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Domingo, 17 de Maio de 2009
O Homem que matou José Sócrates

Excerto de "O Homem que matou Liberty Valance", na altura em que matar era uma questão de honra.

 

Chama-se erva-cicutária, mas não tem nada a ver com cicuta que matou o sábio grego. É uma planta umbelífera. As flores, minúsculas, estão agrupadas naquilo a que os botânicos chamam de umbelas, palavra que faz lembrar guarda-chuva. São umbelíferas as cenouras e a salsa, mas os alhos, que não são umbelíferas, também têm flores em forma de umbela. Há outras ervas altas a passar perante o olhar fixo no fundo da estrada daquele homem que vai mudar o mundo... o mundo não, vá lá... Portugal. Sim, aquele homem vai mudar Portugal ao fazer a curva tapada por grandes hastes de erva cicutária, erva que nasce muito vulgarmente nas beiras das estradas e caminhos portugueses. Este homem que vai a correr, aconselhado pelo médico por causa da hipertensão que lhe foi diagnosticada não sabe que ao virar daquela umbela branquinha mais espetada se vai espetar contra o primeiro-ministro português que, não sendo natural daquela terra, ali pernoitou por causas que se prendem ao cargo e que não vêm agora ao caso, até porque o ficcionista tem mais em que se preocupar.

 

Do lado ortogonalmente oposto ao do homem que, por enquanto, ainda não matou Sócrates, nem sei se vai matar, vem esse mesmo, de nome José, senhor de porte elegante e cabelos prateados que, apesar de simples primeiro ministro de um país que apenas foi grande em épocas passadas, já dá nas vistas dos ociosos jornalistas das vaidades mundanas do país ao lado. Naquela hora da manhã, quando os jornalistas ainda não o perseguem (é a vantagem de se ser primeiro ministro num país como este, onde os fotógrafos cor-de-rosa, como qualquer funcionário público, gostam é de passar a manhã na caminha, cansados das noitadas ao lado da Lili Caneças), Sócrates, com a noite mal dormida, passa rente às ervas que recebem indevidamente o nome daquela outra que matou o seu homónimo filósofo grego, mas ignora essas particularidades científicas. Por enquanto, só lhe passa pela cabeça aquela anedota parva que o põe a dizer num hotel, com o seu excelente inglês técnico, tu ti tu tu tu tu, querendo dizer "dois chás para o 222". Ele sabe que a anedota não é sobre ele em particular - basta procurar no Google para ver que outros políticos, como o Lula da  Silva, também são escolhidos pelos respectivos governados como personagens principais da anedota, mas não deixa de ser triste. Ele tem os seus defeitos, claro que tem... Quem não tem pecados que atire a primeira pedra, ora raios... É como aquela treta dos favorecimentos que os beiços gordos e peçonhentos da Moura Guedes pretende vender... Mesmo que fosse verdade... repete para si... mesmo que fosse verdade: quem é que em Portugal não vende favores? Quem???

 

Ao virar a última erva-cicutária daquele lado do caminho, bateu com o homem das Novas Oportunidades. Um simples choque que não traria consequências de maior, não fosse o caso de ambos estarem a grande velocidade e, em termos relativos, terem embatido ao dobro da velocidade média de um homem a fazer jogging, o que no momento foi particularmente grave já que o coração, em momento de diástole, não recebeu o sangue que devia entrar pelas aurículas, pelo que o primeiro caiu no chão, redondo, enquanto no seu cérebro apenas ouvia a sílaba parva de um tu tu tu tu e sobre ele dançavam umbelas brancas e angelicais. Antes de se apagar, ainda pensou que, felizmente, não devia nenhum galo a Esculápio.

 

O homem das Novas Oportunidades não o reconheceu. Não tinha saldo no telemóvel (estava desempregado e não podia ter esses luxos, mesmo com o subsídio que recebia por andar a estudar de novo) e não ligou para o INEM. Azar. Fugiu dali como um coelho foge da raposa. Ingrato. Cobarde. Mas, à tarde, insuspeito, sentiu-se importante quando deram a notícia na televisão, enquanto rodava entre os dedos o canudo que lhe tinha sido entregue no dia anterior.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 23:00
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1 comentário:
De Maria Helena a 17 de Maio de 2009 às 23:52
Excelente maneira de pensar na semana que bate à porta!! Esta semana, sempre que o sorriso se me esvair dos lábios já sei qual é o dador mais próximo...
É que me escangalhei a rir!!!

Boa semana e beijo.

Maria Helena

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