Domingo, 21 de Maio de 2006
Herbário I - Oryza sativa

Em cada bago de arroz há uma lágrima.

E sendo a lágrima a mais poética

E lírica das secreções – em princípio, e sem indecências,

Em cada bago de arroz há uma rima em branco

E no prato, uma sentença.

Não há no arroz servido nenhuma indiferença

Ao franco sentimento de quem o come.

Que quem come arroz nota perfeitamente,

Em cada bago, como é concreta

A secreta dor da lama onde nasceu –

O arroz, e eu – nós todos, já agora.

 

Em cada bago de arroz há uma lágrima

Arrancada à casca escura e dura

Dos olhos que se recusam a chorar.

 

Mas é evitado.

Em cada bago de arroz,

Podes escrevê-lo

– Ainda que nem tenha por grande hábito comê-lo –

Em cada bago de arroz há uma lágrima.

Nascida e proibida de germinar.

É por isso que

Em cada bago de arroz há uma lágrima

Por chorar.

 

Mas em cada lágrima que me serves,

Perfumando as horas em que as choras

Com as marcas escuras que se desenham

Em arabescos de tristeza

Na tua face, há sementes

E flores escondidas no seu secreto embrião.

Em cada bago de lágrima

Descascado da casca onde te encerrei,

Eu sei,

Há uma semente

– A única semente –

Capaz de criar raízes no meu corpo

Com a violenta ternura da tua voz.

Porque entre nós,

Podes escrevê-lo

– Ainda que nem tenha tido por grande hábito comê-lo, –

Estará sempre pendente o beijo

Que falta dar. 

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publicado por Manuel Anastácio às 01:24
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