Sexta-feira, 26 de Maio de 2006
Pesadelo na Quinta do Costeado

Hoje fiz com os meus alunos (11 - 12 anos) o último ensaio do "Sonho de uma Noite de Verão" de William Shakespeare. Terça-feira, vou com eles para uma quinta de Guimarães (Quinta do Costeado), junto à Cruz de Pedra (segundo o guia da Michelin: "Cães de Pedra", eh eh eh...) para filmá-los a recriar amores desalinhados e alucinados sob o auspício das Fadas. Anteontem, fui à procura de roupa para todos na Casa da Marcha Gualteriana. A Casa da Marcha é um espaço fascinante, largo, alto e cheio de trastes misturados com obras de arte popular nascidas para encher os olhos de quem assiste a uma das festividades mais marcantes de Guimarães, as Gualterianas, em honra de São Gualter, discípulo de São Francisco de Assis, e que morou algures para os lados da minha escola. É aqui que são feitos os carros alegóricos, por meia dúzia de abnegados vimaranenses (só quando as festas se aproximam é que o pessoal decide vir em magotes, mais para empatar que para ajudar), além das roupas e outros adereços para os desfiles. Enquanto por lá deambulamos, damos de cara com recriações dos cantos mais belos desta cidade lado a lado com amostras de referências culturais do resto do mundo: monumentos, bustos de artistas, de reis, algumas pinturas, animais verdadeiros e míticos, tudo feito de esferovite, armações de madeira e muita folha de alumínio... Como na Ópera. A Casa serve também, para muita gente, como o recurso inevitável (e gratuito) quando se precisa de guarda-roupa de fantasia. Numa sala, dispõem-se em fila roupas de reis, rainhas, guerreiros, selvagens, animais, astronautas, etc, que já fizeram a delícia dos espectadores das Gualterianas de anos passados. O pior é que quando lá cheguei, muita da roupa não estava lá. Alguns cravas tinham pedido roupas para o Carnaval e ainda não as devolveram. Tive de ficar com os restos. Uma pele meio esfarrapada para o Puck (a Lucília), roupas astecas para quase todos os rapazes, menos para o Teseu (o Simão), para o Filóstrato (o Tiago João) e para o Egeu (o Vítor Daniel, que irá vestido com o hábito de uma confraria qualquer - o que não fica mal com a severidade da personagem). As fadas (o quarteto terrível: Marta, Marylin, Carla, Cláudia, mais a Vânia) e  ficam com umas roupas de início de século-ou-lá-o-que-é, mas com muitas rosinhas (a Marta não parou de reclamar com a piroseira, mas agora já está toda contente e a pensar em ir ao cabeleireiro antes das filmagens), a Hipólita (a Tânia Conceição) experimentou de tudo e lá escolheu um severo vestido com rendas pesadas do século XVIII, a Helena (a Nádia) desesperou e nem o vestido branco de cetim a satisfez, a Hérmia (a Diana) lá ficou com um vestido amarelo palha a lembrar uma personagem de Proust, o Oberon (o Marcelo) fica com uma pobre túnica branca de tecido grosseiro (terá que manifestar a sua majestade com outros artifícios de actor) e só a Titânia (a Tânia Fernanda – grande promessa para as artes de representação) é que, parecida com uma Nossa-senhora-não sei-bem-do-quê é que parece totalmente satisfeita. A cabeça de burro do Bottom não é muito convincente, mas o actor vale mais que o adereço. E finalmente, o Luís, com o seu papel duplo, além da sua roupa asteca, irá envergar um vestido verde com uma capa vermelha no papel de Tisbe… Enfim, vai ficar uma salganhada… Mas aquilo não é um sonho mesmo? O Ingmar Bergman que se ponha a pau – os meus alunos até estão a pensar vender o filme para a feira (quando ainda nem sei se vou conseguir fazer a montagem como deve ser)…

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publicado por Manuel Anastácio às 00:32
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