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Sexta-feira, 10 de Abril de 2009
Offret, de Andrei Tarkovsky

Cena de "Offret: O Sacrifício", de Andrei Tarkovsky

 

Quem me lê com lupa sabe que venero o filme "Ordet", de Dreyer. Não há obra de arte que melhor me conte o mistério das coisas em que quereria acreditar. Não tenho de gostar de um filme ou de um livro porque ele diz aquilo que quero ou acho razoável ouvir. A minha noção de fé aproxima-se da ideia de loucura. Digamos que essa era também a noção do próprio Jesus de Nazaré, enventualmente com algumas diferenças que me estão, pelo menos por enquanto, vedadas à compreensão.

 

Com "Offret", "O Sacrifício", de Tarkovsky, completei, na minha perspectiva de cinéfilo, em jeito de constelação apercebível aos meus olhos míopes, uma grande trilogia sobre a Fé, juntamente com o filme de Dreyer e "Breaking the Waves" de Lars von Trier. O que tenho escrito em dois textos desgarrados e que por enquanto não fazem grande sentido, porque são meras partes de um todo, e a que dei o nome de "Os Anéis de Mercúrio" pretende desenvolver o assunto sob a minha própria perspectiva. Mas voltemos a Offret.

 

Como em todos os filmes de Tarkovsky, as imagens são de uma beleza visual pictórica, detalhada ao milímetro, como numa composição do divino e, nas palavras do carteiro do filme, aterrador Leonardo. O filme é uma obra-prima do terror. Não porque tenha quaisquer características do que é vugarmente chamado filme de terror ou suspense, mas porque lida com o maior dos terrores: o da angústia existencialista face ao mistério a que alguns chamaram de absurdo. A personagem principal, encarnada por um bergmaniano Erland Josephson, que se oferece em sacrifício, faz um sacrifício tão absurdo e sem propósito que custa a engolir a história. Contudo, não há história para engolir. Estamos apenas perante uma personagem, um homem, que se entrega à pura irracionalidade por amor aos outros. Não podendo oferecer a sua vida (já que no seu dilema, ele mesmo está condenado a perdê-la juntamente com os outros) pode, contudo, oferecer a sua lucidez ("tudo o que o liga ao mundo"). Não nos cabe a nós dizer se com "razão", no sentido de "verdade", ou não. Porque o que está em jogo é o mistério.

 

Sempre me fascinou esse sentido estranho dado pela teologia à palavra mistério. Não o mistério das Ciências que eu, homem de Ciência, cultivo (ao contrário do que muitos poderão pensar ao ler os meus artigos de constantes preocupações teológicas),  e que sendo algo de inatingível à nossa compreensão, vamos paulatinamente compreendendo a cada descoberta sobre a urdidura física do Universo, mas o(s) mistério(s) da Fé. A Ciência, sabemos nós que a ela nos dedicamos, não traz respostas definitivas, nunca chega ao cerne das coisas. Nem pretende. Um corpo é quente porque as suas partículas componentes vibram. Mas porque é que vibram? Porque é essa a forma como se manifesta uma das formas de energia desse corpo. E aqui esbarramos. O que é a energia? É um mistério. A Ciência é muito má em definições. A Fé pode chegar ao cerne das coisas. Ou não. É um mistério. Que, aparentemente, aparece claro aos olhos de quem a tem. A mim, aparece-me como algo de turvo, quando serve de argumento para opções políticas que impõem aos outros as consequências lógicas dessa fé, como nas questões da despenalização do aborto, na proibição da eutanásia, na adoção de crianças por homossexuais - ou quando a fé implica certos sacrifícios humanos, mesmo quando o próprio ofertante do sacrifício se imola juntamente com os infiéis, em holocausto agradável às narinas de algum Senhor em que, não, não tenho Fé nem quero ter.

 

 

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publicado por Manuel Anastácio às 01:13
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5 comentários:
De ana ramon a 10 de Abril de 2009 às 17:09
Com o pequeno vídeo espicaçaste-me a vontade de arranjar o filme de que falas e que não conheço.
A minha relação com o Sagrado aproxima-se da tua e por isso julgo perceber muito bem o que dizes. No entanto sempre me fascinou imenso a força que leva o homem a imolar-se numa oferta ao seu Senhor. Lembro-me bem do estado em que fiquei quando, na minha adolescência, esbarrei com o livro do Steinbeck .
Um beijinho grande
De Gerana a 12 de Abril de 2009 às 03:01
Como sempre, um excelente texto: você escreve super bem. Boa Páscoa!
De Paulo a 16 de Abril de 2009 às 01:50
O filme é mesmo muito bom. E a tua conclusão dispensa-me de tecer comentários que seriam redundantes. Belo texto (isto eu tinha que dizer).
De CLELIA a 29 de Maio de 2009 às 21:58
A OBRA É DIVINAL, ENVOLVE TODOS OS ASPECTOS RELEVANTES DA HUMANIDADE, DE FORMA INTENSA, VIBRANTE E TRANSCEDENTE...
De bizantino a 28 de Julho de 2009 às 17:35
parabéns por promover este cineasta, aconselhava-te ainda se não viste o filme "Nostalgia" de Tarkivsky e já agora uma visita ao meu blog de cinema - "forum do cinema". bizantino.blogs.sapo.pt

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