Terça-feira, 11 de Maio de 2010
Abril

Um dia, uns homens disseram que iam fazer uma revolução. Não era por nada. Apetecia-lhes fazer uma revolução. Era giro. Escolheram umas canções e toca a fazer a revolução. Aquilo tocou. O pessoal saiu, andou, andou, e chegou a um sítio onde diziam que ia ser a revolução. Mas antes disso, vieram os da reacção que não queriam que se fizesse a revolução, e disseram, alto aí, que merda é esta? É uma revolução. É o quê? Queres que eu te vá às trombas? E o gajo ficou ali rijo que nem um carapau. E vai dali, os da reacção juntam-se ao outro gajo e foram também fazer a revolução. Vieram uma mulheres e disseram assim, o que é isso, já chegámos à Madeira, ou quê? E um dos gajos, que era assim para o engatatão, disse que era uma revolução. E a gaja, que nem era assim nada de jeito, mas na tropa come-se de tudo, vai de lhe dar um cravo. Vermelho. E o rapaz, que era entendido na simbologia das flores, sabia bem que havia ali algo de malandrice e espeta com a cabeça vermelha da flor na espigarda, tornando ainda mais fálica a sua já muito amada extensão metálica. Os outros gajos gostaram da ideia, e toca a roubar os cravos às floristas. Mas que raio é isto, ó magala? Julgas que tenho dinheiro para andares aí a armar-te em marialva, dá-me já as flores, que a vida está cara. É prá revolução, timaria, é prá revolução. A revolução, o camandro, se querem cravos, pagam-nos. Cale-se, se não leva uma coronhada, ou quer que a gente chame a PIDE? A PIDE? Mas vocês são da PIDE? Não, mas havemos de ser. Agora uns, amanhã outros. Atão pra que raio é a revolução? Ó amiga, é pra mudar de pessoal... sei lá. Para dar liberdade ao pessoal. Liberdade? Que é isso? Olhe, é assim, é você fazer o que lhe apetecer e não ir para a prisão. Quer dizer que posso andar praí a matar gente e não me fazem nada? Não é bem isso, maninha. É mais poder ir para cama comigo, engravidar, deitar o puto cá para fora enquanto eu já estou com outra, e não lhe chamarem nomes na rua, porque já se há-de poder ter filhos ilegítimos à vontade. E se me chamarem nomes na rua? Não vão poder. Porquê? Porque a Liberdade tem limites. E quem é que estabelece esses limites?... Eh lá... "estabelece"? Cheira-me que esta gaja é uma infiltrada da reacção, levem-na ali pra trás das ruínas e dêem-lhe com um balázio nos cornos. E a revolução, meu capitão? Não queríamos que fosse uma revolução pacífica? Conversa, conversa, lá chegaram ao sítio onde morava o rei, que era um tipo que já tinha morrido e que se chamava Salazar Slytherin. Chegaram e disseram: estamos aqui para fazer a revolução. Qual revolução? Não está nada na minha agenda. Vão já para o quartel. Não vamos, não vamos, não vamos. Ai onde isto vai parar. Já não há respeito pelos mortos, disse o Salazar para o Caetano, que era um gajo meio careca, que era muito boa pessoa mas a quem tinha calhado o papel de mau. Ele ainda tinha dito que queria antes o papel de outra coisa qualquer, tipo, sei lá, de professor catedrático. Mas não. Calhou-lhe o papel e ele não era daqueles que dizem ai assim já não jogo. Era de boas famílias, e há coisas que vêm no leite. Não era c'máquele bochecas que andava em Paris a comer baguetes e a falar mal francês, que também era de boas famílias, mas enfim, não prestava pra nada, que nem era peixe nem carne. Ainda se fosse comáquele das sobrancelhas grossas que tinha sido capado por ter ido à Rússia, que na Rússia os homens são capados, não sabias? Zuc! Mas olha que ele não tem a voz muito fininha... Coméquesabes? Olha que a RTP ainda não passou nenhuma entrevista com o gajo, ou andas a ouvir a rádio moscovo? patati patatá, e o Caetano disse ó Salazar: isto está mal, já não há respeito nenhum, agora fazem uma revolução e não avisam ninguém. Olha, rende-te. Deste-lhes a mão, agora querem o braço, olha que no meu tempo, piavam baixinho, nunca tive cá coisas dessas. Respeitinho é muito bonito. E o meio careca disse que sim e disse ao gajo da revolução. Tá bem, e agora quem é que é o rei? Sei lá, disse o da revolução, eu é que não sou, que não sei nada dessas coisas, eu só vim porque, enfim, um gajo tem de conviver, não é assim? E o meio careca disse atão acaba aqui a revolução. Mas o pessoal que se tinha aproximado porque ouviram que havia porrada ali práqueles lados disseram assim, acaba-se o caralho! Queremos uma revolução ou partimos esta merda toda. Olhem lá, respeitinho é muito bonito e eu gosto, não vamos começar a falar assim... Foi então que veio um camarada que disse que a revolução isto e o capital aquilo e a classe trabalhadora aqueloutro e ninguém entendia nada, a não ser o meio careca que disse, o que tu queres sei eu, o que tu querias era ser do patronato. Se eu quisesse ser do patronato, estava debaixo das saias da minha mãe que é latifundiária. E começaram a discutir, até que o gajo da revolução disse que o melhor era haver uma votação, mas o gajo meio careca disse que até podia ser, mas não já. E os da revolução perguntaram porquê, e ele disse que não ia deixar o poder ir para a rua e não sei que mais, e até o camarada disse que sim, que o melhor era dar o poder a um gajo, mas um gajo que fosse assim uma coisa engraçada, que era para o pessoal não se agarrar muito à ideia de ter outro Salazar. E o meio careca, que era manhoso, disse assim, pode ser um zarolho e coxo? E o camarada disse que sim, que era o ideal, e vai o meio careca de chamar um gajo que também era da tropa e era muito esquisito, que o meu pai até tem um papel do ultramar a dizer coisas com palavras c'más do hino e com o nome do gajo em baixo e tudo. E assim ficou, e tudo terminaria em piza, se houvesse piza hut, ou telepiza, também dá, apesar das pizas da celeste e da cristo rei, grupo jolima, serem mais baratas, mas nesta altura os políticos não comiam piza, nem no Brasil, que foi para onde o meio careca foi, depois de passar uns dias na Madeira, de onde levou a ideia do carnaval que rapidamente e entusiasticamente foi recebida e copiada pelos brasileiros que, como é costume, copiam as ideias dos portugueses e dos africanos e depois dizem que foram eles a inventar. Como não havia piza, foram todos ao Gambrinus, onde beberam um Petrus com tremoços e azeitonas, que nesse dia havia noite de fado. O camarada também gostou, mas disse que era só hoje, enquanto o coxo zarolho dizia coisas importantes na televisão e o pessoal andava a dizer que o Salazar tinha morrido ou coisa assim. Depois de umas garrafas de Cartuxa, que o camarada achou que era de bom tom expropriar alguma coisa aos frades, lá foi cada um para a sua vidinha, o meio careca foi apanhar o avião, o da revolução foi para não sei onde, que só se lembraram dele depois dele morrer, e até deram o nome dele a uma ponte, embora a viúva preferisse, e com razão, mais algum guito ao fim do mês. O camarada multiplicou-se qual milagre por alguns dias, até que o coxo zarolho, com meia dúzia de espantalhos e um gajo, que ficou com a cara paralizada de medo num dia em que estava a dar de caras com os camaradas, e assim ficou para o resto da vida, acabaram com a festa... E foi assim que acabou a revolução.

publicado por Manuel Anastácio às 22:29
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3 comentários:
De Silvério a 12 de Maio de 2010 às 14:16
Acabou a revolução, acabaram a (f)esta, mas outros fs continuam: (f)ado , (f)utebol e (f)átima .
De Manuel Anastácio a 12 de Maio de 2010 às 23:12
E, também, a palavra que os portugueses, no fundo gostariam de ver associada a estas. Também começa por f... Mas não vou ser eu a dizer qual...
De glaucia lemos a 13 de Maio de 2010 às 01:01
Aprendi a narrar uma história de revolução que acabou em piza, o que fica muito bem aqui no meu Brasil, referente às CPIs . Ainda estou rindo. E aplaudindo a narrativa. Beijo. amigo. Gláucia

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