Segunda-feira, 12 de Outubro de 2009
Das pessoas de que a minha vida é feita

Diz uma regra antiga que os artigos dos blogues não devem ser reescritos. Eu vou negar-me a esse princípio. Este artigo vai ser reescrito ao longo da minha vida. E vai consistir apenas de uma lista, sempre incompleta e que irei ampliando com o tempo. Uma lista das pessoas que são eu. Tal como as conheço, sem procurar saber delas mais do que o que sei. Com cognomes ou reticências que darão lugar a algum, algum dia. A ordem dos nomes (ou evocações) é aleatória e não indica em nada qualquer preferência.

 

E, volto a dizer, este post jamais terá forma final. A não ser quando a Irmã Morte, caridosa, me beijar a face. Tornando, definitivamente, em epigramas aquilo que agora, ainda, não pretendem ser.

 

Carla Cristiana de Carvalho, a que intimamente me salva.

Maria da Glória Bouça, a que me deu.

Silvério Inácio Anastácio, o que me arrancou do solo do silêncio.

A menina de tule numa praia do Algarve, quando tinha menos de três anos e que é a primeira pessoa de quem me lembro.

O Adelino, com quem brincava;

O Marco, com quem descobri primeiramente o que é perder alguém que de nós faz parte.

O Silvério, que me diz que nada é de cristal.

O Silvério Sagueiro, que me diz que há, na terra e no tronco em que nascemos, maravilhas que desconhecemos apenas por acidentes ínfimos entre a brisa e as ramagens.

Gerana Damulakis, que abriu os braços às minhas palavras e as coloriu com um sorriso de bondade.

A Maria Helena que me faz crer em Deus.

Gláucia Lemos, que me abre os olhos para as formas místicas que toma o afecto.

Paulo Brabo, Ministro Venerável da Ordem do Abraço Eterno.

A minha irmã Paula, que deu sentido à palavra órfão e me ofereceu as palavras sangue, veias e pulsação.

O meu cunhado Nuno, que tem no sorriso a simplicidade das palavras mais sábias.

O meu sobrinho Duarte, enigma das sementes e da vida que há no riso das águas.

O meu afilhado Miguel, arcanjo a quem devo mais palavras e presença.

Aurora da Glória, a quem devo o valor que dou aos (e ao medo que tenho dos) suspiros e silêncios.

 

(continua...)

publicado por Manuel Anastácio às 23:05
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6 comentários:
De Gerana a 13 de Outubro de 2009 às 02:40
Suas palavras que abriram, não meus braços, mas minha alma. A poesia aproxima as pessoas, funda amizades, propicia trocas importantes. Obrigada.

Ah, o Leitora foi voltando aos poucos; primeiramente com imagem, depois com uma resenha antiga, adiante com uma postagem de um blog que iniciei com o nome de Alik Panaiotes, mas que não passou do segundo dia, por ser incapaz de não me ser e, enfim, escrevi um texto. Voltei.

Em tempo: Alik era uma das opções de meus pais para meu nome. Panaiotes é o lado materno da família de meu pai, não levo o nome, pois só levo o do lado paterno dele, Damulakis.
De Anónimo a 13 de Outubro de 2009 às 04:06
Querido amigo: Estou honradíssima por ter sido incluida na sua lista de pessoas que são você. Que lhe diria em resposta? Eu o incluiria na minha lista - que nunca pensei em fazer - com as seguintes palavras:
Manuel Anatácio, cujos olhos nunca me viram, mas cuja sensibilidade conheceu minha alma como poucas pessoas, a julgar pelas suas próprias palavras.
De glaucia lemos a 13 de Outubro de 2009 às 04:11
Oi Manuel: A mensagem acima é minha, inadvertidamente enviei sem assinar. Por isso estou retornando, para lhe dizer que sou, com meu afeto, Gláucia Lemos
De Maria Helena a 13 de Outubro de 2009 às 15:53
Quando a conversa entre Amigos se proporciona, digo sempre que Aquele que caminha a nosso lado realizou o seu primeiro sinal no ambiente festivo de umas bodas e falou do Reino como o convite a um banquete.
Ele conhece as nossas obras, o nosso trabalho, a nossa perseverança; sabe que lutamos por sermos fieis aos nossos compromissos e procuramos cumprir com as nossas obrigações.
Nesta casa do Manuel a amizade, a estética, a gratuidade, o ócio, a festa, o acolhimento, a aceitação fazem a decoração que nos acolhe.
Como visita, ( e peço que me permita a grosseria de um comentário à sua decoração), gosto particularmente da partilha, da gratuidade como fonte de liberdade e do agradecimento que tem sempre como música de fundo da memória.
Também, com a Gerana e a Gláucia, me comovi e me sinto honradíssima por fazer parte de tão ilustre abrigo.
De Silvério Salgueiro a 14 de Outubro de 2009 às 06:40
Muito me honra e surpreende que a minha esporádica e simples participação na caixa de comentários deste blogue justifique que me inclua na lista das pessoas de que a sua vida é feita.
Vou procurar não desiludi-lo , e mantendo esta janela aberta, permita-me que com as minha limitações de escrita venha aqui soprar de vez em quando ligeiras aragens vindas daquela terra que, tomando palavras de um seu poema , cheira por esta época, a a abafado e em que as couves tenras começam a aconchegar caracóis.
De Manuel Anastácio a 14 de Outubro de 2009 às 07:39
A importância de uma pessoa na vida de alguém não decorre do tempo de exposição...

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