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Sexta-feira, 17 de Abril de 2009
Gran Torino, de Clint Eastwood

Trailer de "Gran Torino", de Clint Eastwood

 

Lembro-me de que a primeira vez que vi um filme com o Clint Eastwood foi numa passagem de ano. Um canal qualquer (não sei se ainda existia a SIC) passou às duas da manhã, mais coisa menos coisa, "O Bom, o Mau e o Vilão". Confesso que nessa altura, vá-se lá compreender as aberrações produzidas pela Natureza, tinha mais capacidade para compreender um filme do Ingmar Bergman que um filme do Sergio Leone. Hoje, as coisas inverteram-se. Cada vez mais, creio que o Sergio Leone foi mais capaz de chegar aos píncaros compreensíveis da alma (sim, eu sei que é uma expressão que não se compreende muito bem, mas isso já não deve ser novidade para quem me lê) do que Bergman que, chegando aos píncaros compreensíveis da alma, insistia em acrescentar-lhe o incompreensível da música que não se ouve (juro que não sei dizer isto de outra maneira - não sou eu a fazer-me ao pingarelho da intelectualice).

 

Depois, vi o "Bird", mas não entendi muito bem. Era demasiado jazz para os meus ouvidos deseducados. Quando vi "Play Misty for Me" enjoei-me. Detestei um "Dirty Harry", demorei a ver o "Unforgiven" e se não fosse o muito subvalorizado "Perfect World" (onde só tenho a apontar a enorme ignorância demonstrada pelo argumentista John Lee Hancock em relação às Testemunhas de Jeová), não teria tido tanto empenho em ver o "Million Dollar Baby" que o consagrou, do ponto de onde vejo as coisas, como o continuador da obra cinematográfica que ponho em primeiro lugar nas minhas preferências cinéfilas, que é a de John Ford, o cineasta das ideias que nós, ocidentais, temos sobre a família. E a família, para os ocidentais, define-se pela ausência, pelas palavras que não se dizem, pelos muros de silêncio que gerações, a velocidades e estilos diferentes, constroem com todo o empenho que se põe num divórcio.

 

"Gran Torino" é um filme fordiano porque é um filme sobre família, e, ainda mais, sobre a imagem que os homens (com letra minúscula) ocidentais, de "cultura western", como diria Ford, fazem da família a partir da família que fazem. Se a família que se encontra como nossa vem dos antípodas orientais é exatamente porque precisamos desesperadamente de ver morrer nos nossos braços a dureza que não é suficiente para nos definir como homens - tough ain't enough, como diria o Frankie de Million Dollar Baby - e descobrir a dureza que, como um caroço, se esconde na polpa mole do fruto que tem de apodrecer para que o caroço apareça na sua gloriosa função de semente. Se a família que se encontra como nossa vem dos antípodas orientais é porque é preciso morrer para que se nasça de novo. Se a família que se encontra como nossa vem dos antípodas orientais é porque a rosa dos ventos já não é a mesma. Mo cuishle disse-me, depois de ver este filme, que só a fazia ver filmes para chorar. Não é bem assim, mas há filmes em que vale a pena chorar, mesmo que seja por um velho patife. Por um velho patife em quem reconhecemos a glória de ser semente e a suprema força de se imolar por um Deus que se chama Amor e que consegue redefinir, em Deus e no Amor, a ideia de Vingança. A Vingança a Deus pertence. Confesso que jamais me ocorreria mais bela imagem que a deste filme para poder explicar o que uma frase batida como esta tem de verdadeiro.

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publicado por Manuel Anastácio às 00:26
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1 comentário:
De Paulo Hasse Paixão a 17 de Abril de 2009 às 01:28
Há tanto para dizer deste filme e este é um filme tão absolutamente simples. Eu acho que fazes muito bem em preferir o Leone ao Bergman. Eu também não gostei do Unforgiven à primeira, mas tenho hoje certeza que o Clint é completamente génio. O teu link é de uma gentileza que não mereço.

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