Sexta-feira, 17 de Julho de 2009
Enciclopédia Íntima: Categorias

"Click, Click, Click, Click", dos Bishop Allen. Ontem, no Palácio Vila Flor, em Guimarães, para um público escasso (ai se fosse um jogo do Vitória...) e com meia dúzia de infiltrados sem categoria.

 

Foi já em 2006 ou coisa que o valha, em Israel. Várias meninas de corpinho perfeito e olhos de anjo eram entrevistadas para que dissessem que eram a favor da Paz Mundial e, já agora, que eram vegetarianas. Uma das meninas disse, provavelmente influenciada por alguém que conhece os tiques do meio, que o era. Vegetariana. A entrevistadora perguntou-lhe, mais coisa menos coisa, e cheia de graça, que, provavelmente, ela sentia-se comovida ao olhar para os olhos meigos de uma vaca (e não há aqui qualquer ironia: não há olhar mais meigo que o de uma vaca) e, por isso, seria incapaz de comer um bife. A menina assentiu. Jamais tocaria num bife. E então, se não comia bifes, comia o quê? A menina respondeu: frango. Ah, então não és vegetariana, concluiu a entrevistadora fazendo um perfeito raciocínio lógico, se partindo da sua categorização dos seres. A menina disse que não, que era vegetariana sim, jamais comeria o quer que fosse que viesse do corpinho de um animal. A entrevistadora, boquiaberta, arriscando-se a comer um mosquito, perguntou-lhe qual a diferença entre uma galinha e uma vaca. A menina, cheia da sua sabedoria biológica, respondeu, fazendo um ar de desconsolo perante a estupidez dos outros, que uma galinha era uma ave (talvez tenha dito pássaro, não sei, não sei falar hebreu e se todos os tradutores forem como eu, muita coisa se perde ou acrescenta no processo) e que uma vaca era um animal. Claro que a frase, bombástica, caiu sobre israel de várias formas. Houve quem dissesse que era um belo sinal da degenerescência judia. Um petisco para antissemitas, esses que dizem que um judeu é um judeu e um homem é um homem, o que está bem em qualquer categorização, mas que, implicando algumas deturpações de ordem lógica e a intromissão de pressupostos discutíveis, para não dizer inaceitáveis, legitima a estupidez em regime político capaz de ensombrecer todo um século.

 

A estupidez é, contudo, e essencialmente, um problema de categorização. De taxonomia ética, moral, mas também científica. Quem nega as categorias da Ciência procura as suas próprias categorias. E se lhe der jeito que as aves constituam um Reino biológico próprio, inventa-se o novo Reino. Há quem julgue que, na educação, hoje em dia, com toda a catrafada de informação que existe, não é preciso que as crianças conheçam pormenores sobre as diferenças entre um inseto e uma aranha ou entre o traje de um nobre romano ou o hábito de um frade mendicante. Acredita-se que basta ensinar a aprender (como se isso não se fizesse de uma só maneira: aprendendo). Acredita-se que basta educar civicamente, para não termos terroristas e bombistas suicidas no futuro. Eu acredito, contudo, que isso só se consegue centrando o ensino, não no aluno (ai o que eu fui dizer) mas no conhecimento e, em primeiro lugar, na categorização das coisas. É preciso dizer: isto, em primeiro lugar, é um homem: seja ele israelita, palestiniano, negro, amarelo, cor-de-rosa, mendigo, ladrão, empresário, santo, herói, passador de droga... E, depois, ir baixando às categorias menores sem deixar de passar pelas que suscitam dúvidas na sua menoridade, onde deve reinar a tolerância no julgamento. Eu acredito, também, que toda a gente devia esclarecer, bem, qual a categorização que rege o seu pensamento. Se um político falar dos portugueses, deve esclarecer bem quem são, a seu ver, os portugueses. Hoje, contudo, os estúpidos grassam na política, não porque digam coisas erradas, mas porque partem de categorias erradas. Entre eles e a modelo pseudovegetariana há apenas a diferença de que, ao contrário desta, estes não definem (porque no fundo, sabem a estupidez em que assenta o seu edifício moral) as categorias com que escrevem os seus interesses.

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publicado por Manuel Anastácio às 17:09
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1 comentário:
De Anabela Lopes a 18 de Julho de 2009 às 10:24
Fiquei completamente estarrecida com essa da modelo "vegetariana"... mas já devia estar habituada, afinal conheço quem esteja a acabar o mesmo curso que eu e tenha afirmado em frente a um professor de Geologia, não há muitos dias, que "na colisão de 2 continentes - relativamente à deriva de placas - forma-se um rift"!!!
:P

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