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Quarta-feira, 1 de Abril de 2009
Little Miss Sunshine

 

 

O mau gosto pode ser, estranhamente, a mais bela coisa do mundo. Este filme em nada se pode classificar como sendo de mau gosto. Há nele elementos pop suficientes para que qualquer intelectualóide o abomine, mas não é, em nada, um filme menor. É um filme de uma sabedoria profunda e de um sorriso do tamanho do sofrimento. Uma das personagens, mal acabado de sair de um suicídio frustrado, resume a obra de Proust como sendo a descoberta do valor do sofrimento. Contradizendo, ou talvez não, o seu ato falhado, diz que apagar os anos de sofrimento é apagar os anos que contam. E este filme, uma comédia sobre uma família que quer, a todo o custo, levar uma criança a um abominável concurso de beleza, consegue o que tantos filmes de Bergman não conseguiram, embora tenham escavado na alma humana, ou o que Proust nunca tentou dizer, embora o tenha dito por outras palavras, por outras vias, fosse pelo lado de Guermantes, fosse pelo lado de Swan. Se Bergman nos fala dos problemas de comunicação e se Proust nos fala dos desaires do desejo, os autores deste pequeno filme, adequado a uma tarde ociosa de domingo, fala-nos de tudo isso, tomando a forma de um certo mau gosto de algumas comédias americanas e algumas das suas moralidades mais lamechas, sem que, contudo, se confunda com uma coisa ou com a outra. É obra. Prima.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 00:43
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4 comentários:
De Maria Helena a 9 de Abril de 2009 às 14:25
Subo
e a subida cansa.
Desato as correias dos sapatos
liberto as cilhas do bornal
e mergulho sózinha numa dança
que por ser assim tão segredada
tão nas alturas
e alheia aos outros que não veêm
nem a eles nem a mim me fará mal.
Ao caminho regresso, depois,
que ele não foge
nem a minha vontade deserta
dos meus pés.
e se os membros que me membram
estão já lassos,
e quase fora do limite dos meus passos
pouco importa e continuo
que lá no alto,
mesmo que a mim não me encontrasse
haveria horizontes
ventos soltos e espaços.

Manuel, Páscoa santa.
(Dê um beijo meu à Gerana e à Glaucia, se fizer o favor)

Maria Helena
De Manuel Anastácio a 10 de Abril de 2009 às 01:24
Creio que por esta caixa de comentários, já o beijo chegou às destinatárias, bem como o belo poema pascal que recebo como semente primaveril. Vejo estios com fruto nas tuas palavras. Páscoa Santa para ti também.
De Alysson a 21 de Abril de 2009 às 02:38
Fui fisgado por essa comédia, arrebatado por sua leveza impossível. Sucedeu comigo: falou-me de coisas que não ouvi em Bergman e em Antonioni.

Como ser golpeado por uma pena que deveria provocar em nós não mais que um riso momentâneo.
De Manuel Anastácio a 25 de Abril de 2009 às 18:45
Ainda bem que gostaste. Outras vozes, levadas pela minha, ficaram decepcionadas com o filme (para não dizer pior). A profundidade das coisas não está na seriedade com que são ditas.

Abraço.

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