Terça-feira, 22 de Junho de 2010
Trilha de ausências

 

Para a Gláucia Lemos

 

Hoje, atrasou-se um trem

E eu esperei

Por quem se atrasaram as horas.

Esperei,

Vendo os ponteiros embicando na direção do pérfido mecanismo com que o tempo anda.

Esperei,

Atrasando, em minha espera, despedida e reencontro.

Esperei

Que viessem anjos descendo pelos carris, como em escada de Jacó.

Esperei

Que as maduras palavras da minha boca caíssem como vinho na taça da solidão por quem, como eu, pelo trem,

Esperei.

Esperei sinceridade na voz de quem me ouvia.

E tanto que esperei. E ele, por quem os segundos rugem, sem chegar. O trem

Sem pisar as ervas que cobriam os carris, castanhos de ferrugem, sem chegar.

E eu, sem lugar onde pousar os dedos

Além da espera, além de desaparecer. Além das subtilezas da natureza do Ser que espera.

Esperei que fosse apenas eu.

Que o tempo não tivesse parado naquele tempo sem fim

Em que a espera fingia que o tempo passava

Como um trem que jamais partiu.

 

Tenho um texto em preparação, rabiscado em restos de folhas da escola, com fragmentos de uma resenha mais objectiva sobre os poemas "adultos" de Gláucia Lemos (note-se que só li, até hoje, livros "adultos" da Gláucia) mas, não podendo, por agora, deixar uma análise mais detalhada dos caminhos metafísicos dos seus poemas, socorro-me da linguagem mais sucinta que conheço. A dos poemas.

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publicado por Manuel Anastácio às 23:19
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8 comentários:
De Gerana a 23 de Junho de 2010 às 02:31
Perfeito.
De gláucia lemos a 23 de Junho de 2010 às 14:58
Meu caro Manuel: Seu grande poema sintetiza elementos que mais estão presentes nos meus pequenos poemas. Aquele trem no qual tanto me demoro, no qual metaforizo o Tempo tantas vezes, e a Espera que mostra na palavra da autora aquela mulher que se sentou e ficou olhando o relógio, sem saber o que tanto espera, mas espera, espera o quê? espera uma notícia, espera a morte, uma pessoa, uma festa, espera uma carta, espera um fato, um trem, um barco, uma palavra? ela não sabe o que espera, espera pelo Tempo.
A síntese que o poeta conseguiu mostra o que predomina na expressão da autora de Trilha de ausências. Um dos meus filhos ao ler o livro, disse:" É um livro triste, não distribua entre seus amigos, ele é diferente de você". Mas ofertei-o a meus amigos, poesia é poesia, não precisa parecer com meu bom-humor habitual.
Obrigada, meu amigo, pelo seu poema, ainda mais ao som da belíssima execução de Rachimaninoff q não é fácil de ser executado.
Só leu de Gláucia livros adultos, pois bem, isso porque sou autora tb de infanto-juvenis, de poesia só publiquei 1, de poemas infantis, q só não envio a você porq fico COM VERGONHA DE ESTAR A BOMBARDEÁ-LO COM MEUS LIVROS. Obrigada mais uma vez. Beijão. Gláucia .
Se concluir a resenha, mesmo 10 anos depois, pode me mostrar?
De Manuel Anastácio a 24 de Junho de 2010 às 10:12
Não há bombardeamento mais desejável, Gláucia... ;)

Quanto à resenha, não. Não vai demorar 10 anos.
De Bípede Falante a 24 de Junho de 2010 às 04:08
Eu, hoje, mais uma vez, confirmei o quanto existem esperas eternas.
De Manuel Anastácio a 24 de Junho de 2010 às 10:14
Confirmamo-lo todos os dias.
De gláucia lemos a 24 de Junho de 2010 às 13:48
Neste caso, prepare-se com um canil, que lhe enviarei um cãozinho todo azul, isto é "O cão azul e outros poemas", meus poemas infantis; vejamos se despertam a sua criança remanescente, tomara!
Bom se para a resenha não será preciso esperar 10 anos (foi força de expressão) mas eu esperaria. No entanto, por favor não se sinta devedor pela minha cobrança.O poema já disse muito. Beijo. Gláucia.
De Manuel Anastácio a 24 de Junho de 2010 às 19:13
O poema foi apenas um eco. A resenha será pensar sobre... ou, pelo menos, tentar dar uma leve imagem do que vou pensando ao reler os poemas. Só espero é que a espera não eleve demasiado as expectativas quanto à qualidade do texto. Beijo grande.
De gláucia lemos a 24 de Junho de 2010 às 22:27
Quanto à qualidade do texto já tenho conceito formado, espera maior ou menor não vai alterá-lo. Sua qualidade merece o meu grande respeito e admiração. Sei como o meu texto chega a outras pessoas que me conhecem de perto, que me pareçam mais, ou menos talentosas, que me tenham maior, ou menor afeto.E tudo isso acaba influindo na leitura da obra. Meu texto vai a você como a um leitor de talento que não lê superficialmente, mas me conhece apenas pelo que tem lido de mim. É a este leitor que me interessa chegar. Que análise faz um leitor com o seu potencial da autora daqueles textos. O que eles levam à sensibilidade de pessoas como você. O que deixou a leitura, ou o que poderia ter deixado e não conseguiu. Sua análise honesta faz isso. Gratíssima sempre. Beijos.

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