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Sábado, 6 de Junho de 2009
Livro da Sabedoria IX - ou a identidade da Razão com o Espírito Santo

Nulla in Mundo Pax Sincera, de Antonio Vivaldi. Jane Edwards, soprano; Geoffrey Lancaster, cravo; Gerald Keuneman, violoncelo; arranjo de Edwards / David Hirschfelder. Vídeo inspirado nas esculturas luminosas de Julian Opie.

 

Deus dos nossos pais e Senhor de Misericórdia que tudo criaste através da Tua Palavra! Formaste o Homem para que, com a Tua sabedoria, fosse senhor das Tuas criaturas, para governar o mundo com santidade e justiça, e exercer o julgamento com rectidão de alma. Faz-me chegar a Sabedoria, ao Teu lado entronizada, e não me excluas da dignidade de ser Teu filho.

 

Teu escravo, filho da Tua escrava, homem fraco e efémero, sou incapaz de compreender e aplicar a Tua justiça. Mesmo o mais perfeito dos homens, sem a Sabedoria que de Ti provém, nada seria.  Fui escolhido por Ti para que governasse o Teu povo e julgasse os Teus filhos e as Tuas filhas. Mandaste-me construir um templo sobre o monte que santificaste, um altar na cidade em que acampaste, à imagem da habitação que preparaste desde o início. Ao Teu lado, a sabedoria conhece as Tuas obras e testemunhou a criação. Sabe o que agrada aos Teus olhos e o que e conforma aos teus mandamentos.

 

Recomenda-me, do teu trono de glória nos céus santificados com a Tua presença, à Sabedoria, para que me guie nos meus trabalhos e me ensine o que Te agrada. Ela tudo sabe, tudo compreende. Guiar-me-á em prudência nas minhas acções e proteger-me-á na luz da sua glória. Ser-Te-ão agradáveis, então, as minhas obras, o governo do Teu povo será justo e serei digno do trono de meu pai.

 

Quem conhecerá a vontade de Deus? Quem imaginará o seu desejo? Os pensamentos dos mortais são mesquinhos e o nosso raciocínio falha, porque a corrupção do corpo tem peso sobre a alma e a morada terrestre oprime com as suas preocupações o espírito e as idéias. A custo conheceremos o que está na terra, a custo chegamos ao que está ao alcance das nossas mãos. Mas quem descortinará o que aos nossos olhos o céu oculta? Quem compreenderá os teus planos, se não lhe deres, antes, a sabedoria que envias do alto com o teu espírito santo? Só assim se tornam rectos os caminhos de quem vive sobre a terra. Só assim aprenderam os homens o que te agrada. Salvos por meio da tua sabedoria".

 

Em comentário ao meu comentário à minha versão do capítulo III do Primeiro Livro dos Reis, a Maria Helena citou o capítulo IX do Livro da Sabedoria, atribuído, segundo a tradição, a Salomão, correspondendo, de certa forma, ao seu pedido de sabedoria referido na passagem bíblica anterior e ao seu correspondente elogio. Tal como a Maria Helena, concordo com o facto de o Antigo (e o Novo) Testamento constituírem peças fundamentais para compreendermos a forma como compreendemos o Mundo. Eu não tenho, pessoalmente, fé numa providência divina, mas acredito (logo, tenho fé) que a sabedoria é transcendente ao homem, é independente dos seus interesses passageiros e individuais, e que só é sabedoria se se identificar com a bondade, com o Amor, com a tolerância e com a justiça. Podemos considerar que Deus é isso apenas (e já seria tanto) ou ser mais, e ter uma existência pessoal (o que, na minha concepção, porventura limitada, apenas o limitaria, logo, o mais seria menos). Mas há um fundo comum onde até os ateus ocidentais deveriam estar de acordo. Diria mesmo que, nos tempos que correm, vejo mais esta capacidade para receber a sabedoria que vem do alto entre muitos daqueles que não acreditam de forma confessa em Deus do que em muitos cujos olhos ficam raiados de ódio sempre que alguém diz que é ateu ou agnóstico. Tais crentes, na minha humilde opinião não confessional, estão muito afastados deste Deus entronizado ao lado da Razão e não são dignos de entrar no número dos seus filhos. Tais crentes julgam que acreditar numa só sabedoria, que desconhece a dúvida e o relativismo, é partilhar da luz que emana do lado direito de Deus. Ao ler este capítulo confirmo que o caminho da dúvida e da tolerância é o caminho recto e o caminho da justiça. Este texto esclarece que a sabedoria de Deus não está consagrada nas leis nem nos mandamentos, mas que só a iluminação por parte da sabedoria transcendente poderá dar sentido às leis e aos mandamentos. Quem segue os textos sagrados na sua literalidade ou através de interpretações dogmáticas quer fixar a sabedoria num suporte legível como um catecismo. Mas neste texto leio que nada será compreendido sem que a sabedoria ilumine directamente aquele que quer compreender. Sendo Deus Amor, não duvido, tenho fé, de que essa luz que envolve a razão traz sempre consigo um sorriso de apoio ou uma lágrima de compaixão e nunca, nunca, a presunção dos moralismos que se querem aplicar, indistintamente, aos outros.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 17:27
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3 comentários:
De Maria Helena a 6 de Junho de 2009 às 21:15
O livro da Sabedoria começa com uma alusão aos governantes (Sab. 1 e Sab. 9, 8:12), referindo-se ao rei que ía governar o país. Por isso se atribui a Salomão.
Ora, atentando o estilo literário, concluiu-se que o autor não foi Salomão.
O autor é de origem judaica mas de língua grega, nascido e educado fora da Palestina. Como faz referência ao Nilo, situamos a redacção na Alexandria. A linguagem filosófica utilizada para falar de Deus e do comportamento humano (Sab. 8,7) mostra o interesse do autor pelo pensamento grego, como forma de expressar o conteúdo da fé hebraica. Dirige-se a judeus que viviam no Egipto, especialmente em Alexandria, pretendendo ajudar a viver a fé num país longe do seu. O relato em grego (língua internacional do tempo) abre o livro à cultura universal.
Recebeu o apoio dos hebreus alexandrinos, que o viram como livro sagrado, mas os judeus da Palestina não o consideraram como tal. No séc. I foi retirado do cânon judeu, mas as igrejas católica e ortoxa adoptaram-no (os protestantes não).
Foi o último livro escrito antes de Jesus. É um dos livros Sapenciais.
O fio condutor do livro da Sabedoria é a Justiça.
De Anónimo a 25 de Agosto de 2009 às 18:20
Que religião tu professas, Manuel? (a que igreja pertences, se é não és apenas um livre pensador...)
De Manuel Anastácio a 26 de Agosto de 2009 às 07:38
Não vejo qualquer razão para me prender às ideias mal formuladas por outros. A minha Igreja chama-se "Dúvida".

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