Sábado, 15 de Maio de 2010
Propriedade

 

 

 

Não possuo o teu corpo.

Mesmo quando o possuo,

Só quando por ele sou possuído

É que dou como indeferido o resultado da reflexão.

Não possuo o teu corpo

Nem a minha alma tem garras com que o agarre.

Não possuo o que como, que em mim se esvai,

Não possuo a minha alma, que em meu corpo se distrai.

Não possuo. Nem o que sei, em verdade, é meu

Se em verdade algo me não é dado que já não seja meu

Porque não sei se é, apenas teu, e a mim, vagamente,

Emprestado.

Nada em mim vejo aclarado e transparente.

Vagamente, nada em mim está, assim, em mim presente,

Nem sólido monumento, nem pensamento, nem palavra nem fonema,

Nem dúvida nem certeza. Nem prosa nem poema.

Sonho? Provavelmente, não. Até porque a Ilusão

É arte que se vende cara.

Eu não sou eu.
E só não nego a tua presença,
Que não possuo,
Porque me entreguei em verdade e disse:
Sou teu.

Inspirado num poema de Fernando Pessoa.
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publicado por Manuel Anastácio às 21:46
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3 comentários:
De Gerana a 17 de Maio de 2010 às 01:45
Vou levar, estou levando (mesmo antes de ganhar sua autorização, mas como fã acho que posso, né?).
Gostei demais, estou lendo e relendo.
De Manuel Anastácio a 17 de Maio de 2010 às 10:32
É teu.
De glaucia lemos a 19 de Maio de 2010 às 04:01
Poeta, Fernando Pessoa onde estiver estará com a alma plena de orgulho, por se saber inspirador de tanto encanto. Nem quero falar de nada mais senão daquele final, em que o poeta, depois de declarar não possuir a amada, se confessa por ela inteiramente possuído , naquele monumental "sou teu". Repito o que comentei no Leitora crítica: Eis o que toda mulher deseja ouvir em contexto semelhante. Aleluia!!!

Dizer de sua justiça

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