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Terça-feira, 14 de Julho de 2009
Hoje, podia ter morrido assim

Final da tetralogia de Der Ring des Nibelungen, Bayreuth 1976. Gwyneth Jones como Brünnhilde, Fritz Hübner como Hagen. Direcção de Pierre Boulez

 

 

Existem bombas inteligentes? Existem, com certeza. Aquelas que servem para puxar água das profundezas para a superficial secura. Se há expressão mais copiada na blogosfera portuguesa, é a do "Eu hoje acordei assim", um perfeito pretexto para fazer um post com uma qualquer citação, incluindo as visuais, que demonstram como somos de verdade e não como o espelho nos devolve, sem grande trabalho de escrita. Eu não. Acordo todos os dias com a mesma cara de quem quer continuar a dormir e é assim que continuarei a acordar até que adormeça definitivamente. E penso que, mais importante que a forma como acordamos, será a forma como morremos. Não poderemos morrer todos de um suicídio heróico como o de Clint Eastwood no "Gran Torino" (aviso atrasado: este artigo contém spoilers) nem tão poeticamente trágico como o da Tosca (se o encenador não se lembrar de pôr um trampolim a amparar a queda da suicida que voltará, qual anjo saltitante, de novo à cena como já aconteceu num dos anedóticos e míticos momentos da história da ópera com uma diva qualquer que não sei agora identificar). Mas podemos morrer todos como deuses. Eu hoje, se pudesse - e se tivesse de ser, entenda-se, que sou daqueles que quer usufruir de cada momento de sofrimento até ao fim1 - morria assim2.

 

1. E entenda-se como fim, o limite a partir do qual o sofrimento já não é sustentável. E entenda-se que ninguém deve impor esse limite a ninguém.

2. Como a Brünnhilde, claro. às vezes esqueço-me de que há leitores que apenas me lêem e não têm paciência para ver os vídeos que escolho. E vice-versa. E, ainda, aqueles que nem uma coisa nem outra - são os leitores-meteoro. Os mais frequentes. Fugazes, por vezes deixam um rasto de luz que rapidamente se desvanece em sonhos e em desejos sem promessa. Se por acaso olharmos para eles quando passam pela atmosfera.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 15:24
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10 comentários:
De teresa a 14 de Julho de 2009 às 18:56
Há tempos, quando um amigo blogosférico (http://www.blogger.com/profile/00381841591299117606)me induziu a conhecer estas óperas fiquei um tanto assustada com este final. Depois obcecada. E finalmente percebi que, pelo menos para mim, ele significava a libertação do sofrimento, da fonte de todo o sofrimento. Mas para lá chegar talvez seja mesmo necessário ir até ao limite. Depois de o passar, a morte, (em sentido figurado, pelo menos) só pode dar lugar a um renascimento.

(Eu sou uma leitora apressada e por isso silenciosa. Seria mais se não fosse esta vidinha doida de nunca ter tempo)
De Manuel Anastácio a 14 de Julho de 2009 às 20:16
É uma boa questão essa, do valor poético e do significado moral das mortes operáticas...

Dava um bom post, se tivesse tempo para o escrever.
De Paulo a 14 de Julho de 2009 às 20:42
É curioso, Teresa. Inicialmente também tudo me era muito estranho: a música, a temática, as vozes colocadas de um modo que me parecia sobre-humano, quando comparadas com as que ouvia cantando a música de outros compositores. Um momento decisivo da minha "aprendizagem" foi o concerto na Aula Magna em que esta senhora cantou esta morte.

Dizer que nunca mais ouvi a música de Wagner da mesma maneira será pouco. Esta morte foi de tal modo arrebatadora que ainda hoje a consigo ouvir dentro da minha cabeça.

P.S. Como alguém comentou aí em baixo, sente-se por aqui uma certa melancolia. Há dias assim.
De Gerana a 15 de Julho de 2009 às 02:54
Sabe que estou ficando preocupada com meu e-amigo oceânico?
De Manuel Anastácio a 15 de Julho de 2009 às 07:44
E por que razão, Gerana? Eu mesmo ainda não entendi a apreensão ao meu estado melancólico. A melancolia pode também ser uma forma de felicidade.
De Gerana a 15 de Julho de 2009 às 15:53
Que nada! O tempo é curto e passa depressa e a melancolia não é uma tristeza leve, é como o fogo baixo que destrói sem alardes.
Nós, de língua portuguesa, temos a tendência para a melancolia. O que vc acha que é o grande Carnaval dos brasileiros, senão uma escapatória, um jeito para espantar a melancolia? Pelo menos pra isso, o tal "jeitinho brasileiro" serve.
Vamos espantá-la!
Vai haver um congresso de literatura portuguesa. Como estão suas possibilidades de fazer uma palestra sobre o tema?
De Manuel Anastácio a 15 de Julho de 2009 às 18:06
Onde o Congresso? Quando?
De Maria Helena a 15 de Julho de 2009 às 20:02
Querem ver que é desta que vou ao Brasil?
De Manuel Anastácio a 16 de Julho de 2009 às 00:59
Não me parece...
De Gerana a 16 de Julho de 2009 às 03:06
E era mesmo. Ponto para Maria Helena.

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