Segunda-feira, 23 de Março de 2009
Os Anéis de Mercúrio I

"A Última Ceia", de Leonardo da Vinci. Clicar na imagem para os devidos créditos.

 

Qual foi o filme que mais te emocionou?

 

O Mundo, de Carl Theodor Dreyer.

 

Gosto de Dreyer. A Paixão de Joana D'Arc é fantástico. Falei dele uma vez aos meus alunos, para ilustrar um ponto qualquer do que estava a ser falado. Expliquei que não era filme que eles adorassem particularmente ver, mas que, quem sabe, um dia poderiam vir a gostar e, quem sabe, a gostar tanto dele quanto eu. Expliquei que era um filme mudo. Que era lento. Que não tinha "a(c)ção" na ideia de a(c)ção deles. Que era feito de rostos, de dúvidas, de sofrimento, como retratos numa galeria.


É professor em que universidade?

 

Na universidade do Mundo. Tento licenciar miúdos com o canudo da Esperança.


Mais que a Esperança, há a Caridade.

 

...o Amor?...

 

A Caridade.

 

Caridade parece tão... paternalista. Parece estar a defender a esmola, em vez do sentimento maior que chega a definir Deus: o Amor.


Não sei que Bíblia lês. Eu leio a católica, e lá diz: Caridade, maior que que a Fé e que a Caridade.

 

Não existe nenhuma Bíblia Católica...

 

Claro que existe! A que se lê na missa.

 

Em que missa?

 

A missa é só uma!

 

É? Talvez seja. Foi uma só. Desde lá para cá que andamos todos a tentar imitá-la, em sua memória. Sem que o consigamos.

 

Não te entendo.

 

Nem eu a ti.

 

Participamos de missas diferentes, apesar de a hóstia ser a mesma.

 

Duvido... Quando recebo a hóstia, sinto naquele pedaço de farinha prensada a substância divina, o corpo de Deus, porque sei que ao tomá-la, com a minha fé, estou a transportar-me ao momento da despedida. Nessa altura, a farinha toma a substância real do corpo daquele que se deu em sacrifício por nós. Sinto naquele pedaço de farinha o Amor a tomar conta de cada átomo, porque passo a comungar daquele amor em que tenho Fé e em que se baseia toda a minha esperança.

 

Falas demasiado sobre as coisas sagradas. Arriscas-te a pecar contra o Espírito Santo.

 

Todos nós nos arriscamos a pecar contra o Espírito Santo. Basta não sabermos no que consiste esse pecado. Mas penso que basta não querermos pecar contra Ele, para que tal mal não nos afe(c)te.

 

Pensas demasiado, falas demasiado. Tens por acaso curso em Teologia?

 

Cristo não tinha.

 

E comparas-te a Cristo.

 

Sim. É o meu modelo de vida.

 

Fazia-te bem pensares como São Pedro, que morreu de pernas para o ar porque se julgava indigno de imitar o Mestre.

 

Duvido que Pedro tivesse tal morte...


Pensas muito. Falas demasiado. Por isso, duvidas.

 

Não duvido do Amor...

 

Ah... Mas duvidas da Fé?

 

Sempre. A Fé é mais difícil que o Amor, ainda que o Amor seja maior que a Fé. Cristo disse, aliás, que o seu fardo era leve. Creio que era a isso que se referia: ao fa(c)to de que é mais fácil abraçar o Amor, que é Maior, do que a Fé, que é Menor, ainda que seja ela a que consegue mover montanhas.


Ai, se ainda existisse o Santo Ofício...

 

... Estaria pronto para o enfrentar. Como a Joana D'Arc de Dreyer. Creio eu. Ou talvez não. Tavez fosse cobarde e aceitasse abjurar o meu Amor em troca de uma Fé emprestada.

 

A tua arrogância não tem limites.

 

... Vejo que tens aí a lista dos dez filmes recomendados pelo Vaticano...

 

Sim.

 

Posso ver?...

Olha! Dreyer!... Duas vezes! Olha aparece aqui o filme de que falaste, "O Mundo"... Não conheço... Isto deve ser erro... Não será "A  Palavra"? Repara, pegaram no título do filme em inglês e acrescentaram por gralha um L...

 

...

 

...olha, o que é que se passa mesmo com o Sporting?...

 

 

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publicado por Manuel Anastácio às 23:09
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2 comentários:
De Maria Helena a 24 de Março de 2009 às 21:50
Comovente.
Abençoado herético.
De Gerana a 26 de Março de 2009 às 14:34
Comovente mesmo. Gostei bastante.

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