferramenta no sentido próprio do termo: uma entidade física (neste caso, software) que permite uma determinada acção considerada útil, que neste caso é acompanhar uma ideia e a interacção que outros têm com essa ideia, na procura incessante da sua cabal apropriação. Por isso, um artista pode passar a vida a compor, esculpir ou pintar sobre um determinado tema, porque "gosta disso". É uma ideia que acompanha, com o fim da sua apreensão o mais completa possível. Por isso, os textos filosóficos parecem, tantas vezes repetitivos. Porque o Filósofo tem consciência de que as palavras usadas numa formulação não bastam para a transmissão cabal da ideia, sendo necessário reformular até à exaustão aquilo que nele é claro ou, pelo menos, pressente como claro. Tal como as palavras, os símbolos não são sagrados. A óstia consagrada só é sagrada no íntimo, ou na consciência, de quem participa do ritual da comunhão. Não é a própria óstia que é sagrada, apesar de as palavras dizerem que sim. Porque as palavras, tal como os símbolos, são sempre deturpáveis. São-no constantemente, mesmo pelo mais fervoroso crente que, muitas vezes, interpreta de modo errado aquilo em que supostamente acredita. E aquilo em que supostamente acredita só pode seguir dois caminhos: ou se enquista num dogma pessoal e na ausência de questionamento (isto é, a ausência de caminho), ou segue a trilha da dúvida e da procura da verdade (o caminho percorrido por Jesus: "Eu sou o caminho, a Verdade e a Vida"). E a procura da Verdade e da Vida é contrária à reverência absoluta aos símbolos. É por isso que acredito piamente que Jesus "gostaria" daquela capa, mesmo que, tal como eu, a pudesse considerar uma foleirice feita sem qualquer gosto.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 09:53
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3 comentários:
De Gerana a 11 de Julho de 2010 às 04:21
Mas eu entendi, Manuel. Detestei a imagem da capa. Quanto a Jesus ter amado, o próprio Saramago faz Jesus um homem que ama uma mulher. E por que não? Não gostei foi da capa mesmo. E pelas razões que vc coloca aqui, exatamente as minhas razões:
"Na minha consciência, Jesus, tendo ou não conhecido o amor carnal, saberia ler no coração de quem fez a capa desta "Playboy". E veria, com certeza, mas apenas, a mancha da despudorada vontade de vender e obter lucro com o desrespeito a um símbolo".

De gláucia lemos a 11 de Julho de 2010 às 05:03
A mim pareceu mera apelação com objectivo de chocar os católicos e vender revista, funcionando muito mal, já que nem como obra de arte impressionou. Apenas é uma mulher bonita reclinada ao colo de um homem fantasiado de Jesus Cristo. Não me chocou nem ofendeu por não ser expressiva. Quanto à questão de Jesus ter conhecido ou não o amor carnal, não acho isso importante no tocante a SUA santidade. Sendo um homem, padeceu fisicamente e moralmente todos os sofrimentos que lhe foram infringidos, por que como um homem não poderia ter tido desejos carnais e tê-los satisfeito ou não? Nada disso o tornaria menos santo. Que importância tem isso, afinal?
De Anabela Lopes a 11 de Julho de 2010 às 09:45
Olá!

Pois, eu sei que o tinha dito... e lembrei-me disso, acredite! Mas eu quis fazer disto completamente surpresa. Porque eu própria tenho consciência de que este livro está bem melhor que o 1º: tanto em história como coerência escrita (não quero com isto dizer que está maravilhoso e coisas semelhantes, apenas que está melhor). Assim, desafiei-me a mim própria a fazer melhor e penso tê-lo conseguido. E gostava que vissem apenas o resultado no final. Apenas uma pessoa seguiu a história, e foi até bastante importante para corrigir alguns erros e falhas "graves".
Eu sei que deveria ter dito que mudei de ideia :S Eu tenho um bocado esse problema - tenho a mania de achar que as pessoas esqueceram e pronto :S De qualquer forma, ainda faltam 15 dias, e se fizer questão, posso enviar-lhe o livro por email.
E gostaria que estivesse presente no dia 24, já agora. Afinal de contas, foi a sua crítica que me fez ver que havia muita coisa que tinha (e ainda tenho, é certo) de mudar.

Quanto a este post e à capa da Playboy, estou totalmente de acordo com a Gláucia! E consigo! A capa é da maior piroseira que pode haver e só tem mesmo o objectivo de chocar (que não choca, pelo menos a mim, que sou cristã) e vender (e que a mim também não vendeu! :P)

Abraço,

Anabela

P.S. Espero que não tenha ficado ressentido comigo :S

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