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Sábado, 29 de Agosto de 2009
Bernardo Santareno

O mar de gelo, de Caspar David Friedrich

 

Escrevia eu sobre flores e luxúria, já pensando na obra de Bernardo Santareno, e respondia a Maria Helena ao artigo lembrando, a propósito, que pureza e luxúria não são (ou não deveriam ser?) antagónicas. Vi que a sua citação do profeta Ezequiel bem poderia comungar do espírito que se move insidiosamente entre as personagens trágicas e profundamente religiosas deste autor maior da nossa literatura que agora evoco, 29 anos depois de o absoluto o ter tomado nas suas mãos. Graças às palavras trocadas com a Maria Helena, em decorrência do que aqui foi dito sobre o Senhor Palomar e sobre a sua compartilhada veneração pela obra de António Martinho do Rosário, voltei a pegar na obra de Santareno e, esperando inaugurar um ciclo de artigos dedicados à obra de Santareno, deixei-me, de novo,  afundar nos meandros obscuros daquelas luas sangrentas rasgadas por mastros, como navalhas abertas que se erguem do mais fundo do desejo e das profundezas. Se os loucos profetas bíblicos, de Ezequiel a João Evangelista, cantaram a luxúria da luz da Jerusalém celeste, Bernardo Santareno cantou a luxúria da escuridão de uma Dite despojada de figuras mitológicas. Ao ler as crónicas de "Nos Mares do Fim do Mundo" de que disponho apenas algumas, escolhidas, numa versão incompleta editada por altura da Expo 98, perdi por completo a noção do tempo, engolido pelas palavras rudes que, como facas, me feriam os olhos. Não tinha lido ainda aquela dedicatória que a Maria Helena me enviou e que não conseguiria agora deixar de lado:

«ao Manuel Caetano, a quem chamam Ti' Fausto, que há mais de quarenta anos labuta por bancos da Terra Nova e da Gronelândia; que viu morrer afogado o próprio pai, nestes mares do fim do mundo, e nunca mais pôde esquecer; que tem três filhos como três mastros, já homens, já pescadores daquelas águas onde o dia nunca acaba e o sol brilha no meio da noite.

ao Zé Ramalhete e ao Louvado, que são fortes, valentes, humildes e maravilhosamente simples.

ao Ângelo Mateus e ao Mano Poeira, que ensandeceram no mar.

àquele «Verde» (dezassete ou dezoite anos!) do «Gazela», que uma madrugada se perdeu no oceano e, durante cinco dias e cinco noites, sofreu a agonia de mil mortes, sòzinho no seu Dóri sobre o «Mar Terrible», sendo enfim salvo por milagre de Deus.

à memória do Armando Afonso, que era de Âncora, e do Zé Pinto, que foi contramestre do lugre «D. Dinis», cujos corpos, afogados na flor da ida, dormem no fundo do mar e cujas almas - quem, tripulante de veleiro ou de arrastão, as não ouviu já? - choram nos ventos gelados.

a todos os pescadores bacalhoeiros portugueses,

      que têm o riso claro e feroz,

      que sempre ocultam nos olhos um aceno de morte,

      que todos os dias, naturalmente, fazem milagres de força,

      que, se a pesca adrega de ser boa, cantam e bailam sozinhos, como os meninos e os loucos...

      que são tipos perfeitos da raça.»

Há nesta dedicatória um manifesto, uma intenção cumprida de arrancar momentaneamente das trevas aquelas dores complexas, loucas e infantis de quem enfrenta o absoluto e a inexorabilidade do abismo como quem brinca com o fogo sabendo que nele será consumido. É nos simples e nos loucos que a verdade infernal da alma melhor vem à tona, mesmo, ou especialmente, quando amam. Talvez resida aí a bem-aventurança dos pobres de espírito, mais perto de Deus porque entre o seu corpo constantemente ferido, macerado e estilhaçado pelo crescimento das raízes de um desejo sem peias, e a crueldade divina, nada mais há senão a identificação e processão da força.

 

Há na escrita de Bernardo Santareno, entre as suas personagens de um Portugal datado e circunscrito no tempo, entre acessórios de museu rural e gestos já perdidos, e mesmo entre algumas formas poéticas e discursivas entretanto caídas em desuso, a intemporalidade e universalidade do diálogo tácito e surdo entre Deus e o Homem e da ânsia em pertencer aos dois através da renúncia. Deus é, aqui, a consumação do Desejo, e o Homem, a confirmação da Honra e da Dignidade. Confirmação sempre. A tragédia e a miséria são apenas os escolhos onde a força interior embate, galgando-os como onda que se dissipa em névoa. Enquanto o pano desce rápido.

 

publicado por Manuel Anastácio às 00:00
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1 comentário:
De Maria Helena a 29 de Agosto de 2009 às 05:15
«Nada temas, porque Eu te resgatei, e te chamei pelo teu nome; tu és meu.Visto que és precioso aos meus olhos, que te estimo e te amo, entrego reinos em teu lugar, e nações, em vez da tua pessoa.» Is 43, 1 e 4.

São para ti, hoje, as palavras de Deus que o profeta escreveu, Bernardo Santareno.

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