Sexta-feira, 5 de Março de 2010
As Virgens Ofendidas

"Look Down", de "Les Miserables"

 

Texto publicado ontem no "Povo de Guimarães"

 

Deve o Poder ser acarinhado só porque é Poder? Diz-se hoje que desconfiar de quem governa é manchar a honra dos dignos representantes do Povo, democraticamente eleitos. E considera-se que apenas são representantes do Povo aqueles que, à custa de papas e bolos, conseguiram o beneplácito das multidões. As oposições de esquerda têm sido consideradas, por sua vez, comadres invejosas que dizem mal, nada fazendo no sentido de resolver os problemas reais das pessoas, obcecadas por intenções políticas despesistas e parasíticas que, postas em prática, afundariam o país na miséria. Ouvem-se queixas por qualquer tentativa de fiscalização do Poder e qualquer tentativa de esclarecimento de suspeitas é considerado um ataque baixo contra a integridade moral dos poderosos impolutos, como se o sufrágio fosse um ritual de purificação onde os vencedores renascessem, já não como pessoas, mas como símbolos acima de qualquer desconfiança. Qualquer crítica à sua actuação, qualquer dúvida, qualquer solicitação de explicações é considerada uma injúria perpetrada por um bando de malfeitores motivados por “intuitos político-partidários” que utilizam qualquer causa “menor” para ganhar pontos no jogo político. Teriam sido estes os termos utilizados por Carlos Mota, presidente da Junta de Nespereira, a respeito do aprisionamento de parte da população da freguesia atrás de um viaduto construído a pique e de uma passagem aérea intransitável para muitos, depois do questionamento feito ao Ministério das Obras Públicas pelo deputado Pedro Soares, do Bloco de Esquerda. Claro que este problema não rivaliza, nem de perto, com os problemas maiores de uma população que, à imagem do resto do país, vive assombrada pela precariedade e por um sentimento de impotência perante um futuro onde as expectativas de melhoria de vida soam como um fado sem esperança. Claro que este problema de acessibilidade e de má gestão dos dinheiros públicos (já que a solução reivindicada pela população seria menos onerosa que a que foi implementada) é um problema menor. Muito nos congratulamos pelo facto de o Senhor Presidente da Junta andar a resolver os problemas maiores da população que o elegeu e que o voltará a eleger, com certeza, depois de todo o esforço que está agora a despender na resolução das suas angústias maiores, enquanto os seus adversários políticos o incomodam com ninharias, movidos pelo oportunismo de quem se aproveita de qualquer descontentamento da arraia-miúda.

O mesmo se passa, a outra escala, com o pequeno país onde vivemos. Que ninguém ouse duvidar da rectidão moral do nosso primeiro-ministro. Que ninguém ouse colocar a hipótese de, abaixo dos muitos sinais de fumarada que paira sobre este governo, existir, de facto, enxofre em brasa. Mesmo que houvesse… Não anda tudo atrás do mesmo? No meio de tantos indícios de corrupção, o Povo acaba por pensar que se “lá estivesse, faria o mesmo” e adormece no conformismo. Já estava na hora de acordar e exigir justiça e seriedade. Seria pedir muito?

 

 

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publicado por Manuel Anastácio às 20:58
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