Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2004
11’09’’01 – 11 Perspectivas

                                      11-de-setembro-3.jpg

Lembrei-me de Baptista Bastos a perguntar aos seus convidados de um programa de televisão: “Onde é que você estava no 25 de Abril?”… O caso foi anedota mas… num outro reverso, quem de nós não contou já em que circunstâncias recebeu a notícia de uma Nova Iorque coroada de martírio e caliça? Onde estávamos nós? A maioria correu para uma televisão. Era como se o homem voltasse a descer de novo pela primeira vez na lua. Verdade seja dita: havia clima de festa mesmo nas lágrimas e no horror. Uma orgia de imagens, de sons, comentários… Lembro-me de ouvir o Miguel Sousa Tavares a dizer: “muito se escreverá sobre este dia… muitos filmes serão feitos…”. Pensei o mesmo. Ainda não estamos no tempo certo para fazer render um filme tipo “Titanic” ou “Pearl Harbour”. Nem creio que o tempo torne as coisas mais objectivas neste caso. Antes pelo contrário. O tempo irá mitificar aquilo que queria  ser apenas um acto panfletário (à custa de um dos horrores mais cruciantes alguma vez tornados públicos de forma tão violenta graças à televisão e ao VHS dos turistas que passeavam em Manhathan) e nisso foi tornado. Não há um código deontológico para estas coisas (por isso mesmo até os embaixadores, gente tão diplomática, se atiram raivosos, hoje em dia, a objectos que apenas são arte, compreenda-se no contexto artístico actual, porque se questionam enquanto tal – há quem não perceba isso ou não queira perceber mas, a verdade, é que arte éngagé não deveria – digo eu, mas quem sou eu? – ser decorativa. O panfleto é em si mesmo belo ou aterrador pela verdade (há sempre uma verdade em qualquer panfleto). Não precisa de estética material. A própria ética dá-lhe a sua beleza. Quando vemos um filme cheio de imagens horrorosa - Lembro-me, por exemplo, do “Kanal” de Andrzej Wajda (poderiam ser outros…) - se essas imagens trazem consigo podridão mas, ainda assim, nos comovem, não é pelo artifício mas pela verdade implícita. É nesse contexto que percebo o que levou Stockhausen a afirmar que a destruição das Torres Gémeas foi a maior obra de arte alguma vez produzida, digna de ser levada à Bienal de Veneza… Apesar de errar numa coisa: a Bienal de Veneza é que não seria digna de tal obra de arte. Arte Satânica? Talvez algo pior que isso, é verdade, mas que nos comoveu e fez mexer o pior que há de nós em querermos vasculhar na dor, em ouvir de novo os últimos telefonemas das vítimas (como no mais gabado dos segmentos do filme do Mexicano Iñárritu). Sendo sinceros: só não viu o acontecimento como uma obra de arte quem o viveu… Ou, daí, talvez seja nessas alturas em que o desespero nos leva ao mais sincero apelo à poesia. Talvez num último acto poético queiramos alcançar o Paraíso. Talvez um telefonema, talvez um salto para o último raio de luz. A beleza é infinitamente estranha. E consegue ser infinitamente dolorosa. Sem dor, duvido que soubéssemos o que é a beleza. Talvez infelizmente. Não sei.

Sei que há alturas em que criticar parece ser um exercício mórbido.

É por isso que elejo o filme de Sean Penn exactamente pela sua perigosa ambiguidade. Como o velho Borgnine diz para o espaço vazio onde deveria estar a sua amada: devias ter visto isto. Todos devíamos ver tudo. A tragédia é que a luz nos falta.

E estes filmes, irregulares, são sempre exercícios sobre a luz. Ensaios sobre a cegueira. Nunca conseguiriam ser grandes obras de arte porque morrem ofuscados pelo tema que elegeram: como diria Stockhausen (perversamente? Creio que não), por uma obra de arte infinitamente maior para a qual nunca haverá aplausos (que os houve) nem lágrimas (que as há ainda) que façam redimir um mundo onde a arte deixou de ser ficção.

 

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 01:51
link do post | Dizer de sua justiça | Adicionar aos favoritos
1 comentário:
De Fred a 27 de Fevereiro de 2004 às 14:53
Óptimo e abrangente comentário. Complemtento de um brilhante conjunto de filmes, concerteza.

Dizer de sua justiça

.pesquisar