Terça-feira, 12 de Janeiro de 2010
Sete pecados capitais: A Preguiça

A Preguiça, por Godard.

 

Sem cantar, canta a cigarra,

Grita sem gritar. Não tem laringe.

Sem cordas vocais.

Só traqueias. Sem pulmões.

Mas com as pernas,

Como uma Marlene Dietrich dengosa

Vendendo maçãs em Marrocos

Ao Gary Cooper,

Não é preguiçosa.

Perigosa, talvez. A preguiça é a mãe de todos os...

a) malvados pecados

c) males

b) vales

d) ou uma palavra qualquer que rima com pecados.

Não sei onde fui buscar os vales mas tem algo a ver com Isaías.

E com o Messias. De Händel.

Difícil coisa é cantar com as pernas.

Experimentem e logo verão,

Se antes não tiverem uma muscular distensão

Cãibras ou, apenas, uma quebra de tensão.

A preguiça é o berço da invenção

Mas também

Das utopias em que navega o devir.

Deixem-me o violão e uma rede.

Uma lareira e Gláucia contando histórias

Num inverno europeu, com muita lenha.

Deixem-me sonhar liberto das horas presas aos dias e aos horários,

aos primeiros toques, aos segundos,

E à funcionária que vem ver se os meninos deixaram aparas de lápis no chão.

Prendam-me aos livros bolorentos

e a outros inúteis documentos de sótão e solidão.

Deixem-me perder no vinho das letras e na imagem fantasma

de um écrã de prata. Deixem-me não fazer nada. Fechar os olhos,

arrastar o gosto do que gosto. E cultivar outros pecados.

A alma cansa-se para atingir o Paraíso. Poupai-me a carne.

Ao menos isso.

Deixai-me dormir.

Amanhã é já agora.

E uma cigarra, em mim, dolente, chora...

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publicado por Manuel Anastácio às 21:31
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6 comentários:
De Gerana a 13 de Janeiro de 2010 às 02:57
Tá vendo a razão da minha reclamação quanto ao número de postagens? É a falta que sinto de sua poesia, de seus textos, de suas colocações frente a diversos temas.
Você faz poesia das grandes.
Adorei. A pitada de fino humor está ótima!
De glaucia lemos a 14 de Janeiro de 2010 às 17:07
Ouvindo o Messias de Handel , quem precisa das histórias de Gláucia ? No entanto , para não contrariar o verso tão bonito e sugestivo com aquela lareira no inverno europeu, acho que Gláucia contará aquela história da mulher que tinha um amado que um tornado arrebatou, já que o poeta afirmou ter lido repetidas vezes e até compôs uma forma poética - linda! linda! - para ela. Havia uma mulher que tinha um homem que a amava e um tornado o levou...
Obrigada por ter me inserido no seu poema, estou me sentindo eternizada, vale a pena a existência da preguiça para fazer compor poemas tão bonitos. Aliás, poeta é poeta, meu amigo, toda maneira de se inspirar vale a pena, quando se nasce com o virus como um certo Manuel Anastácio Grande beijo. Gláucia .
De glaucia lemos a 14 de Janeiro de 2010 às 17:23
Volto ao mesmo assunto para retificar um erro que me passou batido. Onde saiu: "Ouvindo o Messias de Handel ", retificar para OUVINDO O MESSIAS E HANDEL , quem precisa etc. Sei que o Messias é de Bach, também conhecido como "Jesus alegria dos homens" uma bela página barroca, até tenho a partitura. Parece que Vinicius compôs uma letra para ela. Mal colocado como ficou, parece que estou atribuindo a Handel a autoria do Messias. O que uma letrinha intrometida consegue! Grata pela compreensão. Gláucia
De glaucia lemos a 15 de Janeiro de 2010 às 00:46
Tai ! Lembrei-me que Handel tem mesmo um, acho que, oratório intitulado Messias. Não recordei de pronto porque o que tenho muito de Handel são sonatas que vem nos métodos para estudo. Nenhuma ópera, nenhum oratório, o de Bach estava mais presente na memória. Ainda cheguei a tempo. Beijo. Gláucia .
De Gerana a 15 de Janeiro de 2010 às 02:26
Você sabia, Manuel, que Gláucia toca piano?
Lendo os comentários dela, lembrei-me disso e fiquei imaginando Gláucia contando histórias, tocando piano, a lareira crepitando... Tá muito bom. Viva a preguiça!
De gláucia lemos a 16 de Janeiro de 2010 às 18:10
Ora, Gerana , até parece que sou uma virtuose . Eu JÁ TOQUEI piano há séculos. Depois de mais de 30 anos sem tocar, filhos criados, marido no céu, netos crescendo por conta dos seus próprios pais, me senti liberada para usufruir dos meus maiores e preciosos prazeres relegados mas não esquecidos, já que só a literatura era aproveitada a qualquer momentinho para ler e escrever, então comprei meu novo piano e senti a necessidade de voltar a me exercitar. As peças que tocava de cor havia esquecido. Que faço agora? Estudo, estudo muito, mas acho que não voltarei a tocar como antigamente. Contudo continuo concordando com Da Vinci :"Todas as artes aspiram chegar à música". Digo eu: A música, embora inseparável da matemática, é a arte absoluta. Beijo , amiga. Gláucia

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