Quinta-feira, 20 de Agosto de 2009
Palomar, ainda

Estava eu a acabar de ler "O Cavaleiro Inexistente", depois de ter lido o "Barão Trepador" ("O Barão nas árvores", no Brasil, onde "Barão Trepador" deverá fazer lembrar um romance pornográfico), tudo do Italo Calvino, e já o Senhor Palomar se recomendava a si mesmo (ou não) pela mão deste mesmo escritor. Feita a recomendação, e já o Helder Beja (pessoa de quem já aqui falei há uma porrada de tempo, por altura do seu primeiro trabalho jornalístico de fundo sobre a Wikipédia, no "Público", e que já foi identificado como sendo o Senhor Palomar - não sei por quem, perdi qualquer coisa pelo caminho), e já o Helder Beja, dizia eu, pretendia empurrar o Senhor para a linha de costa portuguesa. É irrelevante isso. Palomar, do seu posto solitário e insociável, está sempre frente ao mar, mesmo que encerrado entre calhaus. Os fractais que se recortam no perfil de uma onda não são muito diferentes dos que esculpem a superfície de um bloco de granito ou uma falha de xisto. Relevante é ler, sem dúvida, o Palomar de Calvino que, envergando a nova capa da nova edição da Teorema, ainda não chegou a nenhuma das Bertrands do Minho, segundo me informou uma menina em Viana do Castelo onde, em pré Agonia, a cidade se cobria de fumo de incêndios, enquanto eu tentava ler as ondas rasas que amanhã receberão a imagem de uma senhora indiferente à ostentação minhota de fés em filigrana dourada. Pena, que eu queria ser o primeiro a oferecer em jpeg a capa desta edição ao senhor Palomar. Estava eu a pensar nisso, e sobre essas irrelevâncias da silly season que, como reflexos superficiais na água do mar, pouco revelam mas despertam em nós o sorriso que as profundezas apagam, quando descubro, de forma insuspeita e algo, para mim, comprometedora, que a minha querida amiga Maria Helena conhece o Senhor Palomar como eu não conheço nenhum dos meus vizinhos. Ao ler o comentário da Maria Helena ocorreu-me que seria, provavelmente, pouco elegante da minha parte usar o seu comentário, já que revela mais sobre este apocalíptico amante de livros do que as revistas cor-de-rosa revelam sobre a vida sexual do Cristiano Ronaldo. Ocorreu-me que tal caracterização, por parte de fonte tão credível (pelo menos para quem se habituou a ler a minha caixa de comentários) desnuda de tal modo um mito, que melhor seria não lhe tocar. Each man kils the thing he loves (Oscar Wilde, de novo - e não Paulo Coelho, como sustentam alguns) e when the legend becomes fact, print the legend. Há algo de profanatório no comentário da Maria Helena e eu, em vez de me calar e seguir passivamente com olhar as ondas que se esbatem ou mutiplicam consoante a fendas que nelas esbarram, aproveito, qual abutre de jornal, a carne tenra da intimidade exposta, não sabendo até que ponto sou indiscreto ou, sabendo-o, ouso avançar com outra fenda multiplicadora do fenómeno ondulatório que é a palavra que desnuda. Fico a saber, pela Maria Helena, que Palomar é "educado, sensível, subtil, divertido, inteligente", capaz de fazer rir as muheres... (ai as reticências...) Mas, apesar (!) - o ponto de exclamação é meu, bem como o "apesar" - do seu charme, é fiel à Senhora Palomar. Isto, não obstante os livros com que trai a sede insaciável de atenção da esposa. É generoso, atento, humilde e, pormenor objectivo... irá (esperemos nós) tornar a trazer à luz do dia a obra de Bernardo Santareno. Se isso alegra a Maria Helena, a mim, menos não faz . Bernardo Santareno é um autor que deveras importa no meu caminho. Quase que protagonizei, como actor,  o "Vida Breve em Três Fotografias" quando andava por Santarém. A isso voltarei. Obrigado antecipado ao Senhor Palomar, abençoado seja.

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publicado por Manuel Anastácio às 20:00
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7 comentários:
De Maria Helena a 20 de Agosto de 2009 às 05:01
Manuel, depois de ler este seu posto fico envergonhada e preocupada.
A última coisa que eu desejava ao fazer o comentário no post anterior era expôr o Senhor Palomar a olhares estranhos "já que revela mais sobre este apocalíptico amante de livros do que as revistas cor-de-rosa revelam sobre a vida sexual do Cristiano Ronaldo.", ou mesmo profanar o referido Senhor.
Conheço o Senhor Palomar tanto como a si, isto é, através internet.
A sério. Estou envergonhada e preocupada.
De Manuel Anastácio a 20 de Agosto de 2009 às 20:08
Depois deste comentário já apaguei este post e agora volto a colocá-lo. Espero que se entenda que a profanação da Maria Helena à intimidade do Senhor Palomar é apenas irónica, e tanto eu como ela muito prezamos as qualidades deste nosso ilustre blogger.
De Gerana a 21 de Agosto de 2009 às 22:30
Estou gostando da história!
Maria Helena: oi, faz tempo que não trocamos umas palavras. Bj.
MA: Palomar é um bom livro, mas Um viajante numa noite de inverno, ou Um general na biblioteca foram leituras melhores. Os contos de Os amores difíceis também são de primeira. Tenho 21 livros de Calvino, lidos. tive meu momento Calvino, vc já me conhece.
Aqui, as Seis propostas para o próximo milênio continuam como uma Bíblia; todo mundo cita alguma coisa dali.
O barão trepador iria vender feito água se chegasse às livrarias. Imagine o sucesso. Me acabei de rir. Trepar é uma palavra feia, melhor dizendo, é grosseira. Não aguento, estou rindo muito. Afora os risos, O Barão nas árvores é um título bonito, né não? pode dizer: eh.
De Manuel Anastácio a 22 de Agosto de 2009 às 00:54
Eh mesmo.
De Maria Helena a 23 de Agosto de 2009 às 22:04
Gerana, outro beijo para si :-))))
De José a 25 de Agosto de 2009 às 18:37
Em um de seus posts você falta que xxx não conhecia muito sobre os Testemunhas de Jeová.
Então, fiquei curioso: você é testemunha de Jeová?
De Manuel Anastácio a 26 de Agosto de 2009 às 07:37
Não vejo qualquer relação entre o meu livre e dubitativo pensamento (e prática) a nível religioso e as doutrinas das Testemunhas de Jeová. Aliás, creio que o José também nada sabe sobre Testemunhas de Jeová, caso contrário não perguntaria tal coisa.

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