Terça-feira, 19 de Maio de 2009
Sobre orgias e outras badalhoquices

Cena (em castelhano) de Calígula, de Tinto Brass.

 

Uma professora portuguesa de uma escola de Espinho andou a falar com os alunos sobre orgias romanas e sobre a homossexualidade na Antiguidade Grega. Os alunos, chocados, contaram aos pais. A professora soube (não sei como nem por que via, mas já estou habituado ao luso jornalismo que só conta as coisas por metade porque não sabe investigar nada) e fez ameaças aos alunos e teve conversas estúpidas com os alunos sobre os linguados que só não faziam às árvores porque elas não respondiam. Devo discordar da parte em que a senhora diz que as árvores não respondem às demonstrações de afecto. Se há ser vivo à face da terra que responde  a gestos de amor, são as árvores. Jesuis Cristo é o jardineiro e as arveres somos nozes, como diria a conhecida estrela do Youtube. As árvores respondem de insuspeitas maneiras ao amor que lhes é devotado, mas isso é outra questão no que à Educação Sexual diz respeito. Aquela senhora, dona das suas muitas habilitações literárias, ao contrário da minha pessoa que só tem uma licenciatura rasca e não tem pretensão a mais, até porque sei o que valem os canudos, em peso real, em Portugal, ainda que demonstrasse uma extrema ignorância sobre a homossexualidade na Grécia, que advinha apenas de valores moralistas, não digo morais, diferentes dos actuais e que, em termos absolutos, não significava que os gregos andassem todos nus em orgias depois da ginástica, apesar do que as figuras dos vasos poderão fazer pensar ao mediano cidadão dos tempos de hoje, e ainda que não perceba que as orgias romanas só diferem das actuais porque as actuais decorrem a horas menos oficiais que as dos imperadores que sobejamente admiravam os apetrechos cavalares dos seus cônsules, aquela senhora, dona das suas muitas habilitações literárias e que, apesar disso, pouco sabe de história, pecou apenas por uma, duas, três, esqueçam, por uma carrada de razões, mas a principal é por causa do seu enorme e nojento conservadorismo. Eu sei que não devia falar assim de alguém que está a ser avaliado apenas por algumas espersas gravações feitas por alunos que em nada simpatizavam com a senhora em causa. As frases soltas da senhora são berradas num tom que nem sempre é compreendido por quem nunca teve o dinamismo adolescente de trinta espécimes humanos à frente com um programa chato para dar. Aquela senhora, supostamente, quis apenas dar um outro colorido à história. Os alunos estão a adormecer com aquela história dos Romanos e... voi... basta falar de umas bailarinas meio despidas, ou quase totalmente despidas, ou mesmo todas badalhocamente despidas e de uns tipos que vomitavam depois de as comerem (será que elas eram assim tão feias?), para o público parar. Estou mesmo a ver a senhora... Olha, deu resultado: estão a olhar para mim, Aleluia! Consegui captar a atenção dos alunos! Vou pôr na minha autoavaliação: "motiva os alunos fazendo apelo as seus interesses". Espectáculo! E, já agora, passemos a falar também daqueles rabetas dos Gregos... Mas, pouco depois, ou um mês ou dois depois, a gente vai lá saber, que isso de gravações é muito dado a elipses, já está a senhora a dizer coisas muito bonitas sobre a perda da virgindade e de hímenes rotos durante o parto (como nem à Virgem Maria terá acontecido durante o parto de Jesus, ao que me parece, de uma leitura que já fiz não sei onde, já que a virgindade de Maria teria de ser a todos os níveis, não fosse a sensibilidade lógica dos crentes sofrer de golpe mortal com a possibilidade de uma membrana orgânica ter sofrido qualquer abrasão) e a querer envergonhar as meninas por causa de terem ou não visto filmes pornográficos. Mas o mais engraçado é o pessoal julgar que alunos do sétimo ano ou coisa que o valha, ainda não viram, nem que fosse um breve excerto, de um filme pornográfico. Viram, reviram, e não os choca. O que os chocou, naquela senhora, foi o tom. O tom prepotente de quem sabe, ou julga que sabe, o que diz. O tom prepotente de quem culpa os outros pelo desejo que sentem e pelos linguados que fazem. Não foi por esta senhora falar de orgias, nem de gregos pederastas, nem por treta nenhuma. Esta senhora foi culpada - ou talvez não - de querer implementar o que os governos portugueses de algum tempo para cá tentam impor de forma acéfala: e Educação Sexual por parte de uma classe de professores absolutamente heterogénea e, provavelmente, mal educada a esse nível. Os professores mais dados à mudança e mais liberais coexistem com professores com cheiro a sacristia. E se algo me vem às narinas ao ouvir as gravações descontextualizadas daquelas aulas, era cheiro a hóstia recessa tomada em pecado. Só ficam escandalizadas com este caso as pessoas que não sabem do que e como falam alunos do quinto ano a respeito de coisas que fariam envergonhar a minha avó (que, digo eu, era fresca). Vejo na SIC o Júlio Machado Vaz a dinamitar a senhora. Diz que aquilo não é Educação Sexual. Pois não. Não é. Mas acreditem que será essa a Educação Sexual que muitos alunos de Portugal terão se se mantiver a ideia absurda de pôr os professores a educarem sexualmente de acordo com uma coisa iluminada que se chama Projecto Curricular de Turma. Estou a ver o filme. Numa reunião de Conselho de Turma, o DT pergunta: a História, qual vai ser o contributo? A professora fica encabuldada e diz: "olha, posso falar da homossexualidade na Grécia Antiga e nas orgias dos Romanos"... tudo factos - muito pseudo, de facto - históricos... Mas a questão nem é essa: aqueles alunos detestavam aquela professora. Esse é o facto. E, de seguida, tentam (e conseguem) encravá-la pescando-a com o isco que mais a atrai: os pecados da carne. Para aquela senhora, a história da humanidade é um mural de cenas retiradas do Marquês de Sade filmado pelo Pasolini. Ela é a espectadora chocada. Ela é os próprios pais daquelas puras criancinhas que ficam chocadas com a professora que fala dessas coisas horríveis. Aquela professora é a sinédoque de todos os pais que acham terrível a ideia de dar nas escolas, de graça, aquilo que os alunos já têm de graça (e muito bem) fora da escola. Aquela professora (aquela, a das gravações, que a verdadeira, não a conheço de lado algum) identifica-se com os mesmos pais que agora a querem linchar. Os pais que falam destes jovens sem vergonha que fazem linguados e trocam cuspo a cada canto da escola. Este episódio é apenas um sinal da hipocrisia e da parvoíce que repassa a sociedadezinha portuguesa. E, no meio de tudo, a professora, cujas palavras gravadas e respectivo tom eu condeno veementemente) não é, bem vistas as coisas, de modo algum, a mais hipócrita. Será, provavelmente, uma das mais parvas... mas esse é o menor dos males.

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publicado por Manuel Anastácio às 23:39
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1 comentário:
De candida a 26 de Maio de 2009 às 01:18
eu devo ser das poucas pessoas k ainda não viu o video.

Dizer de sua justiça

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