Sábado, 15 de Maio de 2010
“Socialistas”? Aonde?

Foi você que pediu algo de esquerda?... Bem me parecia que era engano...
Texto que saiu ontem, no "Povo de Guimarães" (limitado a 3000 caracteres... :) )

 

Desde hás três anos que, como professor, participo com os meus alunos no Parlamento dos Jovens. Neste projecto, fico sempre desalentado com a irresponsabilidade com que os alunos, entregues a si mesmos, escolhem as medidas políticas mais disparatadas (e, por vezes, contraditórias) e elegem deputados utilizando como critérios a maledicência, muita inveja e baixa política de bastidores. Ora, isso é desculpável. São crianças ou pouco mais que pré-adolescentes. Aterrador é verificar que entre o modo infantil de fazer política e o modo adulto não vai grande diferença, a não ser o facto de que, entre adultos, há ainda a juntar, ao rol de torpezas, o servilismo e a subserviência de quem também quer um lugar ao sol.

 

Assisti, há dias, a duas sessões da Assembleia Municipal de Guimarães e vi os deputados do Partido Socialista, donos e senhores da situação (que assim quis o povo que os elegeu: seja pelo clubismo partidário de quem vota sem pensar, seja por abstenção ou seja, enfim, porque gostam de ser tratados como têm sido), a votarem, em unanimidade, contra a moção do Bloco de Esquerda que denunciava o trabalho precário no Hospital Privado de Guimarães. O PSD e o PP também votaram contra, mas isso não é de espantar. A política de direita está-se nas tintas para a exploração desavergonhada dos mais fracos. O que interessa é a saúde financeira das empresas – é isso que, para a direita, significa progresso económico e produção de riqueza. Contudo, ao ver um partido que enverga a alcunha de “socialista” a apadrinhar procedimentos como os utilizados no dito hospital e que se resumem a explorar o trabalho de pessoas que estão praticamente a pagar para trabalhar, apenas porque acalentam a esperança de um dia virem a ser contratadas com alguma dignidade, apetece-me gritar para que deixem de prostituir a palavra socialismo. Quando vejo os deputados, de um partido que se diz socialista, negar, em massa, a participação activa dos cidadãos do concelho na Assembleia Municipal através de petições (quando, neste caso, até os partidos explicita e orgulhosamente de direita votaram a favor, independentemente de a proposta ser também do Bloco de Esquerda), apetece-me, já não gritar, mas calar-me. A prepotência da maioria absoluta é um direito inquestionável de quem recebeu essa maioria das mãos do povo. Se o povo se abstém ou é cúmplice deste estado de coisas, é bem feito que sofra as consequências. Mas não é, ainda assim, o povo todo. Há aquele que grita na rua contra a política despudorada deste executivo camarário, como aconteceu com o pessoal não docente das escolas do nosso concelho. Como paga, ouviram o presidente a dizer, à la Sócrates, que não se governa a partir da rua – e, para compor o ramalhete, negou-lhes, dois dias antes, quase sem aviso, a tolerância de ponto devido à visita papal. Esperto é ele, que bem sabe que a tolerância de ponto é (e justificadamente) mal vista por todos aqueles que não pertencem à função pública. Tomem lá que é para estarem calados.



publicado por Manuel Anastácio às 00:03
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