Quarta-feira, 24 de Maio de 2006
a) Artemisa

Perguntou-me um leitor porque é que um dos poemas que traduzi, de Gérard de Nerval se chama "Artemisa". De facto, o seu conteúdo é constituído, essencialmente, por referências cristãs. Ora, não me cabe a mim explicar aquilo que vem envolto de mistério das mãos do autor. Uma árvore não explica os frutos - dizia o Miguel Torga... Mas como não sou a árvore, vou tentar dar algumas pistas. Sem ser exaustivo. Porque, enfim, a poesia não pode ser explicada (mas, de vez em quando, convém explicar alguma coisa para que os desconfiados não julguem que andamos a misturar alhos com bugalhos).

Na verdade, a resposta é muito simples - ainda mais se tivermos em conta que não existem quaisquer religiões puras no mundo (e ainda bem – é um sinal de esperança) . Mais que isso: todas têm tendência a repetir os mesmos mitos em formas diferentes. As religiões, como a arte, distinguem-se não tanto pelo conteúdo (por vezes, prescindem mesmo dele), mas pela forma...

 

Claro que o sentido do soneto de Nerval não é institucionalmente religioso; de facto, Nerval pertence àquela classe de intelectuais franceses (é que isto acontece mais com os franceses ou com francófilos – não me perguntem porquê) que criam a sua própria religião e que não pretendem que alguém mais a ela se converta. Este soneto de Nerval é, como sempre, carregado de um simbolismo louco. Claro que utiliza todo um código de mistérios e de relações cabalísticas que ultrapassam o que é traduzível e explicável.


Mas o tema é imediato. O eterno feminino. O pungente eterno feminino que desde sempre assombra os mitos e os arquétipos da nossa cultura e que em Nerval estava profundamente ligado à ausência da figura materna: a mãe do poeta morreu tinha ele apenas dois anos. A virgem Maria, todas as santas martirizadas na defesa da sua virgindade e Artemisa têm muito de comum: aliam em si a ideia de vida e de morte. O primeiro verso do soneto, “Em décimo-terceiro volta... à frente...”  inaugura e sintetiza esta ideia. O que volta em décimo terceiro? A hora que se segue à décima segunda – isto é, quando o ponteiro deu uma volta completa ao relógio. Estamos, portanto, a falar do tempo circular e do elo que liga o fim ao início? Do tempo que a natureza parece celebrar com os dias, as noites e as estações? Sim e não. Por um lado, a fecundidade que se associa ao corpo da mulher parece remeter para esse género de tempo, mas… o poema não se refere directamente fertilidade, mas à sua recusa. O que se evoca é o eterno feminino cioso da castidade e da solidão. Artemisa é a deusa que foge da presença masculina e que detesta qualquer assomo de desejo sobre o seu corpo. É a deusa que persegue até à morte aqueles que se atrevem a desejá-la. É a deusa que recusa a sua condição fértil. É a deusa do tempo recto, sem curvas, sem ciclos, sem retorno, sem regresso.

 Mas, por outro lado, temos outro flagrante símbolo feminino: a rosa, evocada em Santa Gúdula, catedral conhecida pela sua rosácea; a malva-rosa (“Rose trémière”, no original), planta em que as flores se sucedem ao longo do caule, como numa espiga, como que conotando a sucessão de vidas, a reencarnação e a memória, e que nega as rosas brancas, símbolo da transitoriedade e do efémero, que caem, no final, sobre a terra. A mesma terra que serviu de túmulo, em vida, a Santa Rosália, desaparecida do contacto humano e escondida numa gruta onde misteriosamente viveu o seu celestial degredo.

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publicado por Manuel Anastácio às 00:01
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7 comentários:
De Artur a 24 de Maio de 2006 às 16:57
O eterno feminino, ou como os homens simplesmente não conseguem viver sem as mulheres...
De sandra a 24 de Maio de 2006 às 20:11
Já há mto q por aqui n aparecia mas estás mais giro, cheio de luz, com um corpo bem constituído e organizado. Parabéns! ;) Bjs e boa semana!
De Manuel Anastácio a 24 de Maio de 2006 às 21:07
O eterno feminino... Tá bem... Lembro-em que era o título do primeiro programa de televisão apresentado pela Teresa Guilherme.
De Helena a 25 de Maio de 2006 às 08:19
Parece-me que o desejo de ser Artemisa é uma tentação para muitas mulheres, eclode com a puberdade e adolescência.
De Filipe a 29 de Maio de 2006 às 22:24
Em primeiro lugar obrigado, pela excelente resposta. Tenho a dizer também que não conheço Gérard de Nerval , e não é poeta que se conheça de certeza com leituras rápidas. Dois pontos da introdução que gostei, A árvore não explica os frutos, concordo, eu costumo dizer que os frutos têm que se perceber é pela terra onde as raízes circulam. A poesia não se explica, nunca, mas discuti-la só nos fará bem.
Como te disse não conheço o poeta, vou ler sobre ele, percebi algo do simbolismo e agradeço a explicação.
Em relação ao nome associei mais à planta Artemisa , a mais conhecida o absinto, e no sec XIX, a fada verde, bebida dos intelectuais da época. De qualquer maneira a planta Artemisa era dedicada a Artémis , deusa que se enquadra bem na tradição judaica - cristã. Por outro lado na Bíblia a planta Artemisa é das mais mal referenciadas, contradições.
Mais uma vez obrigado pelo post
De Manuel Anastácio a 31 de Maio de 2006 às 00:13
Concordo. Mais que explicar a poesia, há que falar dela.
De Sandra Artemisa a 26 de Julho de 2006 às 20:24
Olá
Gostei muito de descobrir sem querer mais qualquer coisita acerta da origem do meu nome..
No ar deixo uma pergunta: Não haverá dentro de todas nós uma "Artemisa"
Um beijo

Sandra Artemisa

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