Segunda-feira, 25 de Maio de 2009
Escrever é evitar flores de lótus nos pulmões da alma, e quem disser o contrário é porque não percebeu nada do que eu queria dizer...

Excerto de "The Mission", de Roland Joffé.

 

A Gerana falava, à dias, da falta de assunto na literatura. A mim não me faltam assuntos. Ponham-me à frente um computador (tem de ser um computador, essa maravilhosa máquina de apagar, como diria o José Cardoso Pires) e horas sem mais nada para fazer e terei sempre algo para escrever. Se não for da minha lavra, que seja um artigo da Wikipédia, uma tradução rasca de um artigo científico, um poema a murro, uma reinvenção de poemas antigos que agora me cheiram a ranço. Eu nasci para realizar filmes, não foi para escrever. Nasci para ganhar a Palma de Ouro de Cannes (a principal, não estou a falar de coisas menores como sejam curtas metragens). Mas quase ninguém nasceu para fazer aquilo para que nasceu e eu sou um desses. Por isso, na falta de melhor, na falta de uma equipa técnica, de montes de celulóide, de uma grua e de equipamento decente de montagem e captação de som, um computador serve-me bem para ir realizando curtas metragens abstractas. Só que sei que, com estas, nem uma menção honrosa poderei receber no Festival de Vila do Conde. Não faz mal. Vai sempre havendo aquela ou aquela frase que nos afaga o ego e nos faz voltar a escrever outra inutilidade que vá enchendo o silêncio com que a nossa falta de senso comum gosta de encher os ouvidos e os olhos dos outros que, com certeza, têm livros, discos e filmes mais interessantes que as nossas palavras parcamente insufladas de inspiração. Hoje foi à escola uma menina que já ali tinha sido aluna e que agora se estreia com um livrinho que me pareceu vagamente inspirado no Harry Potter mas com um sabor feminino (no sentido mau da expressão) com fortes tons de cor de rosa e fadas e coisas brilhantes. A impressão passou a certeza quando os alunos lhe perguntaram quais os seus escritores preferidos e ela respondeu Danielle Steel e Paulo Coelho. De volta à sala os alunos perguntaram-me se eu tinha ficado com vontade de ler o livro da menina. Eu fui sincero e disse que não. Porquê, professor? Porque eu não tenho gostos semelhantes à da autora, disse, não gosto dos autores que ela referiu como sendo os preferidos dela. Eles não sabiam quem eram os dois autores. E expliquei que o primeiro era uma autora e não um autor (como a intervenção da menina fez parecer aos alunos ) e que o segundo era de um dos autores mais lidos (ou mais comprados) no mundo depois de Maomé e Moisés, mas que para mim não valia nada. Uma aluna diz-me logo que gostos não se discutem. E eu respondi que não, que os gostos discutem-se sim, e que é muito bom discutir gostos, e que seria óptimo que alguém de entre eles lesse o livro daquela autora e me viesse dizer no dia a seguir que era um livro maravilhoso. E seria ainda mais maravilhoso que o meu preconceito (e preconceito, em matéria de gosto, nem sequer é defeito, desde que seja assumido - mas isso já não fez parte da conversa) se transformasse, a partir da opinião deles, em admiração. Depois, deu o toque do meio do bloco e fui falar do buraco da camada de ozono para outra turma.

 

A autora chama-se Anabela Lopes e o livro, o primeiro do que se espera ser uma série de quatro, chama-se  "Lua: A Princesa da Floresta Dourada", e é editado pela "Mosaico de Palavras".

 

Agradecerei qualquer comentário de qualquer leitor que me venha a indicar que a autora, ainda que leitora de Steel e de Coelho, segue por trilhos mais interessantes.

 

Quanto a mim, continuo sem assunto (contradigo-me: continuo com muitos assuntos que se atropelam na minha crónica falta de tempo e de organização). Inté.

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publicado por Manuel Anastácio às 22:32
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2 comentários:
De Gerana a 26 de Maio de 2009 às 03:47
Nossa, leitora de Paulo Coelho!!! Sem comentários. Sei que é radicalismo de minha parte, mas uma má influência não é desejada na pessoa estreante. Enfim, gosto não se discute.
Eu sei do seu sonho em ser diretor de cinema, só que, ter o talento de escritor é D+, portanto vc está falando de barriga cheia, como se diz vulgarmente.
Vou falar sobre blogs literários na Academia de Letras da Bahia, em junho. Pode apostar: vou contar sobre o nosso encontro, como Gláucia também interagiu, toda essa troca via blogs. Goulart Gomes falará sobre sites literários. O dele é maravilhoso. Bjão.
De Anabela Lopes a 26 de Maio de 2009 às 17:47
Bem...
Eu não o conheço, nem o senhor a mim (não no verdadeiro sentido de "conhecer"). Mas venho, de minha justiça, responder a este seu post : eu sou a própria Anabela Lopes, e é com alguma tristeza que vejo o que escreve sobre mim. Estou apenas a dar os meus primeiros passos na literatura e dói um pouco ver a maneira como me "julga" apenas pelos meus autores favoritos. Eu não leio apenas Danielle Steel e Paulo Coelho. Também leio autores conceituados como Eça de Queiroz e José Saramago. Além de que estes autores não influenciaram em nada no meu livro, pelo que é errado julgar-me apenas por esse aspecto.
Sendo eu ainda uma jovem, é como um "murro no estômago" saber que um professor, que nem me conhece, vem dizer num blog público que "um livrinho que me pareceu vagamente inspirado no Harry Potter mas com um sabor feminino (no sentido mau da expressão) com fortes tons de cor de rosa e fadas e coisas brilhantes"...
Não pretendo agradar a todos, sei que é impossível. Só achei de muito mau gosto manifestar-se aqui. Se era isso que realmente pensava, vinha falar comigo. Teria aceite a sua opinião e teria oportunidade de me defender.
Mas isto só me tornará mais forte... afinal de contas, eu já realizei o meu sonho, e continuarei a escrever, nem que seja de forma "cor-de-rosa e brilhante".
Com os melhores cumprimentos,
Anabela Lopes

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