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Quarta-feira, 26 de Agosto de 2009
De Volta à Caixa de Abelhas, de Kátia Borges

É uma dívida relativamente antiga, esta de falar do livro "De Volta à Caixa de Abelhas" de Kátia Borges, Madame K. E que agora, só em parte, pago. O livro chegou-me às mãos pelas mãos da Gerana que é, também, a autora de um comentário introdutório. Não sei se é, ou não, um prefácio - esse talvez caiba às boas vindas literárias da badana, escritas extraordinariamente por Aleilton Fonseca. Gerana abre o livro com o seu comentário a que chamou "Dentro do peito", e onde relembra, muito a propósito, que recordar vem de cordis, vem do coração. E este livro, sendo um livro de estreia, de uma jovem poeta, traz em si a contradição de carregar consigo, num jovem peito ainda feito de esperança e dúvidas, recordações que se afixam como num álbum onde restam folhas vazias de caixilhos vagos, semelhantes a alvéolos de cera abandonados pelas formas larvares da infância, à espera de serem preenchidos. É um livro de recordações, não é um livro de memórias. A exposição da memória, como o fez Proust, ainda que seja similar ao processo usado por Kátia é a procura do vivido enquanto decurso completo e finito, a partir de um quadro contínuo, sem interrupções, onde tudo se funde, até o contraditório. Katia, porém, utiliza as recordações como unidades discretas a que só um trabalho posterior de reflexão poderá dar total congruência. Nestes poemas, é mais valorizado o vazio que a substância, não por vacuidade do discurso nem por tentação niilista, mas porque o vazio repousa no coração como ânsia de existir, seja evocando imagens do passado, seja projectando o desejo de ver e sentir no futuro. A epígrafe do livro cita, do poema "The Arrival of the Bee Box", de Sylvia Plath, os versos "I wonder if they would forget me / If I just undid the locks and stood back and turned into a tree". Mas, curiosamente, não cita o último e revelador verso desse mesmo poema (The box is only temporary.), bem como não faz referência ao título do poema que inspirou o próprio título da sua obra que, sendo obra inaugural, começa com um regresso, enquanto que o poema de Plath, prenunciador de um fim, fala de uma chegada. O que existe de desespero em Plath, zune de esperança nos poemas de Kátia. No primeiro poema, "O sorriso do gato de Aice", Kátia começa por traçar, em forma de esboço, as linhas principais de uma geografia de ausências reticuladas que se interpõe entre ela e o ouvinte, o leitor. Aleilton Fonseca adverte que em Kátia, a poesia não é confissão. Não é. Mas logo este poema se estende como superfície de fronteira entre a nossa e a realidade de Kátia, como painel em crivo que separa orador e ouvinte. As palavras de Kátia não nos pretendem esclarecer, mas estender sob os nossos olhos uma paisagem a que somos alheios e a que ela mesma se arrancou. São Paulo é evocada como lugar que a ausência transforma em mito pessoal, em explicação íntima onde nem sempre se encontra significado. "São Paulo é o depois do espelho. / São Paulo é o depois do medo / de ser o que eu sempre quis." O gato de Alice, figura esfíngica, é também o monstro que nos remete para as questões essenciais. De onde vimos, para onde vamos. Quem somos. Ao sentir o calor de outras paragem, é no café com licor na Paulista que a sensação do vivido se projecta e modifica, como objecto de desejo e afecto apartado de nós pelo medo de qualquer transformação que nos quebra a integridade. E relembro que nestes poemas, de forma quântica, as recordações são pedaços discretos que, à partida, não se confundem com um plano maior ou um sentido da vida mais ou menos entrevisto. O café na Paulista é servido como uma madalena de Proust que funciona de forma inversa: uma sensação maior, presente, afunila-se no tempo poético e identifica-se com pequenos marcos e imagens que se servem de pontos de referência na paisagem mental do passado e da saudade que nos define enquanto decurso. Esta inversão é, no fundo, a essência da poesia lírica, sempre incompleta e analítica, especialmente quando aspira à suprema síntese da pequena forma poética, como é brilhantemente exposto no poema "Não gosto de acrósticos e dedicatórias" onde acena, a um eu supostamente desavindo com a ternura, com as palavras "Sou poesia. E se pouca, me conformo. / Melhor ser um haicai que uma Ilíada". A poética da ausência pode, contudo, seguir por outros sentidos, e é isso que Kátia faz, logo no seu segundo poema, "Exílio", onde sensações concretas e mínimas, remetem para a saudade de toda uma pátria perdida ou nunca ganha (ao jeito de Camilo Pessanha), e para o desejo de uma História que confira peso aos segundos falhos de uma identidade que exige a luz e o calor que só a consumação de florestas imensas poderia satisfazer.

 

publicado por Manuel Anastácio às 15:59
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2 comentários:
De Gerana a 27 de Agosto de 2009 às 04:21
Que leitura atenta! Ela irá gostar. Por sinal, teve seu segundo livro aprovado nos editais da Fundação Pedro Calmon, estamos felizes por ela. O meu texto realmente não foi prefácio, foi o texto com o qual aprovei seu (dela) primeiro livro, quando eu fazia parte da comissão editorial da Fundação Cultural do Estado, daí chamá-la de afilhada literária.
Sua sensibilidade, MA, não está restrita à sua própria poesia: ampla, ela capta e se expressa.
Ganhe daí um abraço.
De Georgio Rios a 27 de Agosto de 2009 às 16:29
Uma poetisa de sensibilidade inegável e que trás uma carga lírica surpreendente. Não deixa em nada dever o que ela escreve.Está sintonizada com o que há de melhor na poesia.O texto está marravilhoso, trás a verdade contida na leitura atenta do livro.

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