Domingo, 14 de Março de 2010
Pacto entre Walt Whitman e Ezra Pound

Faço um pacto contigo, Walt Whitman -

Já te detestei tempo que chegue.
Cheguei a ti como menino crescido,

Filho de pai teimoso;

Tenho agora idade para já ter amigos.

Foste tu quem rachou a madeira verde,

É tempo, agora, de a esculpir.

Temos uma única seiva, uma só raiz -
Haja, então,
entre nós, intercurso.

 

É assim que traduziria o texto que a Gerana publicou no Leitora Crítica. Não conhecia o poema em causa, se é que pode ser chamado poema. A sua secura de bilhete rabiscado à pressa talvez se coadune com maior propriedade com a linguagem mais corrente utilizada pela Gerana - há, talvez, demasiada tentação interpretativa nas minhas opções.

 

Este pacto representa, no seu tom arrogante, um pedido de lava-pés. O discípulo não se submete à autoridade do mestre, mesmo que agora, passada a rebeldia ad hoc da juventude, se reconheça como discípulo que herda a substância, a madeira verde e a seiva bruta, propondo-se a aperfeiçoar a forma apenas afeiçoada pelo mestre a talhe de podoa. Mais que um pacto, é uma afirmação de independência e de suserania. É uma forma muito pouco simpática de dizer "arruma as botas" que já fizeste o que tinhas a fazer. É um pacto de paz imposto pela parte que se considera mais forte. Uma declaração de paz podre. O fantasma expressivo de um homem que tinha sangue ruim a correr nas veias. De má farinha não se faz bom pão. Ainda que possa ter bom aspecto, torna-se intragável. A não ser, claro, que falemos da forma pura. E a literatura não se compadece de formas puras. Isso é terreno da música e da escultura. Não conheço Pound. Mas não gosto do cartão de visita.

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publicado por Manuel Anastácio às 19:26
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10 comentários:
De Gerana a 15 de Março de 2010 às 01:17
Adorei, adorei, adorei. Apenas os poetas podem traduzir poemas. Avisei que a minha é uma tradução ao pé da letra. Você conseguiu colocar poesia no poema. Basta um exemplo, veja a beleza que você deu ao verso: "Temos uma única seiva, uma só raiz -". Bravo!

Estou num debate com Flamarion, por e-mail, desde que ele leu sua postagem e meu comentário dizendo que separo o escritor da obra.
Pound só pode ser lido, que não se procure saber da vida e das ideias dele. Ainda que, como ninguém é só bondade, ou só maldade, ele tenha sido muito generoso com escritores, como Joyce.
De Gerana a 16 de Março de 2010 às 03:32
Manuel: feliz aniversário!
Gerana e o Leitora fazem questão de prestar uma homenagem para o poeta e amigo virtual.
Realize seus sonhos, amigo. Beijo grande neste seu dia.
De Neiva a 16 de Março de 2010 às 03:40
Manuel,

Vi teu poema lá na Gerana e enlouqueci de tãããõoo lindo!!!

Aproveitei para te conhecer e dar votos de muitas felicidades neste dia.

E quanto a este texto, hum, ácido. rsrs

Abraços
De Manuel Anastácio a 17 de Março de 2010 às 19:02
Obrigado, Neiva. Andarei também pelo seu cantinho. Está prometido.
De Maria Helena a 16 de Março de 2010 às 07:13
Há vidas que compõem a nossa, com sons, cores, palavras, que nunca teríamos se não existissem. A gratidão, aqui, não pode ter limites.
Um dia cheio de alegria, partilhas e cumplicidades, Manuel.
E um abraço

Maria Helena
De Manuel Anastácio a 17 de Março de 2010 às 19:06
Um abraço cheio de gratidão, Maria Helena.
De adelaide amorim a 16 de Março de 2010 às 13:23
Venho conhecer seu blog, que me agrada desde o título. Mais uma boa dica da Gerana.

Parabéns pelo aniversário e pelo bom gosto e talento, Manuel.

De Manuel Anastácio a 17 de Março de 2010 às 19:04
Obrigado pelas palavras, Adelaide. Terei gosto em acompanhar o "Inscrições". Beijo.
De monicaty.monica@gmail.com a 17 de Março de 2010 às 07:44
Vim aqui pelo Blog da Gerana, adorei sua poesia.....
Muito linda....Quero voltar mais vezes...
De Manuel Anastácio a 17 de Março de 2010 às 19:04
Obrigado, Mónica.

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