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Terça-feira, 21 de Julho de 2009
A caverna

Marcha Triunfal da Aida, de Verdi. Lorin Maazel. Teatro Alla Scala de Milão.

 

Quando a televisão ainda só existia em Carvalhal e arredores num só lugar público de que não sei o nome (talvez no café da Portela, onde o Silvério Salgueiro viu o homem a descer à lua), porque não é do meu tempo, as pessoas do povo juntavam-se, após os dias de trabalho na lavoura ou na madeira (os grossos troncos de pinho carregados pelas mulheres à cabeça, sob uma rodilha de trapos entrançados revestidos de resina que era arrancada das mãos com a ajuda de petróleo) para ver as telenovelas brasileiras. Se "Gabriela" foi a primeira novela da televisão portuguesa, o grande marco no imaginário popular foi, sem dúvida, a "Escrava Isaura". Não é do meu tempo. Ainda vi uns capítulos esparsos de uma reposição feita à tarde e de outros de um remake mais recente. Tudo muito narrativa do século XIX com uma certa pimenta operática. Havia a escravatura, claro. E o povo sentia como suas as agruras dos negros presos ao tronco. As mulheres choravam baba e ranho e gritavam de dor a cada chicotada. Quando duas (creio que eram duas) personagens conhecidas pela sua bondade morrem num incêndio desencadeado pelos maus, ouço dizer que nada conseguia fazer parar as mulheres de chorar de desespero, enquanto os homens, não menos afectados no seu imo-senso de dureza masculina, puxavam dos lenços de mão e carpiam silenciosamente a morte trágica compartilhada frente à caixa de fantasmas que, por alguma técnica mágica e improvável lhes fazia chegar sofrimentos condensados e afins aos seus. As personagens não sofriam mais que eles, mas sofriam de langorosa forma nos minutos de cada emissão e mantinham-se em agonia até ao próximo episódio, num tipo de purgatório que ninguém entendia bem e que não é mais que o tempo da ópera, distentido ou encurtado de acordo com a vontade de um narrador difuso, como acontece sempre em qualquer obra de arte colectiva. Claro que, após as passas do Algarve, sempre havia um final feliz para aqueles que, entretanto, não tinham morrido atrozmente nas mãos dos verdugos esclavagistas. E isso, se foi bom para todos, que finalmente puxaram dos lenços para enxugar os olhos e um glauco pingo de felicidade que as mucosas do nariz segregavam, enfim libertas de opressão, trouxe consigo a maior decepeção de algumas daquelas vidas. Uma senhora, de que já não me lembro o nome, depois de ver o último episódio da Escrava e, começando a ver a telenovela que se seguiu, não gostou do que viu. Aqueles que tinham morrido entre as chamas estavam agora ali, com outras vestes, outros nomes e, por vezes, até com diferentes modos ou no lado contrário da barricada que divide os maus dos bons. A senhora prometeu (e, tanto quanto sei, cumpriu) jamais voltar a prestar a mínima das atenções àquela fantochada de sofrimentos postiços. Dura consigo mesma, negou a si mesma o prazer de sofrer o que sofrem os outros por interpostas e fantasmáticas pessoas. Passou a servir-se apenas da sua prória dor. Para si guardada, em si fechada, jamais transmitida na televisão. Fica aqui, contada agora ao mundo inteiro de uma só vez, o testemunho do seu voto de não se fixar, jamais, nas sombras ao fundo da caverna.

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publicado por Manuel Anastácio às 17:00
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4 comentários:
De b a 21 de Julho de 2009 às 19:46
Sábia senhora.
Embora pareça incoerente - nada mais seguro do que estarmos em nossa própria e pessoal caverna.
Nossas entranhas constróem histórias tão ou mais interessantes do que as da tela de tv.
Tv deveria ser encarada como entretenimento e nada mais .
Porém, é a grande formadora de opinião e pior - a grande catarse.
Sustentando-se das mentiras, as da tela e das nossas conosco mesmos.
Se cada um tivesse a coragem dessa senhora, a vida seria mais rica em substância e expressão.
Empobrecemos-nos todos com os progressos adquiridos. Obrigada.
De glaucia lemos a 22 de Julho de 2009 às 01:00
Ouvir AIDA de Giuseppe Verdi é um privilégio, um presente para a sensibilidade. Lembra-me minha infância quando minha avó, que era professora de piano, levava os netos a concertos e a recitais de coral.
De Gerana a 22 de Julho de 2009 às 03:30
Bem faço eu que não assisto novela, não sei sequer os nomes das novelas que estão passando. Daí leio.
De Silvério Salgueiro a 24 de Julho de 2009 às 08:32
A senhora percebeu que assistir aquilo era uma forma de vergar e para vergar bastava-lhe a pressão diária dos “seus troncos”. Percebeu que, mesmo desmaquilhando com petróleo os traços de pez da sua personagem real, não lhe mudariam os modos, não lhe mudariam as vestes, não lhe mudariam o nome e que mesmo não lhe mudando o nome o autor deste post esquecê-lo-ia , mas em contrapartida deixa-lhe aqui para o mundo ler, uma bela homenagem.

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