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Sábado, 17 de Outubro de 2009
Jardim Zoológico de Cristal, de Tennessee Williams, "Ao Cabo Teatro"

Estreou ontem, no Pequeno Auditório do Centro Cultural Vila Flor, a peça "Jardim Zoológico de Cristal", de Tennessee  Williams, pela "Ao Cabo Teatro". Há muito tempo que não ia ao teatro. Para ver uma peça para gente adulta, pelo menos. Gosto muito de cinema, mas o intimismo do momento que se esvai e que não está cristalizado em lado algum jamais poderá ser tomado pelo abraço das câmaras. Já tinha visto a adaptação de Paul Newman, era eu um pequenote e lembro-me bem do unicórnio decepado, como uma castração que se toma de forma resignada e triste, afinal, vivendo-se numa sociedade castrada, só sem o fálico e viril corno poderá um unicórnio, enfim, dialogar com os outros cavalos. Há destes sacrifícios e mutilações necessárias à integração social, ainda que a integração apenas ocorra no plano simbólico dos pequenos bibelôs atrás dos quais Laura se perde no seu mundo de sussurros quebradiços e lágrimas de cristal.

 

Maria do Céu Ribeiro, no papel de Amanda Wingfield, foi correcta. Não havendo a possibilidade de fazer a transposição do sotaque sulista para o português, deu alguma dose de irreverência à personagem, embora tenha para mim que um pouco de nasalidade de Cascais cairia perfeitamente na tradução fonética. Laura, desempenhada por Micaela Cardoso, conseguiu momentos de pura empatia com a solidão. Luís Araújo, como Tom soube tomar nas mãos o difícil papel de evocador e conseguir tomar em ambas as mãos o egoísmo e a dignidade da personagem. Romeu Costa, Jim O' Connor, o arauto da vida e dos sorrisos, trouxe a bonomia necessária para contrabalançar todo o humor negro típico de Williams.

 

Foi a respeito deste humor negro que, à saída, alguém se revoltou contra os risos absurdos da plateia a respeito das graças trágicas com que a peça está semeada. Dizem por aí, incluindo a Maitê, mas também outras pessoas, incluindo pessoas por quem tenho muito afecto, que os portugueses são tristes e não têm sentido de humor. Não concordo. Acho que os portugueses têm até sentido de humor a mais. Um sentido de humor trágico que os leva a rir nos momentos errados. Nos momentos em que o riso humilha o outro. Nos momentos em que a tragédia assola os outros. Pensando bem... talvez tais risos apenas comprovem a insanável tristeza deste povo que esbarrou com o mar e ficou preso entre o medo e a frustração de ficar. Tem um porto no nome, este país. E só ficaram por cá aqueles que não tiveram a coragem de descer às profundezas dos mares que partem dele ou subir às douradas praias abertas a novos e verdes interiores. Há em Portugal, no seu todo, muito desta peça de Williams. Coxos como Laura, entretemo-nos com vidrinhos e fugimos à vida com medo do nosso vómito. O público, apesar de simpático, foi um pouco inconveniente. Incapaz de compreender que há graças que não são para rir, pensando, no dizer desse alguém, que tudo o que é teatro é stand up commedy. Mas faz isto parte da experiência de ir a um espectáculo onde se compartilham emoções com os vizinhos. Faz parte da experiência social de sentir o que os outros sentem. Há sempre ondas de sentimentos entre quem vê um espectáculo. Lembro-me de ver "O Pianista", de Polanski, com o mais empático dos públicos. Ontem, o dia foi mais infeliz neste aspecto. Mas veio apenas transportar para a realidade aquilo que se passava ali em frente, numa (literalmente) caixinha de amostra das aflições humanas. Fossem os risos como os de Jim O' Connor, capaz de, através do sorriso e de uma satisfeita autoestima, compreender e aconselhar aqueles que sofrem, e sairia dali satisfeito.

 

Quando dizem que Portugal é um país triste, tenho de concordar e de discordar. Não tenho grande vontade de rir com vontade de chorar. Dispenso os risos das máscaras. Prefiro um sorriso magoado mas sincero do que gargalhadas lançadas como ópio para as multidões.

 

Falo eu, que gosto de rir.

 

A peça estará ainda hoje (às 20:00) e amanhã (à tarde) no Centro Cultural Vila Flor; dia 31 de Outubro e 1 de Novembro em Santiago de Compostela, no Centro Dramático Galego; a 6 de Novembro no Teatro Municipal da Guarda, a13 e 14 de Novembro no Teatro Viriato de Viseu; a 20 e 21 em Braga, no Theatro Circo; a 3 e 13 de Dezembro no Estúdio Zero, no Porto, a 19 de Dezembro no Teatro Aveirense, a 6 e 16 de Janeiro no Teatro Taborda em Lisboa e a 23 de Janeiro em Portimão (Tempo).

Artigos da mesma série: ,
publicado por Manuel Anastácio às 10:15
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1 comentário:
De Gerana a 18 de Outubro de 2009 às 02:01
Coincidência. Escrevi sobre minhas leituras dos contos que deram origem às peças de Tennesse Williams. Lá no Leitora, mas coisa pouca.

Dizer de sua justiça

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