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Segunda-feira, 17 de Maio de 2010
O Forno

Já aqui passei a segunda parte deste vídeo. Mas achei que a esta primeira parte se adequava aos prazeres suspeitos do vinho verde de Cabeceiras. Não sabe a ovo, isso é certo...

 

Há nomes de restaurantes que se repetem Portugal fora e que são elucidativos daquilo que os portugueses procuram num local onde se possam sentar, retemperar forças (se acreditarmos no sentido etimológico da palavra restaurante) ou, simplesmente, anulá-las no descanso dos sabores e no atordoamento benigno do vinho. Entre esses nomes arquetípicos está "O Forno". Não faltam fornos por aí. Sei que há, ou havia, um em Almeirim. Mas hoje vou falar do de Guimarães. É um restaurante de aspecto moderno, sem qualquer tipo de arquitectura sofisticada. Tem uma fachada de vidro, dois pisos, sendo o superior para fumadores. Tem uma plaquinha de madeira a relembrar os filmes do Robin Hood (versão anos 50 ou anteriores) a dizer, claro, "O Forno" e, lá dentro, mesas normais, a ementa escrita em placa de ardósia, nunca muito variada e, provavelmente, pouco convidativa para quem procura prazeres suspeitos na comida. Eu sou desses. Procuro sempre prazeres suspeitos na comida. Há uma década atrás, o meu amigo Nuno Correia, ditava que "na melhor mesa se faz a cama" e, à conta disso (e dele), arrecadei 100 livros do falecido programa "Acontece" da RTP, morto às mãos do mesmo PSD a que pertence o meu amigo (grande amigo, entenda-se, sem ironias) Nuno Correia. Mas deixemos a política de lado, que há coisas mais importantes como, por exemplo, o vinho da casa d' "O Forno", vindo do lado de Cabeceiras (de Basto), retinto como o vinho verde de Amarante, espesso como sangue sacrificial, púrpura como o manto real de Baco, se Baco fosse minhoto. É certo que o restaurante não tem malgas suficientes para todos os clientes. Graças a Deus, há muito cliente por aí que pensa que beber vinho verde tinto em copo de vidro (de pé) é que é bonito, ou fino, ou elegante, ou mais conforme à arte da apreciação enófila (uma arte muito egoísta, mas não deixa de ser arte). É mentira. Já aqui disse que vinho verde tinto, tem de ser na malga. Para ver a rosa mística no côncavo final da refeição. E, n' "O Forno", o vinho da casa, depois das entradas a saber a horta (não há lugar onde um simples penino salpicado de sal tenha melhor sabor que ali - excepto na minha infância, em que roubava, com os amigos, pepinos nas infindáveis hortas que então existiam em Carvalhal, depois de os lavarmos em água fresca de nascentes que entretanto secaram, sabe-se lá como, e os salgarmos com sal que trazíamos em saquinhos de plástico de casa - mas o sabor dos vegetais roubados na infância jamais poderá ser copiado por restaurante algum), depois, enfim, daquelas pequenas maravilhas que nos caem na mesa logo no início e que nos tiram o apetite para o resto, é o vinho da casa que compõe toda a obra de arte de uma cozinha minhota em Ré maior, com um baixo contínuo em tons violáceos. Já ouvi colegas a dizer que não gostavam do restaurante. Provavelmente, torcem o nariz ao verde tinto. Eu... hic... hic.. é que não. San... hic... sangue de Cristo, meus amigos, sangue de Cristo. Abençoado seja "O Forno" com o seu vinho de Cabeceiras, mais os vegetais frescos quase a saber a roubados e... sobremesas... engraçado, não me lembro das sobremesas, e eu que sou tão guloso...

publicado por Manuel Anastácio às 21:45
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11 comentários:
De Maria Helena a 17 de Maio de 2010 às 22:59
Posso lá ir e dizer que quero beber na mesma malga do Poeta?
De Manuel Anastácio a 17 de Maio de 2010 às 23:13
A malga do Poeta é a bica das fontes, aonde todos podem pôr os beiços.

E, com o vinho de Cabeceiras, toda a gente é poeta. :)

Mas creio que, para beber da mesma malga do Poeta (letra maiúscula), teríamos de ir a Santarém ao Mal-cozinhado, nome de referência camoniana. Mas não me lembro de ver por lá malgas (mais rapidamente as encontraria na Casa do Campino ou n' "A Grelha", mas duvido)...
De Maria Helena a 17 de Maio de 2010 às 23:21
Sim, sim. Em Santarém não há vinho verde, que eu saiba, e se houver, adianto já, não bebo porque o vinho verde verde só me sabe bem do Douro para cima.
Perto do Mal Cozinhado haverá uma fonte?
De Manuel Anastácio a 18 de Maio de 2010 às 07:41
Perto do Mal-Cozinhado, acho que não. Só me lembro da Fonte das Figueiras, e é para outro lado. O Silvério deve saber...
De Silvério a 18 de Maio de 2010 às 14:34
Infelizmente o minúsculo Mal Cozinhado já não existe. no seu sítio está um prédio há dois anos á espera de ser acabado. Tive aí alguns jantares a dois, não me recordo de aí existirem malgas mas ainda me lembro bem do sabor da açorda de ovas de sável a acompanhar o sável frito. A referência agora em Santarém é a Taberna do Quinzena, onde o vinho carrascão do Cartaxo é servido em copas de vidro pouco maiores que dedas e onde ainda ontem comi um naco de touro bravo em vinha de alho delicioso. Percebi agora para onde iam os pepinos que desapareciam nas horta do Zé Bento.
De Maria Helena a 19 de Maio de 2010 às 14:03
Prontusss! Lá tenho eu de fazer uma peregrinação à Taberna do Quinzena.
Beber vinho em copos pouco maiores que dedais? O máximo! A minha avó dizia que era assim que o Sr. Prior despachava uma garrafa! :-))))
Ele há cada boa notícia
De Silvério Salgueiro a 19 de Maio de 2010 às 14:19
Com pequenos e bastos sai de rastos.
De Gerana a 18 de Maio de 2010 às 04:38
Manuel: pena vc ter esquecido das sobremesas.
Já contei que não bebo álcool? Só bebo água, guaraná e Coca-Cola, e suco de laranja também. Então, em um fino restaurante em Lisboa, pedi um bacalhau assado. Veio um bacalhau lindo, alto, brilhante. Pedi Coca. O garçom ficou horrorizado, o mètre do restaurante viu e começou a ter um troço, dizendo ser um sacrilégio comer aquele bacalhau sem vinho. Mas eu não bebo álcool. Enfim, ele se ofereceu para pagar o vinho. E eu: "Meu senhor, o problema não é dinheiro, simplesmente eu não bebo álcool, é uma opção de vida". Ele vioru-se e disse que não iria ver aquilo, o absurdo de comer sem vinho.
Já tinha contado isso? Se sim, desculpe o repeteco.
De Manuel Anastácio a 18 de Maio de 2010 às 07:46
Não tinha contado. Mas concordo em absoluto com os senhores em questão. Claro que há casos em que o álcool deve ser evitado a todo o custo. Espero, sinceramente que não seja esse o caso da Gerana, mas apenas uma patetice através da qual se nega à mais literária das bebidas. Digo-lhe mais: sem vinho, não haveria literatura. Mas cada um nega a si mesmo o que bem entender...
De Maria Helena a 18 de Maio de 2010 às 08:14
Existe mais filosofia numa garrafa de vinho que em todos os livros, dizia Pasteur.

Gerana, não beber um copo de vinho pode ser uma lacuna sim, todos as temos; por exemplo, eu acho boa a Coca Cola para as minhas limpezas domésticas .
(estou a brincar consigo, se não gosta, não beba, ora)
Beijo.
De Gerana a 18 de Maio de 2010 às 19:38
Outro dia o presidente da Academia de Letras da Bahia estava propondo um jantar para o abade do mosteiro de São Bento, regado a muito vinho, e nos convidou. Quando eu disse que eu e Aramis não bebemos, retirou o convite e ainda me disse que uma moça tão fina, tão culta, não apreciar um vinho, isso é uma atitude contra cultural.
Daí chegou um escritor baiano que mora no Rio. Saímos juntos para comer: o presidente, o escritor visitante, Aramis e eu, e o casal de escritores Aleilton e Rosana. O presidente sentou-se todo contente, perguntando qual vinho vamos beber quando o visitante (antes grande apreciador) revelou que não toca mais em bebida. O casal disse que também não bebe. Aramis e eu, já é sabido, não bebemos. O presidente ficou triste, mas tão triste. Eu disse que ele aproveitasse para reavaliar o hábito de beber. Cada vez mais gente deixa de beber.
Meu caso é opção mesmo. Não gosto e fico achando terrível o efeito do álcool nas pessoas. Mas não sou chata, quem quiser beber que beba. Garanto que o fígado NÃO agradece.
Há, no entanto, aquela expressão famosa: In vino veritas. Vai que eu não desejo verdades profundas.... TÔ brincando.

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