Terça-feira, 5 de Maio de 2009
In memoriam Vasco Granja (1925 - 2009)

Concerto Grosso Modo, de François Aubry, do National Film Board of Canada

 

Dele, a minha mãe só dizia que estava sempre na mesma. Apresentava bonecos. Mais tarde, passei a chamar-lhes desenhos animados. Mais tarde ainda, passei a chamar-lhes, pomposamente, cinema de animação. Hoje, os meus alunos de Urgezes, dizem que é macacada. E isso irrita-me. É deplorável ver múdos daquela idade com a sensibilidade tão romba que, não sendo capazes de admirar uma cena lamechas do Bambi, muito menos o serão de um filme do National Board of Canada... É deplorável, acima de tudo, saber (de conhecimento certo) que aquilo que nos eleva a alma será motivo de troça, não só daqueles que, hoje, rombos, julgam que são árbitros do gosto, mas também daqueles que, no futuro, senhores de outros níveis de compreensão da realidade íntima das coisas e da coisa humana, nos olharão, e aos nossos objectos de adoração, como meros acidentes evolutivos, incompletos, rombos. E quando isso me assalta, só me resta pensar como a Santa Teresinha do Menino Jesus que dizia que a santidade não se mede pela quantidade de Espírito Santo, mas pelo de grau de satisfação da alma, no seu todo, no que diz respeito à recepção da graça divina. Se alguém for um vaso de grandes proporções e estiver apenas meio cheio será mais santo que o pequeno dedal que fica cheio apenas com algumas gotas de santidade? É mais importante a quantidade ou a relação? Obviamente que é a relação. A Santa de  Lisieux não estava muito longe, na Teologia, do que Einstein pensava na Física - vá lá eu pregar isso aos retrógrados católicos (não falo do catolicismo em geral, entenda-se, mas de alguns espécimes manhosos) que recusam todo e qualquer argumento racional só porque é "relativista". Eu sou relativista. Graças a Deus. E tenho para mim que Deus também o é. Quanto ao Vasco Granja, que não tem culpa nenhuma das minhas preocupações teológicas (eu devia mas era estar a corrigir testes), foi uma dessas almas que me encheu a alma. De graça divina. Obrigado, Vasco. Que a minha mãe tenha razão, e que te mantenhas sempre na mesma. Gostaria que sim.

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publicado por Manuel Anastácio às 23:10
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4 comentários:
De Paulo a 6 de Maio de 2009 às 14:10
Tenho lido várias homenagens a Vasco Granja mas esta é a mais bonita.
De Maria Helena a 8 de Maio de 2009 às 21:13
Que não pareça indiferença, mas, por vezes, o silêncio é a melhor maneira de contar alguma coisa que me toca profundamente.
Só hoje consigo verbalizar o quanto gostei desta homenagem.
Um dia, Manuel, hei-de ter a oportunidade de lhe oferecer rosinhas de toucado, que outros acham pelo nome de rosas de Sta. Teresinha, para testemunhar o gosto que também tenho pela santa da Pequena Via.
E quanto aos espécimes manhosos pior seria se lhes lembrasse que a Ciência demorou imenso tempo a confirmar o Cântico das Criaturas, que o pobre do Francisco também não tinha biblioteca, nem sabia o que era o hidrogénio, tão pouco o hélio, muitos menos o carbono 14.
Beijo.
Maria Helena
(seavota no anonimato)
De Manuel Anastácio a 12 de Maio de 2009 às 00:16
Obrigado, Paulo e Maria Helena (sim, eu podia apostar quanto à identidade da Seavota: há estilos inconfundíveis). E tenho a marinar um comentário alargado em forma de artigo aos pontos florais que vos unem: as rosas de Santa Teresinha... ele há coincidências...
De Paulo a 13 de Maio de 2009 às 01:44
Por muito que a outra diga que ele não as há.
É-me difícil decidir por uma só espécie de flores, como por um cantor ou um concerto, ou a ópera da minha vida. Há as glicínias e a madressilva, mas as rosas de Santa Teresinha deixam-me sem tino. Não lhes resisto.

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