Quinta-feira, 16 de Julho de 2009
A Noite Escura da Alma, de São João da Cruz

The Dark Night of the Soul, de Loreena McKennitt, segundo sugestão da Canduxa, autora do nome mais poético que já vi para um blogue.

 

Numa noite escura

Em ânsias, de amores, inflamada,

Ó ditosa ventura!

Saí sem ser notada,

Estando já a minha casa sossegada.

Às escuras, mas segura,

Pela secreta escada, disfarçada,

Ó ditosa ventura!

Às escuras e velada,

Estando já a minha casa sossegada.

Na noite ditosa

em que em segredo, ninguém me via,

Nem eu via outra coisa

Sem outra luz ou outro guia

Senão aquela em que meu coração ardia.

Esta me guiava

Mais clara, a luz, que ao meio dia,

Até onde me esperava

Quem eu bem me conhecia,

Em parte onde ninguém aparecia.

Ó noite que me guiaste!

Ó noite mais amável que a alvorada!

Ó noite que juntaste

O amado à sua amada,

Sendo a amada em amado transformada!

No meu peito florido

Que inteiro para ele se guardava

Ali caiu adormecido

E ali o embalava

Com a brisa que os cedros levantava.

O vento das ameias,

Enquanto os cabelos lhe esparzia,

Com a sua mão serena

Contra meu colo me feria

E todos meus sentidos suspendia.

Desfaleci, abandonei-me

Com o rosto reclinado sobre o Amado,

Tudo acabou e deixei-me,

Negando-me a qualquer cuidado,

Entre as brancas açucenas olvidado.

 

(versão de Manuel Anastácio)

 

Nota: a minha versão não é, provavelmente, muito fiel ao original, até porque mantive algumas eventuais falhas de tradução porque, ainda assim, as considero mais próximas do sentimento expresso pelo autor, tendo em conta a tensão entre as palavras e o indizível. Há, aliás, um verso que, provavelmente mal traduzido, e de má construção frásica, é aquele que prefiro. É como um poema de amor adolescente - ora, não há poemas mais mal escritos que os lindos poemas de amor dos adolescentes. E não há noite mais escura que a adolescência - nem mesmo a senectude.

publicado por Manuel Anastácio às 20:26
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2 comentários:
De Gerana a 18 de Julho de 2009 às 03:01
Linda a versão.
Só à guisa de lembrança, uma coisa puxando a outra, ou melhor, palavras que puxam palavras.

Ninguém abra a sua porta
para ver que aconteceu:
saímos de braço dado
a noite escura e mais eu.
Cecília Meireles

Maravilha pura!
De Zélia Diana a 4 de Março de 2010 às 06:13
O interessante da arte é que cada um a vê com um olhar diferente, e a interpreta também diferente. Mas sinto-me obrigada a esclarecer: É um poeta místico da Igreja Católica escrito por São João da Cruz por volta de 1570. A Amada que foge é qualquer cristão que se arrisca a seguir O Amado (Cristo) pela noite escura (a cruz) até que ele adormeça (morra) em lugar onde ninguém vai (as lutas da vida), preferindo adormecer (a morada sossegada). Mais informações no google.

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