Terça-feira, 8 de Junho de 2010
Sete pecados capitais: Luxúria

Não é palavra esta surda vogal

Sem estilo,

Sem contenção e sem qualquer sentido de conveniência,

Alheia a qualquer edénica regra de abstinência.

Não é palavra nem discurso, nem no decurso da sua acção há,

Mais, nisto, que a eterna incipiência de quem se afunda na sábia insipiência do nada que é tudo.

Há, nisto um mito, pois.

Uma epopeia. Um cais. Um grito, uma partida, arremetida, um ponto de chegada. Fundação.

Não é palavra este pecado original

Orgia, deboche, fornicação.

Prazer incinerado nas fornalhas do Bem e do Mal.

Mastros que se erguem, em surda peregrinação,

Infernos onde se perdem em alquímica transmutação o que fomos,

O que quisemos ser,

E o que em nós houve de querer.

Não é palavra esta surda vogal A

De espanto ou E

De dor, de breve reclamação fingida ou I

De chiar alheio às convenções ou o O

Do inevitável grito de todas as perfeições, ou um prolongado U

De líbidos insatisfeitas

Que se apagam num sorriso doentio de desejo

Entre olhares perdidos de almas feridas, incompletas, imperfeitas.

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publicado por Manuel Anastácio às 21:27
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2 comentários:
De glaucia lemos a 9 de Junho de 2010 às 14:21
Disse tudo, meu amigo Manuel. Como sempre, grande! Sem as vogais nada é possível no nosso idioma. Nem no idioma amoroso, você diz.
De Lena a 18 de Junho de 2010 às 16:34
Olá!
É por isso que não concordo nada quando dizem que o pecado original da Balança é a Luxúria. Na na na...

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