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Domingo, 13 de Dezembro de 2009
São Gualter de Guimarães: da Fonte Santa à Santidade

São Gualter de Guimarães, Livro dos Estatutos da Irmandade de São Gualter de 1777.

 

Cristina Célia Fernandes, Vimaranense de origem (ao contrário da minha pessoa, que aqui caiu de pára-quedas),  tem um Mestrado em História e Cultura Medievais, área onde já publicou diversos trabalhos de investigação, como a Transcrição dos Milagres de Nossa Senhora da Oliveira de Guimarães, Apógrafo de 1351, A.N.T.T., de Afonso Peres, na Revista
de Guimarães, O Livro dos Milagres de Nossa Senhora da Real Colegiada de Guimarães com edição crítica do apógrafo de 1351, da Opera Omnia Edições; A Bandeira da Irmandade de Nossa Senhora da Oliveira de Guimarães – Breve Historial, Revista Caixeiros e o Comércio; O Milagre de Carlos de Nápoles (Acrescento de 1655 ao apógrafo de 1645 do Livro dos Milagres de Nossa Senhora da Oliveira de Guimarães), na Revista Nova Et Vetera (Junho de 2007); O Culto de Nossa Senhora na Idade Média: Estudo comparativo de algumas das Cantigas de Santa Maria de Afonso X, O Sábio, e o Livro
de Milagres de Nossa Senhora da Oliveira de Guimarães, além de um livro de literatura infanto-juvenil de que aqui já falei: A Batalha dasEsferas Celestes, Papiro Editora, 2007.

 

Com a descoberta das relíquias de São Gualter, de que tive a honra de aqui mostrar, quase em primeira mão, as fotografias que a Célia, com grande presteza e generosidade me concedeu, deitei os olhos a outra das suas obras de investigação (e reflexão) histórica: "São Gualter de Guimarães: da Fonte Santa à Santidade". São Gualter - que não se lê Guálter, mas Gualtér (à boa moda de Guimarães) - foi enviado de São Francisco, juntamente com Frei Zacarias, que se estabeleceu em Alenquer, para evangelizarem a lusa terra de já supostos cristãos. Trazia consigo aquela dor e humildade seráfica que abraçava a podridão para alcançar nesses abraços o espírito puro e elevado da humanidade que se destila na compaixão. Fixou-se, em primeiro lugar, nas vertentes da Serra de Santa Catarina (hoje em dia, conhecida apenas como Penha), num local onde uma fonte ainda marca a memória do homem que, junto a ela, lavava as chagas e a corrupção dos corpos que procuravam, nas suas mãos de médico e compaixão amorosa, a purificação da doença do corpo, que das doenças da alma, não rezam os milagres. Pouco se sabe da vida deste frade, talvez italiano, talvez francês, que é representado com um túmulo numa das mãos e com um livro aberto na outra. A Célia aprofunda de forma competente e iluminada a simbologia destes atributos icónicos. São Gualter faz parte daqueles santos que, em terras lusas, tomam a sua santidade não a partir do exemplo da sua vida (que terá sido particularmente virtuosa, mas sem que se saibam pormenores muito esclarecedores), mas enquanto exemplo, místico, de um símbolo que concede uma identidade sagrada a um espaço geográfico que, tendo em vista a imposição de uma ordem social, centra nesse espaço o móvel umbigo do mundo. É arquetípica esta vontade de centrar o espaço limitado onde se vive no centro do Universo. Foi assim com o Geocentrismo, é assim com todos os santinhos e nossas senhoras que pontuam o espaço geográfico com aparições umbilicares da imagem materna. Nada há de mais religioso no nosso corpo que o umbigo. Ora, Guimarães, berço mítico da Nação Portuguesa (tirem-nos à vontade os factos, que jamais nos tirarão o Mito, esse Nada que é Tudo) tem em São Gualter, revela-me a Célia neste livro, o contraponto masculino do cordão umbilical sagrado que já ligava Guimarães à Jerusalém Celestial através de Nossa Senhora da Oliveira, cujo peso histórico, hoje esbatido pela alvura alienígea da Nossa Senhora de Fátima, é incomensurável do ponto de vista simbólico, ainda que, tal como a moderna Senhora do século XX, se ligue ao elemento vegetal. Entre o azeite iluminador das candeias e as bolotas das azinheiras deitadas aos porcos, o povo foi fazendo a sua escolha. Mas se Nossa Senhora da Oliveira era, em termos de devoção mariana, o luso umbigo, ou o carimbo certificador da autenticidade cristã desta terra, São Gualter tornou-se o umbigo que liga ao outro extremo da vida. A virgem liga ao nascer, Gualter liga ao renascer. E o umbigo, cicatriz que atesta a separação, é, no seu caso, o túmulo. Quando morreu Gualter, junto ao seu túmulo e junto à fonte, sucederam-se os milagres: cinquenta e dois ao todo (número umbilical também, como revela a Célia: número do centro e do regresso à unidade - o cinquenta - somado ao número dois de óbvias significações). Tolhidos, surdos, quebrados, passando por aquela mulher que, de Braga, pediu a saúde ou a morte ao filho paralítico que levou numa canastra até à fonte onde o santo teria lavado a túnica, e que, em angústias de alma, transcreve a Célia a partir da  História Seráfica dos Frades Menores na
Província de Portugal, de Frei Manoel da Esperança, teria rogado em novena: "Glorioso São Gualter, ou me dai saúde a este filho, ou lhe dai logo a morte, pois sabeis que por minha pobreza não o posso sustentar." E Frei Manoel da Esperança, sinestesicamente inspirado, logo faz o santo ouvir as lágrimas, fazendo o rapaz saltar da canastra. Um pouco mais impressionante é a descrição e cura daqueloutro menino de dois anos, que nascera com os pés pegados às costas e com as mãos retorcidas e fechadas, dentro das quais criava bichos. Milagre não será o caso de castigo divino, contado no mesmo documento, acontecido a um tal de António Rodrigues, da vila de Esposende que troçou das mulheres que carregadas vinham de Guimarães com a água milagreira com que curavam febres ardentes e remediavam acidentes, de outro modo mortais, como assevera Frei Manoel. Calhou a este homem de Esposende fazer um comentário, a meu ver muito judicioso, sobre a devoção aquática das mulheres de Esposende: há de, porventura, essa água levar-vos ao céu? Pergunta muito cristã e cheia de significado moral quando transcrita mas que lá terá tido a sua intenção malévola, logo castigada de pouco sobrenatural maneira quando outro grunho que o acompanhava o atirou ao chão, quebrando-lhe uma perna ("Mas logo foi castigado, porque, outro com quem andaua brincando, o lançou no chão, & lhe quebrou hua perna." - não se chega a entender se o agressor de António Rodrigues, "com quem andava brincando", era alvo da sua brincadeira ou dela conivente), curando-se poucos dias depois, ao conhecer a culpa do seu cepticismo e por valimento do mesmo santo, em honra do qual se instituiram as mais importantes festas da cidada, as Gualterianas.

 

Gualterianas de 1950.

 

A riqueza documental deste livro, como é costume nas obras de investigação da Célia, estende-se, não só pelas páginas de antanho por ela esmiuçadas (palavra ingrata, hoje em dia), mas também pelo acervo fotográfico onde a memória de Guimarães se plasma entre a religiosidade e o apego à terra, como terei ocasião, porventura, de falar, em breve (são longos, os meus "em breves") a respeito de outra obra essencial da Célia.

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publicado por Manuel Anastácio às 08:47
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