Sábado, 5 de Junho de 2010
O Tanto que não Sou
Um dia, decidi fazer uma lista com os cem filmes da minha vida. E, graças a escrúpulos quase inconfessáveis, também decidi não incluir "O Paciente Inglês". Foi um filme que de tal modo me transtornou e maravilhou que julguei que qualquer pessoa digna de ser pessoa não poderia passar indiferente por aquela parcela de Inferno escavada em beleza. Enganei-me. Um objecto estético, por mais belo que nos pareça, não tem valor absoluto a não ser na nossa própria alma. E mesmo as pessoas que mais amamos poderão bocejar perante o poema que nos conduzirá ao suicídio ou à glória. Hoje consegui roubar um segundo (na verdade, nem isso) para ir aos correios levantar o livro que a Gláucia, em acto de caridade, a caridade de que fala Paulo no capítulo treze da Primeira Epístola aos Coríntios, me emprestou. Um livro nunca se dá, a não ser uma vez, quando se escreve. Gláucia emprestou-me este livro e guardá-lo-ei, com a dedicatória, até que a morte, ditosamente mo transvie para as mãos e para o olhar de alguém que nele lerá aquilo que agora não conseguirei ler. Hoje, ultrapassados os escrúpulos que me fizeram afastar o cálice amargo de "O Paciente Inglês" das minhas oficiais preferências, encontrei, em epígrafe do livro de Gláucia, aquele "todos os dias arranco o meu coração e ele torna a crescer"(Every night I cut out my heart. But in the morning it was full again), frase que se refere a um outro diálogo entre o paciente, antes de ser paciente e antes de ser inglês, e Katharine, em que este lhe fala de uma planta cujo coração deverá ser arrancado para, depois de absorver a humidade do ar nocturno, lhes dar, pela manhã, água no deserto onde correm o risco de morrer (e onde o Conde de Almásy não terá a romântica satisfação de morrer). Katharine responderá, de forma pragmática e brutal (ainda que disfarçada de simples humor negro): encontra essa planta e arranca-lhe o coração. Assim é o amor. Não como Paulo o descreveu aos Coríntios, mas como se dá a conhecer, dolorosamente, a quem procura, não o desinteresse dos céus, mas as santas inclinações da alma, a que chamamos coração e que, na nossa bestial ignorância bem intencionada, julgamos ser egoísmo. E é apenas ausência. A ausência a que irremediavelmente nos entregamos, não por maldade ou indiferença, quando o objecto da nossa afeição está ao nosso lado, mas porque somos feitos de ausência, da mesma ausência que se derrama em lágrimas no primeiro poema, que Gláucia chamou de "O Tanto que não Foste" e que bem poderia ser "O Tanto que não és", não fôssemos nós apenas orvalho e chuva depois de sermos gás, espírito, invisibilidade, ausência. Enquanto somos, não vemos nem somos vistos.
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publicado por Manuel Anastácio às 01:54
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4 comentários:
De glaucia lemos a 5 de Junho de 2010 às 02:33
Pois é, irmão, atrás, no tempo, seu poema cabendo perfeitamente como epígrafe para um livro meu que acabara de lançar. Agora, minha epígrafe, aquela bela sentença, relacionada a O Paciente Inglês, obra de arte incomparável que guarda ligação com alguma coisa sua muito cara. Decididamente nossas sensibilidades em relação a literatura, ou melhor, à arte, vibram em frequência semelhante. Por isso que o trato, acima, por irmão.
Você escreveu um texto encantador, li-o e reli-o e vou voltar a lê-lo, e não sei o que dizer que caiba dignamente em tudo o que nele está expresso. A não ser o quanto me sinto honrada e envaidecida por ter você ocupado algum tempo do seu, decerto valioso, para tratar do meu livrinho de poesias e mencionar meu nome. Grande abraço e um beijo de amizade. Gláucia
De Gerana a 5 de Junho de 2010 às 03:17
Pois é isso, Manuel. Gláucia é essa jóia que nós temos.
De Manuel Anastácio a 5 de Junho de 2010 às 11:50
Gláucia: ainda vou escrever uma resenha um pouco mais aprofundada ao seu livro. Ontem apenas comecei a lê-lo.
De glaucia lemos a 5 de Junho de 2010 às 22:02
Manuel: Obrigada pela atenção. Realmente os comentários sobre esse livro são de grande importância para mim. Porque sempre me vi prosadora, guardando meus poemas adultos na gaveta sem pensar em juntá-los em livro. Com a completude dos meus 30 anos de literatura quis fazer algo diferente para comemorar, então atendi a uma insistência que já vinha no sentido, de parte de alguns amigos, e decidi fazer o livro, talvez venha a ser um filho único no género Mas é bom sentir a pulsação que ele esteja provocando . Não é fácil ser poeta, é até perigoso quão já se tem um caminho andado em outro género Sua opinião tem grande peso para mim. Beijos. Gláucia

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