Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009
Revanche, de Gotz Spielman

Um muito mau trailer de um filme belíssimo. Se pretende ver o filme, não carregue no play. Mostra mais do que deve. E não estou a falar dos nus, claro...

 

Quando este filme acaba, em vez da habitual reflexão ou reprise musical, o genérico é acompanhado de simples sons de aves e um certo e plácido rumor de vento. O mérito do trabalho de Gotz Spielman está em contar uma história, por vezes pouco credível e onde o argumento, traçado segundo um esquiço que não passa muito além disso, com a graça de uma autêntica obra de arte ao preencher a sua estrutura com uma cinematografização soberba dos momentos ditos mortos. É um filme de dobradiças. Um biombo. As dobradiças são os momentos chaves do enredo, os momentos que se esperam, os momentos que se temem e os momentos que, providencialmente (e é aqui que o enredo não consegue passar de esquiço), resolvem os dilemas das duas personagens centrais. O filme começa por apresentar o primeiro par amoroso no contexto sórdido da prostituição urbana e, em contraponto, um segundo par amoroso na placidez rural de um local geograficamente próximo. A história leva à aproximação dos dois pares e, qual metáfora goethiana das Afinidades Electivas, estabelece-se um ciclo bioquímico atribulado que passa pela extinção de compostos e pela formação de outros, sem que, alguma vez, se negue o amor que une os dois pares. Desenganem-se, contudo, se julgam que falo de triângulos amorosos ou coisa que o valha.

 

Há outras dobradiças no filme. Ao contrário das outras, estruturais, narrativas, estas são puro deleite poético. A mais bela de todas é sugerida no primeiro plano: a superfície das águas calmas de um lago que reflete a copa das árvores que o ladeiam e que é subitamente agitado pelo cair do que se julga ser uma pedra e que se refere a uma cena, já próxima do final e da resolução do enredo, onde o mesmo acontecimento é filmado por entre os troncos das árvores que víamos espelhados na água, no primeiro plano, enquanto a superfície do lago é, agora, não subitamente perturbada pelo cair do que se julga ser uma pedra, mas ofuscantemente transformada por um sopro que percorre o plano e o enche de luz. Sem dúvida um dos mais belos planos alguma vez cinematografados. Não sei até que ponto é que as condições de filmagem (ou mesmo após) foram ou não manipuladas para chegar àquele resultado, mas a verdade é que os meus olhos continuam a descrer do que viram.

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publicado por Manuel Anastácio às 20:00
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