Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009
Dos políticos como alvos alvos, ou como o Caim não é obra para as unhas do Saramago, mas já era para as minhas (acho que sou melhor que ele - ou Ele? - em Teologia )

A imagem de Berlusconi com a cara esfrangalhada não é uma bela imagem. Ainda mais porque não sabemos ao certo qual a razão que levou aquele pobre alienado a partir-lhe os dentes. Faz parte do desenvolvimento moral de cada indivíduo relacionar a acção com a intenção. Se alguém atira com um sapato à cara do Bush, todos, ou quase todos, aplaudimos a acção por causa da inequívoca intenção (o mesmo não se passa com Berlusconi, onde as intenções podem ir das mais justas à pura e rasteira inveja). Em vez de um sapato bem poderia ser algo mais denso. Um buraco negro seria bom, se não engolisse no próprio instante todo o sistema solar… atirar-lhe o Titanic, também não, até porque todo o gasto de energia associado ao feito só viria a contribuir de forma desmesurada para o efeito de estufa. Há que procurar sempre um meio eficaz, mas que seja, simultaneamente, eficiente. Este problema da eficiência e da eficácia foi um dia exemplificado por uma professora minha que dizia que matar uma mosca com uma caçadeira era eficaz, mas não era eficiente. Tenho as minhas dúvidas. Com dispersão dos pedacinhos de chumbo, só com muita sorte é que um deles esborracharia a mosca. Se, num alvo alvo (não, não repeti a palavra, não é uma gralha: um alvo alvo é um alvo em branco, uma coisa impoluta e aberta a todas as possibilidades físicas e metafísicas, à espera de que a ordem natural das coisas a impregne com pontinhos – sejam eles cagadelas de mosca, sejam impressões de fotões, electrões, bigodes de gato ou uma sequência cinematográfica pensada pelo Stanley Kubrick) dispararmos um cartucho de caçadeira, ficamos com uma nuvem semelhante àquela de que se expõe quando aprendemos a história da evolução das representações mentais dos átomos, desde os bolos de passas às nuvens de mosquitos. Uma mosca, frente a um disparo de caçadeira tem toda a probabilidade de escapar ilesa porque o espaço livre e desimpedido do trajecto dos pedaços de chumbo é, de longe (e quanto mais longe melhor), maior que a percentagem de área intersectada pela morte certa. Eventualmente, ficará com uma atena ou uma pata a menos. Nada que interfira com o seu funcional propósito de vida, até porque as moscas têm patas a mais. Já o dizia Aristóteles que fixou em quatro o número das ditas cujas, pensando que as mesmas (as moscas) eram mamíferos pequeninos, em vez de insectos nojentos dispersores de protozoários, vírus e bicharada afim que, tendo patas, tê-las-á em maior quantidade ainda – ou não as terão, a não ser em forma pseudo. Qualquer político, bonzinho ou mauzinho, é um alvo alvo de experimentação científica. Os cidadãos são ciclotrões. Ou outra coisa qualquer que emite, de vez em quando, uma coisa minúscula que tanto pode matar como acariciar. A coisa minúscula, na melhor das hipóteses, pode ser uma opinião. Talvez Berlusconi tenha tido um clarão de sensatez na vida, ao ver a sua carinha laroca de sedutor de menores feita em empada de lebre caçada a pneu, e tenha chegado à conclusão que mais vale um texto ou um filme a atingi-lo que o objecto contundente que nele acertou, não em cheio, mas um pouco ao lado – de forma suficiente a estragar-lhe, provavelmente, o charme natural , ou artificial, é indiferente, da corrupção. As palavras incomodam ao longo a vida. Sentimo-las a martelarem constantemente. Quem tem sapiens no segundo nome da espécie biológica e já viveu o suficiente para ter memória, sabe bem o que é acordar a meio da noite com a frase corrosiva de quem nos marcou com o ferro em brasa da humilhação verbal, mesmo que esse alguém já nem se lembre ou aposte que ainda existimos. Faz parte da nossa condição trazermos às costas as palavras de quem nos arrancou  lágrimas. Ainda mais quando essas  lágrimas eram justas. Assim foi com Santa Mónica que a santa chegou à conta da escrava, ou criada (ou tanto faz do ponto de vista social) que a chamou de bêbeda porque a via amiga de molhar os lábios……………………………………………………………………………………………………………...................

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Chegado a uma parte mais avançada deste texto, o meu computador decidiu desligar-se e grande parte do que tinha escrito foi à vida. Fique aqui um espaço em branco, como nos textos dos pré-socráticos. Imagine-se, pois, o que este reles escritor poderia dizer mais sobre a cara desfeita de Berlusconi. Uma coisa digo: não era, com certeza, uma palavra de apoio ao agressor. Não por ser politicamente correcto. Apenas porque a “coisa Berlusconi” não é o próprio Berlusconi. Há uma face (que nem sequer é oculta) que merecia ser esmurrada até à falta de dentição… mas tal face não é feita de carne nem maxilares.  A coisa Berlusconi está, provavelmente, metida, entranhada, na nossa própria cara. Até porque se há berluscónis (com acento: em língua portuguesa, são acentuadas as palavras graves terminadas com i, com ou sem s a seguir – e não vale dizer que berluscóni é palavra estrangeira, porque só o é se for nome próprio, no caso de ser nome comum passa a pertencer à odorífera e letal flor do Lácio), até porque se há berluscónis neste mundo, dizia eu, não convém esquecer que foram milhões de berluconizinhos que o fizeram com uma nuvem de electrões chamada sufrágio universal. Um fenómeno cósmico. Quântico. Que prova que o Inteligent Design é uma treta. Deus até pode existir. Mas a perfeição do mundo criado só pode testemunhar  a favor dele se for para provar que Ele é inimputável. Por insanidade mental. Note-se disto que nada tenho contra Deus, insano ou não. Se eu, humano, o sou, quem sou eu para imputar como pior que eu Aquele a quem não conheço? É nisso que Saramago falha… Dessem-me um ponto de apoio… e levantaria muita coisa. Não interessa o quê agora. Talvez tenha algo a ver com o pensamento pré-socrático. Ou talvez seja pós. Ou, talvez, seja melhor sonhar apenas que sou eu que estou a atirar com um objecto manuseável à face exposta (bastava-me essa) das lombrigas que se retorcem na cloaca do poder…

 

 

Dessem-me, apenas, um bocadito de papel. Higiénico. O pior é que já o tenho. E uso-o pouco. Falo por metáforas, claro. Não vá algum berluscóni de bairro dizer que sou caga-fetos. Palavra esta (caga-fetos) para futura-e-eternamente-adiada-crónica. É: crónica fica melhor que post ou que artigo. Crónica. Nem que seja de dez arrotos de postas de peixe-gato do Vietnam, com vestígios de agente laranja.

publicado por Manuel Anastácio às 22:07
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