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Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
Primeiro Livro dos Reis III - ou a definição da Justiça

Julgamento de Salomão. Igreja dos Peregrinos de Frauenberg na Estíria, Áustria, fresco do tecto da reitoria. Autor desconhecido. Século XVII.

 

Salomão, ao casar-se com a filha do Faraó do Egipto, tornou-se seu genro e levou-a para a Cidade de David, onde estava a construir o seu palácio, o Templo de Jeová e as muralhas de Jerusalém. Nesse tempo, o povo oferecia sacrifícios nos lugares mais altos, já que ainda não tinha sido contruído o Templo em honra do nome de Jeová. Salomão, fiel aos preceitos de seu pai, amava Jeová e oferecia-Lhe sacrifícios e incenso nos lugares mais altos.

 

Sendo rei, foi a Gabaon, de todos os lugares altos, o mais importante de todos, para oferecer sacrifícios. Foram mil os sacrifícios oferecidos por Salomão nesse lugar.  E foi em Gabaon, em hora nocturna, que Jeová apareceu em sonhos a Salomão. E Deus disse-lhe: "Pede. Diz-Me o que queres". Salomão respondeu: "Demonstraste grande afeição pelo teu escravo de nome David, meu pai, porque, sob o Teu olhar, caminhou fiel, justo e recto no seu coração de acordo com a tua vontade. Em resposta a tal sinceridade, deste-lhe este filho, que agora está sentado no mesmo trono. Foste tu, Jeová, meu Deus, que fizeste rei este Teu escravo, no lugar de David, meu pai. Sou muito jovem e não sei como governar. Teu escravo, vejo-me entre o povo que escolheste, numeroso e incalculável, de tal modo é esmagora a sua dimensão. Peço que me ensines a ouvir, para que saiba governar o povo que é Teu, e para que saiba distinguir o bem do mal. Caso contrário, como poderá alguém governar tantas almas?". Ficou o Senhor satisfeito com tal pedido. E disse-lhe: "Pediste isso. Não pediste para viver mais, nem para ter mais, nem a morte de quem se te opusesse. Apenas pediste discernimento para ouvir e, assim, julgar em sabedoria. E ser-te-á concedido. Dar-te-ei uma mente plena de sabedoria e perfeição no raciocínio, tal como nunca ninguém teve antes de ti ou terá depois. Dou-te também o que não pediste: riqueza e glória inigualáveis entre todos os reis que alguma vez contigo se quiserem comparar, para toda a tua vida. E, dependente da observação que fizeres dos meus mandamentos e estatutos, tal como fez David, teu pai, conceder-te-ei a longevidade que não pediste". Salomão, acordando, apercebeu-se de que tinha sido um sonho. Seguiu para Jerusalém e postou-se diante da arca de Jeová. E ofereceu holocaustos, sacrifícios de comunhão e um banquete para todos os que o acompanhavam.

 

Duas prostitutas comparecerem diante do rei e disseram quem eram. Uma destas mulheres disse: "Meu senhor, tanto eu como esta que me acompanha moramos na mesma casa. Tive um filho. Três dias depois de ter dado à luz, também ela teve uma criança. Ninguém mais vive connosco. Estávamos sozinhas em casa. Algumas noites atrás, enquanto dormia, esta que me acompanha virou-se sobre o filho e sufocou-o até à morte. Apercebendo-se do que tinha feito, levantou-se, ainda noite dentro, pegou no meu filho e pô-lo a seu lado enquanto juntava o seu filho morto junto ao meu corpo. Ao acordar de manhã, querendo amamentar o meu filho, vi que estava morto. Olhando bem, contudo, vi que não era o filho que tinha dado à luz". A outra mulher, contudo, replicou: "É mentira! O meu filho vive. O que morreu foi o dela". Ao que a primeira contestou: "Não é verdade, o teu filho está morto, o meu está vivo", e entraram em altercação perante o rei. E o rei interrompeu-as: "Uma diz: 'o meu filho está vivo e o teu está morto' e a outra diz 'Mentira! o teu filho está morto e o meu está vivo'". E ordenou: "Tragam-me uma espada!". E trouxeram-lha. E o rei disse: "Cortai a criança em duas e dai metade a cada uma." A mãe da criança viva sentiu as entranhas a contorcerem-se de dor imediata e suplicou: "Meu senhor, dá a esta o menino inteiro e são, mas não o mates!". A outra, porém, foi clara dizendo "Não há-de ser teu nem meu. Dividam-no".  Ao que o rei sentenciou: "Dai a criança, viva, à primeira mulher. Não o mateis. É ela a sua mãe". E Israel soube deste julgamento. E Israel respeitou-o, pois viu que a sabedoria divina comandava a sua justiça.

Hoje, os reis (sejam monárquicos ou republicanos, perdoa-me lá, Luís Bonifácio, mas para mim venha o Diabo e escolha) não têm concentrado em si o poder judicial. Será bom, com certeza, que a justiça pertença às tábuas da mesma e não à mente de quem julga. Mas, quer queiramos quer não, passados cinco mil anos (só???), continuamos a precisar de alguém que, pensando como ser humano, cumpra as leis que por que os seres humanos anseiam. Em vez disso, temos tábuas insensíveis e meros executantes de algoritmos. A sabedoria matemática, porém, não resulta da simples aplicação das leis. Porém, não confiamos em ninguém. Todos são corruptos. Todos têm um preço. Todos se vendem. Todos têm mais que fazer que ouvir. Nem se pede que pensem muito. Apenas se pede que ouçam. Note-se no que Salomão pediu em primeiro lugar: discernimento para ouvir. Não pediu discernimento para julgar. Para ouvir. Ouvir. Eu sei que custa ouvir. Eu sei. Cortam-se-me as entranhas quando ouço alguns dos meus alunos, na sua infantil e manipulativa maldade, a tentarem convencer as minhas entranhas a responderem à afeição que não me dedicam. Custa ouvir. Por vezes é preciso ignorar o que se ouve, mas tal só se deve fazer depois de ouvir. Hoje, vejo-me entre um povo que diz hossana a um rei que não ouve, que foge pelas traseiras, que brande a espada da insensibilidade sobre as cabeças de quem se atreve a dizer que o que ele diz é mentira. O Shark dizia há dias que precisamos de um Salomão. Eu preciso apenas de alguém que ouça. E depois julgue, governe, faça. Mas ouça.

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publicado por Manuel Anastácio às 00:01
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3 comentários:
De Maria Helena a 5 de Junho de 2009 às 16:31
Com calma voltarei para fazer um comentário mais cuidado mas, de facto, o que gosto mesmo não é de alguém que me ouça, mas que me escute.
Um beijo.
De Maria Helena a 5 de Junho de 2009 às 22:25
Como se percebe no texto que citou, Manuel, a Justiça e a Fé caminham lado a lado, isto é, o sábio observa, escuta, compreende e contempla a partir do projecto divino. Homem justo é aquele que usa a sabedoria que vem de Deus e por isso sabe governar o seu povo (Sab. 9); o sábio tem necessidade de grandes doses de humanidade para e porque, apercebendo-se das diferenças temperamentais, promova a harmonia. Aliás, se for ler o livro da Sabedoria (que não foi escrito por Salomão, como sabe)dos capítulos 1 a 5 a relação intíma da sabedoria com a justiça está lá e se for a Prov. 8 leia os argumentos da sabedoria...
A Justiça tem patamares de significação diversos, também, no AT: dar a cada um o que lhe corresponde defendendo a causa do oprimido; compreensão da justiça de Deus-bondade, fidelidade, rectidão; força ou acção de Deus que nos salva ou nos liberta do mal.
Sabe o que lhe digo? Que se lê muito pouco e menos ainda o AT com o argumento de que se é ateu, quando o Livro é uma questão cultural, pelomenos.
Se a magistratura e os nossos governantes não sofressem de auto suficiência crónica leriam o Levítico e pediriam Sabedoria para governar...
A relação profundamente íntima entre sabedoria e justiça fascina-me de tal modo que não existe uma semana em que não leia, demorada, pausada e humildemente o livro da Sabedoria, 9.
Um fim de semana que o ajude a retemperar forças e alegria.
De shark a 9 de Junho de 2009 às 12:35
Ai o gajo disse isso? Esse Shark tem umas mandíbulas muito irrequietas...
:)

(Abraço, MA, e bons feriados!)

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